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Acusações contra Bill Gates não devem afetar Microsoft e fundação filantrópica

O bilionário deverá continuar exercendo influência nas duas instituições

25 mai 2021 10h10
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Apesar das acusações de que Bill Gates perseguiu mulheres que trabalharam para ele, não espere mudanças em suas funções nas duas instituições icônicas que ele cofundou: a Microsoft e sua fundação filantrópica homônima.

Os críticos dizem que as revelações levantam questões de responsabilidade, embora não esteja claro até que ponto o dano à reputação de Gates pode afetar as instituições que estão intimamente associadas a ele.

A Fundação Bill e Melinda Gates diz que não está investigando as acusações, já que o relato do incidente envolvendo uma das maiores e mais influentes organizações sem fins lucrativos do mundo foi feito por "uma ex-funcionária anônima".

"A fundação nunca recebeu qualquer reclamação formal em relação a Bill Gates", observou o porta-voz em um comunicado à Associated Press. "Quando recebemos uma denúncia de má conduta, levamos muito a sério, conduzimos uma investigação e tomamos medidas adequadas à situação".

O New York Times e o Wall Street Journal detalharam o relato sobre o comportamento de Gates diante das mulheres, desde um caso aberto na Microsoft até a indiferença em relação à sua agora afastada esposa e copresidente da fundação, Melinda French Gates, além de convites a mulheres que se sentiam desconfortáveis com seus avanços em ambas as instituições.

A Microsoft disse que a empresa contratou um escritório de advocacia no final de 2019 para conduzir uma investigação depois que uma engenheira da Microsoft afirmou em carta que ela tivera um affair com Gates durante vários anos.

O porta-voz do escritório de Gates o caracterizou como "um caso de quase vinte anos atrás que terminou de maneira amigável".

O porta-voz da Microsoft, Frank X. Shaw, se recusou a responder outras perguntas sobre o que o conselho concluiu e por que a investigação não foi divulgada anteriormente - o CEO da empresa, Satya Nadella, porém, afirmou que a investigação não será encerrada. Em março de 2020, a empresa anunciou que Gates estava deixando o conselho para "dedicar mais tempo às suas prioridades filantrópicas", mas continuaria a atuar como conselheiro de tecnologia para Nadella e outros líderes da Microsoft.

O porta-voz de Gates disse que a investigação não o tirou do conselho e que por anos ele vinha planejando dedicar mais tempo à sua filantropia.

O porta-voz se referiu a uma declaração emitida ao New York Times: "É extremamente decepcionante que tantas inverdades tenham sido publicadas sobre a causa, as circunstâncias e a cronologia do divórcio de Bill Gates".

As acusações contra Bill Gates são uma bandeira vermelha para alguns dos acionistas da Microsoft, disse Natasha Lamb, sócia-gerente da Arjuna Capital, empresa de investimentos que vem pressionando a Microsoft para lidar com as questões de disparidade salarial. Ela disse que a empresa permitir que ele renunciasse foi covarde com ambos os Gates e com o conselho e que as revelações são "um verdadeiro revés para a Microsoft no que diz respeito à sua capacidade de atrair e reter talentos diversos".

"O caso de Bill Gates é um exemplo clássico de dinheiro e poder. Claramente, sua jogada era dar em cima das funcionárias. Foi assim que ele conheceu sua esposa. É claro que esse tipo de comportamento continuou", disse Lamb. "Isso deixa uma questão em aberto sobre como o conselho e a liderança estão enfrentando o assédio sexual dentro da empresa. Depois do MeToo, houve algumas mudanças na forma como a empresa estava lidando com essas questões internamente. Mas claramente apareceu esse sinal de mau comportamento no topo, que é o que define a cultura".

Uma ex-funcionária da Microsoft que travou uma batalha judicial de cinco anos contra a empresa por causa de uma suposta discriminação por gênero em salários e promoções disse que as alegações de Gates refletem problemas mais amplos com a cultura da empresa.

