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Esperança brasileira no Oscar

“O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto, concorre ao prêmio de melhor filme estrangeiro. Veja aqui a íntegra da entrevista de Fernando Gabeira, autor do livro em que foi baseado o filme, no chat do Zaz.

Por Tuio Becker, da Agência RBS

O clã dos Barreto tem motivos de sobra para festejar. Depois de colocar, há dois anos, "O Quatrilho", de Fábio Barreto, entre os concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro, a produtora de Luci e Luiz Carlos Barreto consegue classificar outra de suas realizações entre os cinco filmes que concorrem, no próximo dia 23 de março, na 70ª cerimônia de entrega do prêmio mais importante do cinema. O Que É Isso, Companheiro?, intitulado nos Estados Unidos Four Days in September (Quatro Dias em Setembro), disputa a estatueta com O Ladrão, de Pavel Chukhrai (Rússia), Character, de Mike Van Diem (Holanda), Segredos do Coração, de Montxo Armendáriz (Espanha), e Beyond Silence, de Caroline Link (Alemanha). O anúncio foi feito ontem em Los Angeles.

Indicado pelo Brasil juntamente com representantes de 43 países, O Que É Isso Companheiro? é o terceiro filme brasileiro a entrar na disputa final pelo Oscar. Foi precedido somente por O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, em 1962 – ano da Palma de Ouro brasileira no Festival de Cannes –, e por O Quatrilho. Dos filmes latino-americanos indicados, apenas um, A História Oficial, do argentino Luís Puenzo, chegou a arrebatar o prêmio, em 1985. Atualmente em cartaz em seis salas dos Estados Unidos, três em Nova York e três em Los Angeles, O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, estreou comercialmente na baixa temporada norte-americana, ao mesmo tempo que Tieta, de Carlos Diegues – o indicado do Brasil para o Oscar de 1997 –, e A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr.

Um dos mais ativos batalhadores no processo da retomada da produção cinematográfica no Brasil, Luiz Carlos Barreto obteve um expressivo resultado nas bilheterias brasileiras com O Quatrilho: 1,2 milhão de espectadores, o segundo maior público para filme nacional desde 1992, atrás apenas de Carlota Joaquina (1,26 milhão). O Que É Isso, Companheiro? não teve a mesma sorte no mercado brasileiro, atraindo cerca de 270 mil espectadores. O reinício da produção no Brasil permitiu que a LC Barreto Produções não parasse. Depois de Bela Donna, dirigido por Fábio Barreto, a produtora finaliza Uma Aventura de Zico. Orçada em R$ 5,3 milhões, essa mistura de ficção e documentário com o ex-jogador de futebol tem direção de Antônio Carlos Fontoura e deverá ser lançada antes da Copa do Mundo. Fábio Barreto desenvolve, atualmente, um roteiro sobre os Muckers, baseado no romance Videiras de Cristal, do escritor gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil, com início de filmagens previsto para o final de 1998.

Nesse contexto, a escalada da LC Barreto Produções rumo aos Estados Unidos parece evidente. Bela Donna tem no elenco dois atores de Hollywood de relativo prestígio, Andrew McCarthy (O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas) e Natasha Henstridge (A Experiência), misturados ao elenco brasileiro, mais a participação Florinda Bolkan, atriz conhecida internacionalmente. O filme foi rodado em inglês. O Que É Isso, Companheiro? já tinha Alan Arkin no elenco, interpretando o embaixador dos Estados Unidos. A direção de Bruno Barreto imprimiu ao filme o ritmo de um thriller, na linha dos policiais políticos de Costa-Gavras. Em 1969, Z, de Costa-Gavras, levou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Seria muita ousadia prever o mesmo para o filme de Bruno Barreto?

Conheça os filmes que estão no páreo

Por Tuio Becker, da Agência RBS

No caminho de O Quatrilho, de Fábio Barreto, havia um filme holandês, "A Excêntrica Família de Antônia", de Marleen Gorris, que acabou levando o prêmio. Entre os quatro filmes que disputam o Oscar de filme estrangeiro com O Que É Isso, Companheiro?, encontra-se um outro filme holandês, Character, de Mike Van Diem. Uma espécie de deferência da Academia a todos os países que sustentam a indústria cinematográfica norte-americana, o Oscar da categoria foi criado em 1949, duas décadas depois da estatueta. Monsieur Vincent, o Capelão das Galeras, do francês Maurice Cloche, foi o primeiro filme a conquistar o troféu.

Dos filmes que concorrem com O Que É Isso, Companheiro?, descartado o alemão Beyond Silence, os dois restantes têm tudo para agradar os votantes da Academia. Segredos do Coração, de Montxo Armendáriz, foi um dos filmes mais premiados da temporada espanhola de 1997. Além de conquistar um Anjo Azul em Berlim, levou quatro Goya na Espanha. Os americanos adoram filmes sobre crianças – Minha Vida em Cor-de-Rosa, do belga Alain Berliner, levou o Globo de Ouro de filme estrangeiro, mas foi descartado pelo Oscar. O personagem infantil, vivido por Andoni Erburu, cativa o espectador em sua descoberta do mundo adulto. O Ladrão, de Pavel Chukhrai, é um policial com tons de forte crítica social. Premiado no Festival de Cannes, em 1997, o filme foi comprado para distribuição no mercado norte-americano, da mesma forma que O Prisioneiro das Montanhas, de Serguei Bodrov, concorrente russo ao Oscar da categoria do ano passado.

