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Prisão de líder da oposição acirra tensões na Venezuela

Presidente da Assembleia Nacional, que pediu a destituição de Nicolás Maduro, foi preso por agentes do governo e logo depois liberado

14 jan 2019
10h20
atualizado às 12h17
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Em meio a uma disputa de poder entre o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a Assembleia Nacional, controlada pela oposição, a detenção por cerca de meia hora do presidente do parlamento, Juan Guaidó, neste domingo (13/01) contribuiu para o acirramento das tensões políticas no país, onde os poderes Executivo e Legislativo não se reconhecem mutuamente.

Guaidó, que pertence ao partido Vontade Popular, do líder oposicionista Leopoldo López, foi interceptado por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) na rodovia entre Caracas e La Guaira, onde participaria de um protesto contra o governo.

Um vídeo divulgado nas redes sociais mostrou vários agentes cercando o automóvel do parlamentar e o colocando à força dentro de um carro. Mais tarde, o próprio Guaidó enviou uma mensagem de celular a colaboradores e membros de seu partido informando que estava livre.

Líder oposicionista Juan Guaidó participa de protesto após der libertado na Venezuela
Líder oposicionista Juan Guaidó participa de protesto após der libertado na Venezuela
Foto: DW / Deutsche Welle

"Estão desesperados em Miraflores [sede do Executivo em Caracas], não sabem nem quem deu a ordem. Estes funcionários não sabiam o que faziam", declarou Guaidó após chegar com duas horas de atraso ao protesto.

Ele disse ter falado aos agentes que o detiveram sobre a lei de anistia que será debatida no parlamento para perdoar os crimes cometidos pelos dirigentes do regime que governa a Venezuela desde 1999, com a chegada do ex-líder Hugo Chávez ao poder. "Vocês, oficiais, sabem que Maduro não protege ninguém. O que protege é a lei de anistia da Assembleia Nacional, o que protege é o Estado de Direito."

Guidó renovou o apelo por uma "mudança efetiva de governo" e voltou a convocar a população a participar de uma manifestação no próximo dia 23 pelo não reconhecimento do novo mandato de Maduro, que assumiu sob protestos e condenações internacionais na última quinta-feira. "Eles não serão capazes de silenciar o grito da mudança", disse o parlamentar.

O ministro venezuelano de Comunicação e Informação, Jorge Rodríguez, negou que o governo tenha responsabilidade sobre a prisão do presidente da Assembleia Nacional e disse que os agentes que o detiveram agiram de forma independente. "Queremos informar a todo o povo da Venezuela que esses funcionários estão sendo destituídos e submetidos a um procedimento disciplinar mais estrito", disse o ministro.

Rodríguez explicou que os agentes "atuaram de maneira irregular" e que teriam participado de um "show midiático", utilizado pela oposição para atacar o governo. Também foram temporariamente detidos correspondentes das emissoras CNN e Caracol que haviam se dirigido à sede do Sebin para obter informações sobre o ocorrido.

Os países que compõem o Grupo de Lima, entre eles o Brasil, condenaram a prisão de Guaidó, rejeitando qualquer ato que afete a integridade física dos membros da Assembleia Nacional. Em nota divulgada pelo Ministério brasileiro das Relações Exteriores, as 13 nações condenaram a "detenção arbitrária" efetuada pelos serviços de inteligência da Venezuela.

Guaidó defende convocação de novas eleições

Na última sexta-feira, após Maduro tomar posse, Guaidó disse que estava pronto para assumir a presidência do país interinamente e convocar novas eleições. Ele pediu o apoio das Forças Armadas, da população e da comunidade internacional para que isso ocorra.

Maduro se reelegeu no ano passado em eleições amplamente criticadas. A legitimidade de seu segundo mandato foi questionada pela oposição venezuelana e por vários governos estrangeiros que não reconhecem o resultado do pleito.

A maioria da oposição venezuelana não participou das eleições, ou porque a considerava fraudulenta ou porque seus principais líderes estavam presos ou impossibilitados de concorrer. A presença de observadores internacionais não foi permitida.

Guaidó, de 35 anos, acusou Maduro de usurpar a presidência e afirmou que a Assembleia Nacional se baseará na Constituição para assumir o comando do país. Ele, porém, reconheceu as limitações da oposição para realizar uma mudança de governo na Venezuela.

Eleita em 2015 com maioria opositora, a Assembleia Nacional não tem conseguido exercer suas funções desde 2016. As decisões dos parlamentares não chegam a virar lei, e eles só se reúnem quando a Assembleia Nacional Constituinte - órgão plenipotenciário instalado por Maduro em 2017 e não reconhecido por potências estrangeiras - não está em sessão.

O Itamaraty declarou apoio às intenções do líder da oposição. "O governo brasileiro saúda a manifestação do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, de estar disposto a assumir constitucionalmente a presidência da Venezuela, diante da ilegitimidade da posse de Nicolás Maduro no dia 10 de janeiro", afirmou a chancelaria brasileira após as declarações de Guaidó.

Maduro, por sua vez, disse que essas ações são uma tentativa de desestabilizar seu novo governo e que foram encabeçadas pelo mesmo grupo que promoveu os protestos de 2017, que deixaram mais de 100 mortos.

"Enquanto estamos trabalhando todo o tempo, há mentes loucas, mentes improvisadas, mentes imaturas que estão à frente da oposição, vendo o que inventar, desesperadas", afirmou Maduro, destacando que seguirá cumprindo as funções para as quais foi eleito.

A Venezuela passa por uma profunda crise social, política e econômica, com inflação de quase 1.700.000% ao ano, além da falta de alimentos e remédios e da fuga de 3 milhões de habitantes, a maioria para a Colômbia e o Brasil. Maduro acusa os Estados Unidos, países aliados de Washington e empresários venezuelanos de travarem uma "guerra econômica" contra o seu governo.

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