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Melhor É Impossível mostra a boa mistura das linguagens de cinema e TV

Melvin Udall, o maníaco charmoso vivido por Jack Nicholson, e o cãozinho fora de série Verdell.
Jack Nicholson, quem diria, foi parar numa comédia de situação (sitcom), nome para as séries de TV que são o prato principal do horário nobre americano. "Melhor É Impossível" (As Good As It Gets) é um ótimo filme, mas na verdade é uma versão alongada de um episódio de série de TV. James Brooks, responsável por grandes nomes do gênero como Os Simpsons, Tracey Ullman Show e o clássico Mary Tyler Moore, sabe disso e tira do gênero o essencial, fazendo um filme tocante e engraçado e, até brilhante em alguns momentos, calcado no trabalho fantástico de todos os atores. Diálogos afiados e engraçados mas tão absolutamente perfeitos que somente a própria excentricidade de Jack Nicholson pode tirá-lo do corriqueiro.

Nicholson é Melvin Udall, um escritor de romances completamente maníaco por limpeza, foragido de seu analista e que vive sua rotina antisséptica, sempre com medo de que alguém venha a estragá-la. Carol (Helen Hunt) é a única pessoa que o aguenta, garçonete do restaurante onde ele faz suas refeições diariamente, no mesmo horário e na mesma mesa. Seu vizinho, o pintor gay Simon, é dono do cachorrinho Verdell que a prinicípio atormenta a vida de Melvin, fazendo vez por outra suas necessidades no corredor do prédio.

O pânico e a discriminação de Melvin, completamente politicamente incorreto, são o ponto hilário do filme ao lado da magnífica atuação de Greg Kinnear como o vizinho Simon. Helen Hunt, apesar da boa atuação, parece estar representando o mesmo papel que a tornou famosa, a Jamie Buchman de Mad About You, o seriado da Sony que já lhe rendeu vários prêmios. Hunt é forte candidata ao Oscar de melhor atriz, já que ganhou o Globo de Ouro no começo do ano, assim como Jack Nicholson, que nunca deixa seu jeito bad boy de lado e recebeu o prêmio mostrando seu traseiro para o público, numa alusão a Jim Carrey que lhe entregava o Globo de Ouro.

Greg Kinnear é também artista renomado na TV americana. Ele ficou conhecido como apresentador do canal a cabo E! e tem seu próprio talk show na rede NBC. Sua performance é cativante vivendo o pintor Simon sem as afetações óbvias em personagens gays, como se vê comumente. Outra atuação brilhante é de Cuba Gooding Jr. (Frank) como o marchand de Simon, que enfrenta Melvin e se faz respeitar. Uma das tiradas mais cômicas do filme é quando Frank vai tirar satisfações com Melvin sobre o cachorro de Simon, que foi aparecer no porão do prédio, atirado por Melvin na lixeira.

Os problemas de Melvin começam quando Simon é assaltado em sua casa e é brutalmente agredido fisicamente. Durante sua internação, Melvin é obrigado por Frank a cuidar de Verdell, o cachorro (que também merece um prêmio de atuação, quem sabe um Osso de Ouro). É aí que a verdadeira personalidade dócil e generosa de Melvin começa a aparecer. Ao mesmo tempo Carol passa a faltar no trabalho devido às frequentes internações de seu filho, que sofre de asma crônica. Melvin vê sua rotina desmantelar-se e começa a tomar providências para que tudo volte ao normal.

O estilo de vida especificamente nova-iorquino aqui também é a tônica. Existem muitos melvins e simons em N.York, uma cidade propícia a loucos e excêntricos. A maneira como os vizinhos se relacionam, as locações utilizadas e os tipos físicos retratados, fazem de "Melhor É Impossível" também um tratado da Grande Maçã, um dos mais divertidos que já se viu, mesmo sem a sofisticação dos filmes de Woody Allen. (Beth Ferreira)