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Saída de Merkel dá início a período de turbulências na Alemanha; leia a análise

O país terá de suportar semanas, ou até meses, de conversas prolongadas para formação de coalizão entre partidos rivais que disputavam o poder

27 set 2021 10h10
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A única certeza para as eleições alemãs no domingo era que elas estavam fadadas a gerar um período de incerteza. Antes da votação, as pesquisas sugeriam uma disputa cada vez mais apertada entre os dois pesos-pesados políticos em declínio do país — o Partido Social-Democrata, de centro-esquerda, e a União Democrática Cristã, de centro-direita, da chanceler Angela Merkel — enquanto eles procuravam também afastar o desafio de outros partidos, incluindo os verdes e os democratas liberais. Qualquer que fosse o resultado, o país teria de suportar semanas, ou até meses, de conversas prolongadas para formação de coalizão entre partidos rivais que disputavam o poder.

Os resultados preliminares em Berlim mostraram os social-democratas, ou SPD, vencendo por dois pontos os democratas-cristãos, com os verdes apresentando fortes exibições à frente da alternativa para a Alemanha, de extrema direita. O resultado dará a Olaf Scholz, o favorito do SPD e atual ministro das finanças da Alemanha, o mandato mais forte para formar um governo de maioria, mas ainda não está claro se ele conseguirá. Scholz disse a repórteres no domingo que esperava descartar um cenário em que Merkel faça o costumeiro discurso de Natal da chanceler este ano com os partidos atolados em negociações sobre o próximo governo.

Há inúmeras opções de coalizão. A coalizão do "semáforo" - vermelho, amarelo e verde - veria uma aliança entre o SPD, os democratas liberais (FDP) e os verdes (GRUNE). Esse pode ser o primeiro bloco que Scholz espera reunir, mas diferenças ideológicas significativas podem ser um obstáculo. Uma coalizão alternativa poderia ver Scholz e seus aliados serem suplantados pelos democratas-cristãos. Essa coalizão quase chegou ao poder em 2017, antes que o líder do FDP, Christian Lindner, desistisse e fosse embora. A centro-direita e a centro-esquerda do país encontraram-se mais uma vez em uma aliança incômoda que nenhum dos dois realmente desejava.

Mesmo agora, não se pode descartar uma aliança batizada de "Quênia", em referência às cores da bandeira queniana, entre SPD (vermelho), CDU (preto) e os verdes, onde o SPD e os democratas-cristãos restauram a grande coalizão que dominou Merkel durante grande parte da década passada, desta vez aumentada pelos verdes em terceiro lugar. Menos provável - mas potencialmente ainda na mesa — é um governo de esquerda do SPD, Verdes e da extrema esquerda Die Linke (ou a esquerda), que remonta aos ex-comunistas governantes da Alemanha Oriental.

Seguindo a mania nacional, de nomear um acordo político de acordo com as bandeiras de um país, também existe a chance de uma coalizão "Alemanha", entre SPD (vermelho), CDU (preto) e FDP (amarelo). Por fim, muito se fala de uma coalizão "Jamaica", entre CDU, FDP e os verdes - embora a possibilidade seja mais remota, porque implicaria na ausência dos social-democratas - os ganhadores da eleição.

Outras alainaças são possíveis. Os partidos menores terão papel preponderante à medida que as negociações avançam, mantendo as carteiras dos principais ministérios como garantia. Eles podem sentir os ventos políticos soprando em sua direção, já que tanto o SDP quanto o CDU sofreram uma hemorragia de jovens eleitores para os Verdes e o FDP. Analistas apontaram para a crescente "holandificação" da política alemã — uma referência à fragmentação constante da política partidária tradicional no país vizinho, onde facções dominantes do século 20 perderam terreno considerável para novos partidos. Sentindo seu poder crescente, os verdes e o FDP devem negociar um com o outro antes de embarcarem no navio de um dos dois partidos maiores.

Os resultados preliminares marcam uma baixa histórica para os democratas-cristãos — um mau desempenho que pode, em parte, ser atribuído a Armin Laschet, o candidato escolhido pelo partido para suceder Merkel, mas que fez uma campanha marcada por gafes. O partido de Merkel perdeu votos para o SPD, com Scholz parecendo para muitos alemães uma figura mais plausível de estabilidade e continuidade do que Laschet. Com Merkel saindo do palco político, o eleitorado que ela dominava desde 1990 foi vencido por um adversário do SPD.

"Esta será uma longa noite de eleição", disse Scholz no domingo à noite. "Mas o que também está claro é que muitos eleitores votaram nos social-democratas porque querem uma mudança de governo e também porque querem que o próximo chanceler se chame Olaf Scholz."

Mas há um longo caminho pela frente antes que Scholz possa reivindicar o manto da liderança. O arranjo mais plausível — a coalizão de "semáforo" com os Verdes e o FDP - exigirá duras barganhas políticas entre Scholz e seus supostos parceiros. Lindner pode ser especialmente problemático: Scholz recentemente apelidou suas opiniões sobre o corte de impostos como "moralmente difíceis de justificar". E a crença de Lindner de que a luta contra o aquecimento global deveria ser deixada para o "livre mercado foi rejeitada explicitamente por Annalena Baerbock, a candidata dos verdes a chanceler.

"Neste momento, não consigo imaginar sobre o que Scholz e os Verdes poderiam oferecer ao FDP que seria atraente para nós", disse Lindner a apoiadores em um comício recente. Mas isso pode simplesmente marcar o início das negociações tensas que estão por vir.

Ao mesmo tempo, a maior economia da Europa e indiscutivelmente o seu jogador político mais importante se encontrará em uma espécie de limbo. Merkel ancorou anos de estabilidade política alemã, mas ela também foi um baluarte europeu — uma líder não oficial do continente que ajudou a conduzi-lo através de ciclos de crise política e econômica.

"A saída de Merkel cria um problema de liderança, um buraco no coração da Europa", disse Giovanni Orsina, diretor da Escola de Governo da Universidade Luiss Guido Carli em Roma. "Ou o novo chanceler preenche esse vazio ou precisamos conceber uma convergência coletiva."

Mas a Alemanha pode precisar ir além da era Merkel. Jens Geier, do grupo Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, disse ao Politico que um governo alemão liderado por Scholz teria um "papel muito mais ativo em Bruxelas". Os críticos de Merkel "dizem que ela atrasou as decisões na UE em um esforço para preservar o consenso e evitar conflitos - e ao fazê-lo, permitiu a erosão das normas democráticas em países como a Hungria e a Polônia". "A abordagem dela até ganhou seu próprio verbo: 'Merkeln', que significa hesitar ou esperar o tempo passar."

"Considerando que Merkel buscou equilíbrio, o próximo governo terá que tomar decisões-chave que o forçarão a escolher lados no tabuleiro internacional", escreveu Aaron Allen do Centro de Análise de Política Europeia, apontando para debates de longa data sobre as relações da Alemanha com países como China e Rússia. "Em qualquer caso, muitos alemães começaram a questionar a confiabilidade dos Estados Unidos, dado o euroceticismo [do presidente Donald] Trump e a forma como o atual presidente Joe Biden lidou com a retirada do Afeganistão. As questões transatlânticas permanecerão centrais, mas a Alemanha pode começar a mostrar uma tendência mais independente. "

Estadão
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