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Antes de delatora, outros funcionários já alertavam para os problemas do Facebook

Embora tenham relatado experiências parecidas com as de Frances Haugen, trabalhadores da rede social foram ignorados internamente

18 out 2021 05h11
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Na mesma época que Frances Haugen estava baixando dezenas de milhares de documentos reveladores a respeito do Facebook, outro pesquisador do mesmo setor em que ela trabalhava pediu demissão em meio a uma mistura de exaustão e frustração. Ele também tinha perdido a esperança de que poderia mudar as coisas na empresa de Mark Zuckerberg.

Esse funcionário era Brian Waismeyer, que, como Frances, fazia parte da unidade de integridade da empresa. Ele deixou clara sua insatisfação em uma publicação de despedida no quadro de mensagens interno da empresa — um local conhecido para se expressar a crescente divergência dentro de uma empresa cujos próprios funcionários têm se tornado uma formidável fonte de críticas. Ele disse que a rede social tornou "excepcionalmente difícil" para pessoas com trabalhos como o dele — de ajustar um serviço de rede social focado no crescimento — "a tal ponto que impedia o avanço e levava ao esgotamento aqueles que lidavam com isso".

O panorama geral retratado nessas mensagens de despedida contundentes, muitas das quais obtidas pelo Washington Post, ecoa relatos de dezenas de atuais e ex-funcionários entrevistados recentemente e nos últimos anos: o Facebook está obcecado com o crescimento, relutante em levar a cabo reformas sistêmicas, apesar dos danos documentados; e pronto para receber os politicamente poderosos, principalmente o ex-presidente Donald Trump nos anos anteriores à sua exclusão da plataforma depois do ataque em 6 de janeiro ao Capitólio dos Estados Unidos.

O crescente volume de reclamações como essas levou o Facebook a um momento perigoso no qual está sendo criticado publicamente pelos dois principais partidos em Washington e investigado por reguladores em todo o mundo. Uma empresa que sobreviveu a uma sequência implacável de controvérsias ao longo de sua história de 17 anos, enquanto se tornava cada vez maior e mais rica, agora enfrenta um consenso crescente de que a autorregulação precisa ser revista; apenas uma ação governamental enérgica — nos EUA e em outros lugares — pode conter o hábito da empresa de permitir conteúdo que compromete a democracia e causa danos aos indivíduos.

Alguns viram o depoimento de Frances — e a coleção de documentos que ela compartilhou com repórteres e legisladores — como passos em direção a esse objetivo.

"Estou feliz que esses documentos provem o que muitos têm dito: os dirigentes do Facebook priorizam o crescimento e o poder político sobre o bem-estar dos usuários — e qualquer um que tente mudar isso continuamente não consegue fazer progressos", disse Yael Eistenstadt, ex-executiva do Facebook que já depôs no Congresso sobre como ela lutou contra a liderança sênior por causa de uma relutância em verificar fatos com informações equivocadas em anúncios políticos.

Os ex-funcionários entrevistados pelo Post descreveram suas próprias experiências desagradáveis; do otimismo inicial de que eles poderiam desempenhar um papel nos ajustes do serviço à frustração com a qual se depararam dentro da empresa até a resignação de que o Facebook era incapaz de se transformar internamente. Em alguns casos, eles se manifestaram publicamente, no Congresso, ou vazaram documentos confidenciais — às vezes as críticas os tornaram persona-non-grata no setor de tecnologia.

No entanto, frequentemente, eles usavam o quadro de mensagens interno da empresa, chamado de "Workplace", para alertar os 60 mil funcionários do Facebook com mensagens que não costumavam ficar disponíveis ao público. Eles falaram do desânimo que surgiu depois de acreditarem que estavam na linha de frente para proteger as pessoas do ódio e dos danos causados online, apenas para se darem conta dos projetos internos deixados de lado pela administração. Pelo menos 10 integrantes do setor de integridade, onde Frances trabalhava, estão atualmente em um departamento semelhante no Twitter.

"Colher relatos de ex-funcionários não conta a história de como as mudanças acontecem no Facebook. Nossa equipe de integridade está repleta de profissionais incríveis que tornam nossa plataforma melhor ", disse o porta-voz do Facebook, Joe Osborne. "Os projetos passam por análises e debates rigorosos exatamente para que possamos estar seguros de qualquer possível mudança e seu impacto nas pessoas. Na verdade, acabamos implementando variações de muitas das ideias levantadas nesta matéria — e somos gratos a todos que trabalharam nessas questões complexas."