Ecos de uma polêmica

Da Agência RBS

O filme brasileiro que concorre ao Oscar inflamou uma das mais tórridas polêmicas cinematográficas do ano passado. Desde o lançamento, em maio, O que É Isso, Companheiro? provocou artigos irados em jornais e revistas, rendeu debates em universidades e chegou a ser discutido na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça.

O filme – remotamente inspirado no livro do jornalista e deputado federal Fernando Gabeira – forneceu uma versão algo incendiária para os acontecimentos de setembro de 1969. A exemplo do episódio real, um grupo de militantes da Aliança Libertadora Nacional e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) seqüestrava o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrik, exigindo em troca a libertação de presos políticos. O diabo estaria no foco que o cineasta jogou sobre o incidente.

Segundo os detratores de Bruno Barreto, ele conseguiu de uma só feita absolver um regime antidemocrático, humanizar torturadores paramilitares e infantilizar militantes políticos. Pior ainda, ao emprestar nomes e codinomes de pessoas reais a personagens de ficção, teria concedido a algumas figuras a glória que não lhes pertence. Para outras, pechas que não lhes cabiam.

Na versão de Bruno Barreto e do roteirista Leopoldo Serran, o comandante da operação de guerrilha, Jonas (interpretado por Matheus Nachtergaele), é pintado como um brutamontes. Nada mais diferente do real, segundo quem conviveu com o operário Virgílio Gomes da Silva, codinome Jonas. Mesmo caso da militante Clara (Cláudia Abreu). No filme, ela dorme com o chefe da vigilância do embaixador para apurar detalhes sobre Elbrik. Sabe-se que ela, de fato, levantou informações, mas sempre na horizontal.

Ainda no filme é Gabeira quem tem a idéia do seqüestro, quem redige o manifesto dos guerrilheiros e quem protagoniza os momentos mais difíceis do episódio. Na vida real – ele próprio admite –, limitou-se a emprestar a casa e espalhar os bilhetes de resgate.

Na época, Bruno Barreto alegou que o filme era ficção. Gabeira fez eco e elogiou o fato de a obra reaquecer o debate sobre os anos de chumbo da ditadura.

Na última terça, no Rio, o deputado do Partido Verde festejou a indicação ao Oscar e falou em uma sensação “agridoce, uma mescla de felicidade e tristeza”. Em janeiro, Gabeira teve negado pela terceira vez o seu visto de entrada para os Estados Unidos, por conta de sua participação no seqüestro. “Com o sucesso do filme”, declarou, “espero que a situação seja logo resolvida.”

Outra vez Los Angeles

Da Agência RBS

Alma lavada. No dia 13 de fevereiro de 1996, renascia o sonho do cinema brasileiro de chegar perto da estátua dourada de Hollywood com a indicação de O Quatrilho para melhor filme estrangeiro do ano. A adaptação de Fábio Barreto para o romance de José Clemente Pozenato, filmada na Serra gaúcha, concorria com obras de peso, como O Homem das Estrelas, do italiano Giuseppe Tornatore, e A Excêntrica Família de Antônia, da holandesa Marleen Gorris, mas isso não desanimou a ninguém.

Os produtores Luci e Luiz Carlos Barreto pagaram para ver. Desembolsaram US$ 10 mil para Lloyd Leipzig, um dos lobistas mais prestigiados junto aos 143 membros da Academia e responsável pela consagração de Amadeus, de Milos Forman, em 1985. O Ministério da Cultura liberou uma verba de US$ 40 mil, que, somada aos US$ 27 mil provenientes do Itamaraty, foi usada na divulgação do filme em Los Angeles e Nova York. A Pandora, responsável pela distribuição internacional, entrou com US$ 70 mil para cobrir despesas de coquetéis, divulgação na imprensa e projeções para convidados.

Às vésperas de o sonho virar realidade, Fábio Barreto tinha apenas quatro convites que davam acesso ao Dorothy Chandler Pavillion, local da grande festa. Mesmo assim, a caravana formada por Lucy e Luiz Carlos Barreto, Fábio e sua mulher, Dora Pellegrino, as atrizes Patrícia Pillar e Glória Pires, com o marido, Orlando Moraes, os atores Bruno Campos e Alexandre Paternost, além do escritor José Clemente Pozenato, tomou um avião com destino a Los Angeles. No dia 25 de março, apenas Fábio, Dora e as duas estrelas de O Quatrilho pisaram no tapete vermelho do auditório, mas a torcida não foi menor. Apesar de todos terem consciência do favoritismo de A Excêntrica Família de Antônia, o clã Barreto ainda acredita em um milagre.

No Brasil, o clima era de final de Copa do Mundo. Bares e restaurantes instalaram telões para animar suas festas e cidades do Interior gaúcho assistir ao evento direto de suas praças centrais. Tudo para torcer pela saga dos imigrantes italianos que conseguem inverter as peças de um jogo sentimental. Depois que o ator Mel Gibson anunciou a produção holandesa como vencedora, os brasileiros não quiseram saber de festa. Se dirigiram ao hotel e começaram a fazer pensamento positivo para futuras indicações. Parece que deu certo.