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Presidente alemão conclama à defesa da democracia 75 anos após Dresden

13 fev 2020
17h40
atualizado em 14/2/2020 às 05h49
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Cerimônia lembra 25 mil vítimas do bombardeio dos Aliados em Dresden em 1945. Em discurso, Steinmeier lembra papel alemão na guerra e alerta que destruição da democracia, racismo e antissemitismo ainda são perigos reais.O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, escolheu suas palavras cuidadosamente nesta quinta-feira (13/02), durante a cerimônia que marcou um dos mais delicados aniversários ligados ao fim da Segunda Guerra Mundial: os 75 anos dos ataques aéreos à cidade de Dresden, no Leste alemão.

Presidente Steinmeier (à dir.) e príncipe Edward do Reino Unido participam de corrente humana em Dresden
Presidente Steinmeier (à dir.) e príncipe Edward do Reino Unido participam de corrente humana em Dresden
Foto: DW / Deutsche Welle

Em discurso no Kulturpalast (Palácio da Cultura), o chefe de Estado buscou um equilíbrio entre homenagear as milhares de vítimas dos bombardeios e enfatizar o papel da Alemanha na Guerra, fazendo ainda um pedido urgente aos alemães para que "defendam a democracia".

"Quando lembramos hoje a história da guerra em nosso país, recordamos duas coisas: o sofrimento das pessoas nas cidades alemãs e o sofrimento que a Alemanha infligiu sobre outras pessoas", disse Steinmeier diante de autoridades políticas e diplomáticas.

"Nós não esquecemos", continuou. "Foram os alemães que começaram essa guerra terrível, e, no fim das contas, foram milhões de alemães que a executaram - não todos, mas muitos, por convicção."

Ataques aéreos dos Estados Unidos e do Reino Unido destruíram o centro de Dresden em 13 de fevereiro de 1945 e nos dois dias posteriores, pouco antes do fim da Segunda Guerra. Estima-se que até 25 mil pessoas tenham perdido suas vidas. "Em poucas horas, as bombas destruíram muito do que as pessoas aqui em Dresden haviam construído ao longo de séculos", lembrou Steinmeier.

"Os atingidos pelas bombas foram escolhidos pelo acaso. Elas caíram sobre crianças, mulheres e homens; sobre cidadãos de Dresden e refugiados da Prússia Oriental e da Silésia. Elas caíram sobre soldados e prisioneiros de guerra, sobre nazistas e membros da Gestapo, bem como combatentes da resistência, trabalhadores forçados e prisioneiros de campos de concentração."

Segundo o presidente, o bombardeio de Dresden traz à lembrança a destruição da democracia, a arrogância nacionalista, o desprezo pela humanidade, o fanatismo racial e o antissemitismo: "Temo que esses perigos não tenham sido banidos até hoje."

Para Steinmeier, tais fatores voltam a envenenar a vida pública e as instituições democráticas da Alemanha, e não basta que democratas simplesmente ignorem esses perigos: "Nada disso deve permanecer incontestado em nosso país. Devemos todos rejeitar o ódio, combater insultos, contradizer o preconceito."

O aniversário do bombardeio carrega um legado complexo na Alemanha, onde muitos ultradireitistas se aproveitam da data para defender sua causa: eles dizem que os ataques foram crimes de guerra cometidos pelos Aliados e relativizam a culpa da Alemanha na Segunda Guerra.

Historiadores afirmam que os ataques a Dresden alimentaram um discurso de vitimização alemã inventado pelos nazistas, mais tarde assumido pelos comunistas da Alemanha Oriental e depois adotado pela extrema direita.

Por muitos anos, houve um debate intenso sobre a cifra de mortos no bombardeio. Usando números inflados propagados primeiro pelo regime nazista, grupos neonazistas falam até hoje de centenas de milhares de mortos. Um estudo feito em 2010 sob encomenda da cidade estabeleceu que até 25 mil pessoas morreram em três dias, mas isso pouco acalmou os extremistas de direita.

Em seu discurso, Steinmeier tocou nessa questão. Ele alertou contra "forças políticas" que tentam "manipular a história e abusar dela como arma". "Vamos trabalhar juntos por uma comemoração que se concentre no sofrimento das vítimas e dos enlutados, mas que também questione as razões desse sofrimento."

Mais tarde, o presidente se uniu a milhares de cidadãos para a formação de uma corrente humana a favor da "paz e da tolerância". Ao seu lado estava o príncipe Edward do Reino Unido, conde de Wessex e filho mais novo da rainha Elizabeth 2ª.

Além disso, durante a manhã, cerca de 200 cidadãos se reuniram para colocar grinaldas e flores brancas no cemitério Heidefriedhof, em memória dos mortos no bombardeio. A maioria das vítimas está enterrada numa vala comum no local.

Entre os presentes estavam o prefeito de Dresden, Detlef Sittel, e o presidente do parlamento estadual da Saxônia, Matthias Rössler. O governador Michael Kretschmer participou de outra cerimônia no cemitério Annenfriedhof.

Em comunicado, Kretschmer reiterou ser importante recordar a história para impedir que ela se repita, urgindo para que se tire conclusões corretas do passado, pois "todos nós assumimos a responsabilidade pela nossa democracia e por lidar uns com os outros de forma pacífica".

Marchas ultradireitistas também se tornaram tradição no aniversário do bombardeio, um evento que nos últimos anos foi encabeçado pelo partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Partidários da sigla estiveram reunidos na praça Altmarkt nesta quinta-feira, antes de uma vigília à noite, num paralelo nacionalista às comemorações oficiais.

"Os outros eventos tentam relativizar esses bombardeios devastadores em Dresden e colocá-los no contexto do que aconteceu em todo o mundo", afirmou à DW Jörg Urban, líder da AfD no estado da Saxônia. "Eles falam de guerras civis que acontecem mundo afora, dizendo que esse tipo de coisa acontece em qualquer lugar, e esquecem que nós, como cidade, tivemos um destino particular."

Dresden é capital do estado da Saxônia, considerada reduto da extrema direita no país, onde, nas eleições estaduais de setembro de 2019, a populista de direita AfD ficou em segundo lugar. No mês seguinte, a municipalidade de Dresden declarou situação de "emergência nazista", por ser palco frequente de marchas neonazistas e violência extremista.

Foi na cidade ainda que o movimento anti-islâmico e xenófobo Pegida (sigla em alemão para "patriotas europeus contra a islamização do Ocidente") começou, em 2014.

EK/rtr/dpa/afp/dw

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