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Esperança brasileira no Oscar
“O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno
Barreto, concorre ao prêmio de melhor filme
estrangeiro. Veja aqui a íntegra da entrevista de Fernando Gabeira, autor do livro em que foi baseado o filme, no chat do Zaz.
Por Tuio Becker, da Agência RBS
Indicado pelo Brasil juntamente com
representantes de 43 países, O Que É Isso
Companheiro? é o terceiro filme brasileiro a
entrar na disputa final pelo Oscar. Foi precedido
somente por O Pagador de Promessas, de
Anselmo Duarte, em 1962 – ano da Palma de
Ouro brasileira no Festival de Cannes –, e por O
Quatrilho. Dos filmes latino-americanos
indicados, apenas um, A História Oficial, do
argentino Luís Puenzo, chegou a arrebatar o
prêmio, em 1985. Atualmente em cartaz em seis
salas dos Estados Unidos, três em Nova York e
três em Los Angeles, O Que É Isso,
Companheiro?, de Bruno Barreto, estreou
comercialmente na baixa temporada
norte-americana, ao mesmo tempo que Tieta, de
Carlos Diegues – o indicado do Brasil para o
Oscar de 1997 –, e A Ostra e o Vento, de Walter
Lima Jr.
Um dos mais ativos batalhadores no
processo da retomada da produção
cinematográfica no Brasil, Luiz Carlos Barreto
obteve um expressivo resultado nas bilheterias
brasileiras com O Quatrilho: 1,2 milhão de
espectadores, o segundo maior público para
filme nacional desde 1992, atrás apenas de
Carlota Joaquina (1,26 milhão). O Que É Isso,
Companheiro? não teve a mesma sorte no
mercado brasileiro, atraindo cerca de 270 mil
espectadores. O reinício da produção no Brasil
permitiu que a LC Barreto Produções não
parasse. Depois de Bela Donna, dirigido por
Fábio Barreto, a produtora finaliza Uma Aventura
de Zico. Orçada em R$ 5,3 milhões, essa mistura
de ficção e documentário com o ex-jogador de
futebol tem direção de Antônio Carlos Fontoura e
deverá ser lançada antes da Copa do Mundo.
Fábio Barreto desenvolve, atualmente, um roteiro
sobre os Muckers, baseado no romance Videiras
de Cristal, do escritor gaúcho Luiz Antônio de
Assis Brasil, com início de filmagens previsto
para o final de 1998.
Nesse contexto, a escalada da LC Barreto
Produções rumo aos Estados Unidos parece
evidente. Bela Donna tem no elenco dois atores
de Hollywood de relativo prestígio, Andrew
McCarthy (O Primeiro Ano do Resto das Nossas
Vidas) e Natasha Henstridge (A Experiência),
misturados ao elenco brasileiro, mais a
participação Florinda Bolkan, atriz conhecida
internacionalmente. O filme foi rodado em inglês.
O Que É Isso, Companheiro? já tinha Alan Arkin
no elenco, interpretando o embaixador dos
Estados Unidos. A direção de Bruno Barreto
imprimiu ao filme o ritmo de um thriller, na linha
dos policiais políticos de Costa-Gavras. Em
1969, Z, de Costa-Gavras, levou o Oscar de
melhor filme estrangeiro. Seria muita ousadia
prever o mesmo para o filme de Bruno Barreto?
Conheça os filmes que estão no páreo
Por Tuio Becker, da Agência RBS
No caminho de O Quatrilho, de Fábio
Barreto, havia um filme holandês, "A
Excêntrica Família de Antônia", de Marleen
Gorris, que acabou levando o prêmio. Entre
os quatro filmes que disputam o Oscar de
filme estrangeiro com O Que É Isso,
Companheiro?, encontra-se um outro filme
holandês, Character, de Mike Van Diem.
Uma espécie de deferência da Academia a
todos os países que sustentam a indústria
cinematográfica norte-americana, o Oscar
da categoria foi criado em 1949, duas
décadas depois da estatueta. Monsieur
Vincent, o Capelão das Galeras, do francês
Maurice Cloche, foi o primeiro filme a
conquistar o troféu.
Dos filmes que concorrem com O Que
É Isso, Companheiro?, descartado o
alemão Beyond Silence, os dois restantes
têm tudo para agradar os votantes da
Academia. Segredos do Coração, de
Montxo Armendáriz, foi um dos filmes mais
premiados da temporada espanhola de
1997. Além de conquistar um Anjo Azul em
Berlim, levou quatro Goya na Espanha. Os
americanos adoram filmes sobre crianças –
Minha Vida em Cor-de-Rosa, do belga
Alain Berliner, levou o Globo de Ouro de
filme estrangeiro, mas foi descartado pelo
Oscar. O personagem infantil, vivido por
Andoni Erburu, cativa o espectador em sua
descoberta do mundo adulto. O Ladrão, de
Pavel Chukhrai, é um policial com tons de
forte crítica social. Premiado no Festival de
Cannes, em 1997, o filme foi comprado
para distribuição no mercado
norte-americano, da mesma forma que O
Prisioneiro das Montanhas, de Serguei
Bodrov, concorrente russo ao Oscar da
categoria do ano passado.