Alguns críticos internos têm sentimentos contraditórios em relação a Frances. Embora eles fiquem felizes com os ajustes que podem resultar da lavação de roupa suja em público, aqueles que ainda estão nas trincheiras acham que pode se tornar mais difícil executar mudanças internamente, de acordo com três pessoas. Alguns também sentiram que Frances exagerou seu entendimento de questões com as quais ela não trabalhou diretamente e pesquisas que ela não conduziu. Em vários momentos durante seu depoimento, Frances disse aos senadores que não poderia responder às perguntas porque não tinha conhecimento direto.

As preocupações de que as condições pudessem se tornar mais difíceis para aqueles que gostariam de realizar mudanças foram reforçadas pela reação ao depoimento de Frances pelo CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, que, no passado, costumava se desculpar pelos erros da empresa, mas, desta vez, assumiu uma postura mais desafiadora.

Em um texto publicado em sua página pessoal no início do mês, ele disse que, quando uma pesquisa corporativa não é divulgada adequadamente ao público, isso desencoraja as empresas a examinarem seus problemas. "Se atacarmos as organizações que se esforçam para estudar o impacto delas no mundo, estamos, na prática, enviando a mensagem de que é mais seguro fazer vista grossa, caso encontrem algo que possa ser usado contra elas", escreveu ele, observando que a empresa ainda estava comprometida com sua pesquisa.

Esperança e Frustração

Embora poucos desses ex-funcionários do Facebook tenham se manifestado em público e de forma tão potente quanto Frances, muitos se reuniram nos bastidores por meses, às vezes anos, remoendo o que viram enquanto trabalhavam no Facebook. Muitos contactados pelo Post se recusaram a falar ou fazer comentários mesmo sob a condição de anonimato para proteger seus empregos atuais ou em respeito aos ex-colegas de trabalho. Quando entramos em contato com Waismeyer, ele confirmou ser o autor da mensagem e que a descrição de sua experiência estava correta, porém se recusava a comentar mais "por respeito às muitas pessoas maravilhosas que ainda batalham pela boa luta da integridade" no Facebook.

Quando Waismeyer pediu demissão em março, ele era um dos pesquisadores mais antigos no setor de integridade da empresa, que passou a englobar várias subunidades, como integridade cívica e integridade da comunidade. Durante seus mais de três anos no setor de integridade, ele passou mais de um ano trabalhando em um projeto para ajudar vítimas de pornografia de vingança a denunciar tais publicações à empresa, de acordo com sua postagem final e outra pessoa familiarizada com a situação. O projeto foi abruptamente abandonado durante uma reorganização interna e nunca foi executado, chateando toda a equipe.

Em sua mensagem de despedida, Waismeyer escreveu que as pessoas que trabalham no setor de integridade enfrentam fardos específicos em seus empregos. O valor do trabalho delas é sempre avaliado em relação aos potenciais riscos legais e de reputação da empresa, assim como se ele prejudicaria os resultados ou reduziria a quantidade de tempo que as pessoas passam na plataforma, afirmou. Além disso, o trabalho pode ser emocionalmente prejudicial tanto pela exposição repetida a conteúdo nocivo quanto pelo contato, por meio de entrevistas ou pesquisas, com pessoas que foram prejudicadas ou que causaram danos a outras pessoas nas redes sociais.

Outro ex-funcionário — que assim como Weismayer tinha trabalhado no setor de integridade - falou da descoberta de problemas graves nos grupos privados do Facebook, que funcionam longe dos olhos do público e abrigam conteúdos problemáticos, como discurso de ódio. Esse ex-funcionário esperava ajudar o Facebook a resolver esses problemas, mas, repetidamente, encontrou obstáculos dentro da empresa.

"Estavam simplesmente zero por cento interessados nas coisas que eu lhes mostrava", disse este ex-funcionário que falou sob condição de anonimato. "Isso era apontado o tempo todo ... e consistentemente reprimido."

