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STF se antecipa a Congresso e julga pautas de costumes

A partir desta quarta, ministros da Corte vão analisar ações que pedem criminalização da homofobia, tema controverso entre parlamentares

12 fev 2019
05h10
atualizado às 08h05
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BRASÍLIA - O Supremo Tribunal Federal (STF) marcou para esta quarta-feira, 13, a discussão do primeiro de uma série de assuntos relacionados à pauta de costumes com potencial para colocar a Corte em colisão com parte do Congresso e com o Palácio do Planalto. No plenário, ministros vão julgar duas ações que pedem a criminalização da homofobia, tema controverso entre parlamentares e que permeou a campanha eleitoral.

Os julgamentos testarão as relações entre o tribunal e o Congresso no momento em que senadores miram a Corte e chegaram a articular a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o "ativismo judicial" de ministros - proposta que foi engavetada nesta segunda-feira, 11. Na "pauta de costumes" definida pelo presidente do STF, Dias Toffoli, o julgamento de ações do PPS e da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) sobre a discriminação contra homossexuais e transexuais terá prioridade.

O partido e a entidade querem que o Supremo não apenas declare o Congresso omisso por não ter votado projeto de lei que criminaliza a homofobia, mas também dê um prazo final para que os parlamentares aprovem uma legislação criminal que puna especificamente violência física, discursos de ódio e homicídios por causa da orientação sexual da vítima.

O plenário do STF, em Brasília
O plenário do STF, em Brasília
Foto: Adriano Machado / Reuters

A proposta sofre resistência das bancadas evangélica e do PSL - partido de Jair Bolsonaro -, que veem na medida uma forma de proibir pastores de pregarem contra a homossexualidade em templos religiosos.

Durante a campanha presidencial, o então candidato Bolsonaro criticou o "coitadismo" de gays ao contestar a adoção de políticas afirmativas para a comunidade LGBT. Eleito, em entrevista ao Jornal Nacional, o presidente mudou o tom e disse que a "agressão contra um semelhante tem que ser punida na forma da lei". "E, se for por um motivo como esse (ser gay), tem que ter sua pena agravada."

Ministros da Corte afirmam que o Supremo não pode deixar de cumprir o seu papel de defender minorias e zelar pelo cumprimento da Constituição. "São (temas) de interesse da sociedade. O que nós precisamos no País é de mais segurança jurídica, saber o que pode e o que não pode ocorrer no dia a dia da vida gregária", disse ao Estado o ministro Marco Aurélio Mello. "Não há colisão com o Planalto. O Planalto respeita a atuação do Judiciário e o Judiciário, tanto quanto possível, desde que não seja provocado e não caiba atuar de forma diversa, respeita a atuação (do Planalto)."

Um segundo ministro, que preferiu não se identificar, avaliou que o respeito ao princípio de separação dos Poderes "pressupõe independência" e ressaltou que o Supremo não pode se dobrar na defesa dos direitos de minorias. Para um terceiro ministro, o "STF é o STF, independentemente de presidente".

Outras ações

Na pauta do Supremo para este semestre está um pedido do PSL para alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e endurecer a punição a jovens infratores. O julgamento está previsto para março. Outra ação, também polêmica, tenta criar mais uma condição para aborto legal no País, incluindo a possibilidade para o caso de grávidas infectadas com o vírus da zika - agendada para o dia 22 de maio.

Os ministros vão apreciar ainda a ação que discute a descriminalização do porte de maconha para uso pessoal, que já tem três votos a favor no plenário. Para um ministro, esses temas estão colocados na pauta da sociedade e caberá ao STF decidi-los, independentemente de pressão da opinião pública ou dos demais Poderes. Quanto ao papel das redes sociais, um outro ministro ironizou. "Não estou nas redes sociais."

Embora se alinhem em questões como a defesa ou a crítica à Lava Jato, é difícil prever resultados, pois os ministros do STF costumam ter posições bem distintas em temas comportamentais.

Ao definir a pauta, porém, Toffoli deixou de fora ação que trata de projeto similar ao Escola sem Partido em Alagoas. Para ele, essa é uma discussão que provoca "catarse" na sociedade e a Corte deve enfrentá-la apenas depois de amplo debate.

O que será julgado

Criminalização da homofobia

Relatores: Celso de Mello e Edson Fachin.
Quem entrou com os processos: Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) e PPS, que apontam "omissão" do Congresso ao não tornar crime a homofobia.
Quando os processos chegaram ao STF: Maio de 2012 e dezembro de 2013, respectivamente.
Julgamento: nesta quarta-feira, 13.

Punição a jovens infratores
Relator:
Gilmar Mendes.
Quem entrou com o processo: Partido Social Liberal (PSL), que questiona dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) - entre eles o que veda a detenção de crianças e adolescentes para averiguação ou por motivo de perambulação.
Quando o processo chegou ao STF: Março de 2005.
Julgamento: 13 de março.

Aborto de grávidas com zika
Relatora:
 Cármen Lúcia.
Quem entrou com o processo: Associação Nacional dos Defensores Públicos, que questiona lei de combate a doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.
Quando o processo chegou ao STF: Agosto de 2016.
Julgamento: 22 de maio.

Descriminalização da maconha para uso pessoal

Relator: Gilmar Mendes.
Quem entrou com o processo: Defensoria Pública da União, que contesta lei que classifica como crime o uso de drogas para consumo próprio.
Quando o processo chegou ao STF: Fevereiro de 2011.
Julgamento: 5 de junho.

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Estadão
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