Ecos de uma polêmica
Da Agência RBS
O filme brasileiro que concorre ao
Oscar inflamou uma das mais tórridas
polêmicas cinematográficas do ano
passado. Desde o lançamento, em maio, O
que É Isso, Companheiro? provocou artigos
irados em jornais e revistas, rendeu
debates em universidades e chegou a ser
discutido na Comissão Especial de Mortos
e Desaparecidos do Ministério da Justiça.
O filme – remotamente inspirado no
livro do jornalista e deputado federal
Fernando Gabeira – forneceu uma versão
algo incendiária para os acontecimentos de
setembro de 1969. A exemplo do episódio
real, um grupo de militantes da Aliança
Libertadora Nacional e do Movimento
Revolucionário 8 de Outubro (MR-8)
seqüestrava o embaixador norte-americano
Charles Burke Elbrik, exigindo em troca a
libertação de presos políticos. O diabo
estaria no foco que o cineasta jogou sobre
o incidente.
Segundo os detratores de Bruno
Barreto, ele conseguiu de uma só feita
absolver um regime antidemocrático,
humanizar torturadores paramilitares e
infantilizar militantes políticos. Pior ainda, ao
emprestar nomes e codinomes de pessoas
reais a personagens de ficção, teria
concedido a algumas figuras a glória que
não lhes pertence. Para outras, pechas que
não lhes cabiam.
Na versão de Bruno Barreto e do
roteirista Leopoldo Serran, o comandante
da operação de guerrilha, Jonas
(interpretado por Matheus Nachtergaele), é
pintado como um brutamontes. Nada mais
diferente do real, segundo quem conviveu
com o operário Virgílio Gomes da Silva,
codinome Jonas. Mesmo caso da militante
Clara (Cláudia Abreu). No filme, ela dorme
com o chefe da vigilância do embaixador
para apurar detalhes sobre Elbrik. Sabe-se
que ela, de fato, levantou informações, mas
sempre na horizontal.
Ainda no filme é Gabeira quem tem a
idéia do seqüestro, quem redige o
manifesto dos guerrilheiros e quem
protagoniza os momentos mais difíceis do
episódio. Na vida real – ele próprio admite
–, limitou-se a emprestar a casa e espalhar
os bilhetes de resgate.
Na época, Bruno Barreto alegou que o
filme era ficção. Gabeira fez eco e elogiou o
fato de a obra reaquecer o debate sobre os
anos de chumbo da ditadura.
Na última terça, no Rio, o deputado do Partido
Verde festejou a indicação ao Oscar e falou
em uma sensação “agridoce, uma mescla
de felicidade e tristeza”. Em janeiro,
Gabeira teve negado pela terceira vez o seu
visto de entrada para os Estados Unidos,
por conta de sua participação no seqüestro.
“Com o sucesso do filme”, declarou,
“espero que a situação seja logo resolvida.”
Outra vez Los Angeles
Da Agência RBS
Alma lavada. No dia 13 de fevereiro de
1996, renascia o sonho do cinema
brasileiro de chegar perto da estátua
dourada de Hollywood com a indicação de
O Quatrilho para melhor filme estrangeiro
do ano. A adaptação de Fábio Barreto para
o romance de José Clemente Pozenato,
filmada na Serra gaúcha, concorria com
obras de peso, como O Homem das
Estrelas, do italiano Giuseppe Tornatore, e
A Excêntrica Família de Antônia, da
holandesa Marleen Gorris, mas isso não
desanimou a ninguém.
Os produtores Luci e Luiz Carlos
Barreto pagaram para ver. Desembolsaram
US$ 10 mil para Lloyd Leipzig, um dos
lobistas mais prestigiados junto aos 143
membros da Academia e responsável pela
consagração de Amadeus, de Milos
Forman, em 1985. O Ministério da Cultura
liberou uma verba de US$ 40 mil, que,
somada aos US$ 27 mil provenientes do
Itamaraty, foi usada na divulgação do filme
em Los Angeles e Nova York. A Pandora,
responsável pela distribuição internacional,
entrou com US$ 70 mil para cobrir
despesas de coquetéis, divulgação na
imprensa e projeções para convidados.
Às vésperas de o sonho virar
realidade, Fábio Barreto tinha apenas
quatro convites que davam acesso ao
Dorothy Chandler Pavillion, local da grande
festa. Mesmo assim, a caravana formada
por Lucy e Luiz Carlos Barreto, Fábio e sua
mulher, Dora Pellegrino, as atrizes Patrícia
Pillar e Glória Pires, com o marido, Orlando
Moraes, os atores Bruno Campos e
Alexandre Paternost, além do escritor José
Clemente Pozenato, tomou um avião com
destino a Los Angeles. No dia 25 de março,
apenas Fábio, Dora e as duas estrelas de
O Quatrilho pisaram no tapete vermelho do
auditório, mas a torcida não foi menor.
Apesar de todos terem consciência do
favoritismo de A Excêntrica Família de
Antônia, o clã Barreto ainda acredita em um
milagre.
No Brasil, o clima era de final de Copa
do Mundo. Bares e restaurantes instalaram
telões para animar suas festas e cidades
do Interior gaúcho assistir ao evento direto
de suas praças centrais. Tudo para torcer
pela saga dos imigrantes italianos que
conseguem inverter as peças de um jogo
sentimental. Depois que o ator Mel Gibson
anunciou a produção holandesa como
vencedora, os brasileiros não quiseram
saber de festa. Se dirigiram ao hotel e
começaram a fazer pensamento positivo
para futuras indicações. Parece que deu
certo.
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