Em novembro de 2020, outra pesquisadora do setor de integridade, Lindsay Blackwell, escreveu uma longa carta de demissão no sistema de bate-papo da empresa. O projeto de Lindsay, chamado de Worst of the Worst (Algo como "O pior do pior" ou WoW), foi uma iniciativa para aprimorar os algoritmos de detecção de discurso de ódio da empresa depois de uma pesquisa interna descobrir que os usuários querem que o Facebook policie algumas formas muito prejudiciais de discurso de ódio, como ataques a muçulmanos ou pessoas LGBTQIAP+ , com mais rigor do que outras, segundo uma pessoa familiarizada com o projeto, que também falou sob a condição de anonimato para falar de questões delicadas. Depois de a equipe passar mais de um ano desenvolvendo uma solução para reorientar os algoritmos, gerentes e líderes seniores redefiniram dramaticamente o projeto, argumentando que priorizar a segurança de grupos marginalizados seria político demais, disse a pessoa. Lindsay não quis se pronunciar.

Tendências pró-Trump

Outros descreveram a frustração particular com a evidente inclinação para a direita do escritório de políticas do Facebook quando Trump surgiu como o candidato republicano à presidência em 2016 e, ainda mais, depois que ganhou a Casa Branca. Vários ex-funcionários descreveram como um grupo de líderes republicanos no escritório da empresa em Washington, liderado pelo ex-funcionário do governo George W. Bush, Joel Kaplan, vice-presidente de política pública global do Facebook, resistia constantemente aos esforços para combater mais agressivamente as informações falsas, o discurso de ódio e o incitamento à violência por medo de se indispor com Trump e seus apoiadores. O Post relatou anteriormente que Kaplan se opôs a algumas iniciativas de policiamento de fake news, alegando que "afetariam desproporcionalmente os conservadores".

Outro cientista de dados que trabalhou na empresa disse que os executivos se opuseram aos apelos dos pesquisadores para identificar os "Proud Boys" como uma organização extremista por pelo menos quatro meses antes de a empresa oficializar isso, por preocupação de que os "Proud Boys" tivessem o apoio do Partido Republicano.

"Os republicanos na equipe de políticas públicas tomaram todas as decisões para evitar chatear Trump", disse um ex-funcionário. "Eles apenas pensavam em maneiras de fazê-lo feliz para que Trump não descontasse neles."

O Facebook está lutando contra um êxodo de funcionários há algum tempo. Ondas de demissões surgiram após a decisão da empresa de não remover uma publicação racista de Trump, em maio de 2020, que parecia endossar a violência contra as pessoas que protestavam pela morte de George Floyd, um homem negro que morreu sob custódia policial em Minneapolis. Ainda mais pessoas pediram demissão depois de ficarem sabendo do papel da empresa na promoção de grupos e conteúdo que levaram à insurreição do Capitólio em 6 de janeiro.

Mas, para as pessoas que trabalham em setores criados especificamente para mitigar os danos à sociedade, de modo particular uma subunidade chamada Integridade Cívica, onde Frances trabalhava, as pessoas deixaram os empregos porque sentiram que o trabalho dela foi desvalorizado ou impedido.

Outra pessoa que trabalhou no setor de integridade disse que uma equipe descobriu que poderia causar uma redução considerável na quantidade de discurso nocivo na plataforma se os algoritmos destinados a detectar esse tipo de fala fossem autorizados a realizar uma alteração mais abrangente — na prática, isso significaria remover conteúdo que era suspeito de ser discurso de ódio sem estar 100% certo disso. No entanto, os executivos cancelaram o esforço, deixando a equipe abalada. Eles tomaram a decisão dizendo que não queriam arriscar censurar as pessoas injustamente, mesmo que isso pudesse reduzir de forma significativa o discurso de ódio e os danos em geral, disse a pessoa.

Várias outras familiarizadas com o trabalho do setor de integridade disseram que as equipes foram reorganizadas diversas vezes durante um único ano e, no fim, partes dele foram extintas, causando frustração generalizada e deixando projetos incompletos.

"Não entramos no Facebook porque éramos grandes fãs da empresa", disse uma das pessoas. "Nós fomos trabalhar lá porque — em vez de gritar sobre como algo é uma droga, acreditamos que podemos torná-lo melhor. Mas com o tempo, você percebe que a chefia é indiferente ou ignorante. Às vezes, eles não priorizam o trabalho. Outras vezes, não entendem a complexidade logística, então subestimam isso até que desapareça." /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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