"Muitas de suas políticas sobre assédio no local de trabalho eram muito ineficazes para proteger as mulheres", disse Katie Moussouris, pesquisadora de segurança cibernética, que desistiu de seu processo contra a Microsoft em novembro. "Não estou nem um pouco surpresa".

Moussouris, que ingressou na empresa em 2007, sob o comando do então CEO Steve Ballmer, disse que não era incomum que engenheiras ocasionalmente se reunissem com altos executivos corporativos - especialmente quando faziam apresentações sobre suas pesquisas. Ela disse que isto levanta preocupações sobre a continuidade do papel de Gates como conselheiro técnico de Nadella.

"Isso significa que ele vai continuar participando desse tipo de reunião", disse ela. "O que não o impede de encontrar outras mulheres na Microsoft".

Não está claro até que ponto Melinda French Gates sabia de tais alegações, mas se aventou que ela estava ciente de suas investidas e ficou horrorizada com sua associação com o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein. Seu escritório particular, a Pivotal Ventures, não respondeu a um pedido de comentário.

Quando ela pediu o divórcio no início deste mês, o casal prometeu continuar trabalhando junto na fundação. Mas agora os observadores dizem que as recentes revelações podem dar a Melinda French Gates mais motivos para abrir sua própria organização de caridade após o divórcio, com a fatia do dinheiro não comprometido da fortuna dos Gates.

"Quanto mais surgem na imprensa histórias dizendo que Melinda não sabia de nada, menos interessada ela pode ficar em continuar seu papel colaborativo com o ex-marido no futuro", disse David Callahan, fundador do site Insider Philanthropy e autor de "The Givers: Wealth, Power, and Philanthropy in a New Gilded Age" [Os doadores: riqueza, poder e filantropia em uma nova era dourada].

O porta-voz de Gates refutou todas as afirmações.

"A caracterização de seus encontros com Epstein e outros sobre filantropia está imprecisa, incluindo quem participou. Da mesma forma, é falsa qualquer alegação de que Gates falou sobre seu casamento ou Melinda de maneira depreciativa. A alegação de má conduta no trato com os funcionários também é falsa. Os rumores e especulações em torno do divórcio de Gates estão se tornando cada vez mais absurdos e é uma pena que pessoas que têm pouco ou nenhum conhecimento da situação sejam qualificadas como 'fontes'".

É improvável que a maioria dos acionistas queiram balançar o barco da Microsoft, dados seus anos de crescimento constante desde que Nadella assumiu em 2014, os quais a transformaram em uma das empresas mais valiosas do mundo. Seus lucros crescentes e o desempenho das ações não foram afetados pela pandemia devido à importância de seus serviços para as pessoas que trabalham ou estudam em casa.

Em 2019, Arjuna Capital pediu aos acionistas da Microsoft que votassem a favor do relatório da empresa sobre as disparidades de gênero nos salários na reunião anual da empresa. A Microsoft pediu aos investidores que rejeitassem a proposta, o que eles fizeram - embora 30% tenham votado a favor, uma porcentagem relativamente alta para propostas ativistas. A firma de investimento fará uma nova tentativa ainda este ano.

Embora os relatos recentes tenham prejudicado Bill Gates e a fundação que leva seu nome, Lawrence Gostin, especialista em saúde pública da Universidade de Georgetown, diz que isso provavelmente não afetará a forma como as organizações sem fins lucrativos que buscam financiamento abordam a organização.

"A maioria dos beneficiários continuará procurando a fundação em busca de dinheiro, porque estão mais interessados em dinheiro do que nas intrigas que acontecem na fundação", disse Gostin. Mas, acrescentou ele, os relatos provavelmente influenciarão como o público verá o trabalho da fundação em torno da igualdade de gênero.

"A fundação não será vista como uma instituição que defende os altos padrões que espera que seus beneficiários representem", disse Gostin, acrescentando que a organização de caridade "terá que trabalhar muito para restaurar sua reputação e, particularmente, demonstrar que está levando a sério as alegações de assédio ou comportamento sexualmente impróprio". / TRADUÇÃO RENATO PRELORENTZOU

Estadão
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