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Alexa, Siri e Google são acusados de ouvir conversas mesmo quando não deveriam

Consumidores estão preocupados que os assistentes de voz estejam gravando conversas para fins publicitários; empresas negam

11 set 2021 05h11
| atualizado às 09h30
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Gigantes da tecnologia há muito tempo têm encorajado o uso de alto-falantes inteligentes em nossas casas e celulares, tentando convencer os consumidores a confiar nas assistentes de voz para qualquer necessidade que surja. Mas tem gente preocupada que esses dispositivos estejam gravando até mesmo quando não deveriam- e estão levando seus temores para os tribunais.

No começo do mês, um juiz determinou que a Apple terá que enfrentar uma ação movida por usuários em um tribunal federal da Califórnia, que acusa a assistente de voz da empresa, Siri, de ter gravado indevidamente conversas privadas.

O juiz disse que a maior parte do processo poderia seguir em frente, apesar da solicitação da Apple para que ele fosse arquivado. O juiz Jeffrey S. White, do tribunal distrital federal de Oakland, rejeitou uma parte que envolvia prejuízo econômico dos usuários. Mas ele decidiu que os requerentes, que estão tentando tornar o processo em uma espécie de ação coletiva (conhecida nos Estados Unidos como "class action"), poderiam continuar com as reivindicações de que a Siri foi acionada espontaneamente, gravou conversas que não deveria e repassou as informações para terceiros; portanto, violando a privacidade dos usuários.

O caso é um dos vários que foram movidos contra a Apple, o Google e a Amazon que envolvem alegações de violação de privacidade por meio de assistentes de voz. As tecnologias, muitas vezes chamadas por seus nomes - Siri, Alexa e, como era de se esperar, Google - têm como objetivo ajudar nas tarefas do dia a dia. Elas se conectam a alto-falantes e podem reproduzir música, ativar um cronômetro ou adicionar um item a uma lista de compras.

As empresas negam que estejam ouvindo conversas de seus usuários para qualquer fim que não seja o de ajudar em tarefas ou tocar música. A Amazon não respondeu de imediato às solicitações de comentários. A Apple mencionou registros dos processos judiciais e o Google disse que lutará contra o processo.

Esse tipo de tecnologia é desenvolvido para ser ativado ao escutar sua "palavra de ativação", disse Noah Goodman, professor de ciência da computação e psicologia na Universidade Stanford. Essa é uma tarefa desafiadora porque as vozes frequentemente variam de modo considerável de pessoa para pessoa.

Por mais que as empresas talvez tentem, é improvável que consigam "se livrar completamente dessas ativações indevidas", disse ele.

Este processo, e outro semelhante contra o Google, que também está tramitando no sistema judiciário federal da Califórnia, ameaça colocar as empresas mais uma vez em maus lençóis devido à forma como lidam com informações privadas que coletam de milhões de usuários. As assistentes de voz dispararam em popularidade - o eMarketer estimou no final do ano passado que 128 milhões de pessoas nos EUA usariam pelo menos uma delas mensalmente.

Porém, à medida que a popularidade delas cresce, mais pessoas estão levantando preocupações de que elas talvez estejam ouvindo além do que deveriam.

Uma investigação do Washington Post em 2019 descobriu que a Amazon mantinha uma cópia de tudo o que a Alexa registrava depois de achar que havia escutado seu nome - mesmo que os usuários não estivessem conscientes disso.

A ação contra o Google é movida pelos advogados do mesmo requerente e alega que a empresa não deveria estar usando informações coletadas quando seu assistente de voz foi ativado incorretamente para publicidade, segundo a Reuters.

Em resposta ao processo, a Apple disse que não vende gravações da Siri e que as gravações não estão associadas a um "indivíduo identificável".

"A Apple acredita que a privacidade é um direito humano fundamental e desenvolveu a Siri para que seus usuários possam ativá-la ou desativá-la a qualquer momento", disse a empresa em seu pedido de anulação do processo. "A Apple trabalha ativamente para melhorar a Siri e para evitar que ela seja ativada de forma equivocada, além de oferecer indicações visuais e de áudio (reconhecidas por vários requerentes) para que os usuários saibam quando a Siri é acionada."

Em um comunicado enviado por e-mail, o Google disse que mantém as informações seguras. "Por padrão, não retemos suas gravações de áudio e facilitamos o gerenciamento de suas preferências de privacidade, com coisas como respostas simples às suas dúvidas sobre privacidade ou ativação do modo visitante", disse o porta-voz José Castañeda. "Contestamos as alegações neste caso e nos defenderemos de forma enérgica."

As assistentes de voz devem ser acionadas quando solicitadas - dizendo "E aí, Siri", por exemplo -, mas o processo alega que os requerentes viram seus dispositivos serem ativados mesmo quando não disseram a palavra de ativação. Tais conversas foram gravadas sem seu consentimento e as informações foram depois usadas para direcionar anúncios para eles e enviadas a terceiros para análise, eles alegam.

"Essas conversas ocorreram em suas casas, seus quartos e carros, assim como em outros lugares onde os requerentes Lopez e A.L. estavam sozinhos ou tinham uma aceitável expectativa de privacidade", alega o processo.

Em 2019, a Apple suspendeu o uso de uma prática que permitia que revisores humanos ouvissem e "classificassem" as gravações feitas com a Siri. Na época, a empresa disse que usava as transcrições geradas por computador para a análise. As empresas de tecnologia dizem que usam essas análises para descobrir o que está funcionando ou não, com o intuito de melhorar seus produtos.

Poucos meses depois, a Associated Press informou que a Apple havia mais uma vez começado a usar pessoas para ouvir gravações, mas estava dando aos usuários a opção de cancelar essa prática em seus dispositivos.

Os processos pedem às empresas que arquem com as consequências do que fazem quando escutam algo que não deveriam. Nicole Ozer, diretora de tecnologia e liberdades civis da União Americana pelas Liberdades Civis na Califórnia, disse que as ações judiciais são um sinal de que as pessoas estão percebendo a quantidade de informações que a tecnologia de reconhecimento de voz está coletando. "Acho que essa ação é parte do processo das pessoas finalmente começarem a entender que a Siri não trabalha para a gente, mas, sim, para a Apple", disse ela. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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