PUBLICIDADE

Opinião: Putin e sua história fictícia da Ucrânia

18 jul 2021 13h46
ver comentários
Publicidade

Em artigo, o líder russo traça sua imagem do país vizinho: extensão do povo russo, liderado por um governo nulo, marionete do Ocidente. Combater a imaginária "anti-Rússia" virou missão de vida, opina Konstantin Eggert.Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos: assim o presidente da Rússia, Vladimir Putin, intitulou seu opus de 5 mil vocábulos. E ainda mandou logo atrás uma alentada entrevista em vídeo, aparentemente realizada por um funcionário de seu departamento de imprensa. Nunca se viu tal coisa.

"Como sempre, Putin tenta usar imprevisibilidade para provocar medo na Ucrânia e no Ocidente"
"Como sempre, Putin tenta usar imprevisibilidade para provocar medo na Ucrânia e no Ocidente"
Foto: DW / Deutsche Welle

No artigo e no vídeo, o chefe do Kremlin recapitula detalhadamente suas ideias favoritas: um povo ucraniano autônomo é algo nunca houve; ucranianos e russos são um só povo; o Estado ucraniano é uma construção artificial, um acaso histórico, e deve-se ser grato à Rússia por permitir que ele exista.

A deposição do ex-presidente (pró-Moscou) Viktor Yanukovich em fevereiro de 2014, prossegue Putin, foi a culminação de décadas de um plano ocidental para criar na Ucrânia o que ele denomina uma "anti-Rússia", com o fim de manter a Rússia em xeque.

Desde 2014, a Ucrânia não seria soberana, mas sim estaria submetida a "administração externa" - código usado para designar os Estados Unidos, com a União Europeia como vassala. Moscou não tolerará tal estado de coisas, havendo também milhões de ucranianos a quem a situação não agrada, e que anseiam pelo abraço russo.

Suscetibilidade extrema a ofensas reais ou imaginárias

O artigo de Putin porta inequivocamente a marca das convicções dos serviços secretos russos: uma mistura de messianismo imperialista; a sólida crença de que o dinheiro rege o mundo; e bizarras teorias de conspiração.

As redes sociais do país arrasaram a obra putinista já nas primeiras horas após sua publicação. Historiógrafos, jornalistas e sociólogos encontraram um sem-número de contradições, falhas lógicas e falsas afirmativas. Talvez isso motivou os assessores presidenciais a recomendarem a complementação com um vídeo explicativo.

Além disso, o artigo voltou a mostrar que, para o chefe de Estado russo, não existe tema mais importante do que a Ucrânia. Uma nova onda de casos de covid-19 no país, a situação econômica instável, a ameaça do Talibã na Ásia Central: na agenda de Putin, todos esses assuntos só aparecem depois da Ucrânia.

Mas por que agora? O político russo costuma ver a política pela lente das relações pessoais e é notório por sua suscetibilidade a ofensas imaginárias ou reais. Ao que tudo indica, ele está muito irritado com seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Em maio, este colocou em prisão domiciliar o político e empresário pró-russo Viktor Medvedchuk - embora seja até padrinho da filha dele. Medvedchuk é presidente do partido Plataforma de Oposição - Pela Vida, ligado ao Kremlin, que já desde 2014 se opõe a atividades pró-Ocidente por parte da liderança ucraniana.

"Liderança ucraniana" sem nome

Putin jamais cita Zelensky pelo nome: indagado sobre uma possível reunião presidencial, ele rebateu que só se encontrará com "a liderança ucraniana" se esta "ler o meu artigo". Da mesma forma, ele se recusa a mencionar o nome do oposicionista russo Alexei Navalny: no enigmático universo putinista de sinais e símbolos, essa é uma expressão de hostilidade extrema.

Aparentemente, para Putin o presidente ucraniano é justamente a encarnação dessa "anti-Rússia" que o traiçoeiro Ocidente estaria criando no país vizinho e que, em seu texto, o russo promete combater.

O chefe do Kremlin nega a legitimidade de toda a classe política da Ucrânia, e retorna repetidamente à noção de que o povo ucraniano seria uma coisa, e a liderança da Ucrânia, outra: "Nós (ou seja, a Rússia, na concepção de Putin) amamos o povo, mas não consideramos a liderança ucraniana como políticos, mas sim marionetes do Ocidente."

Só que vários milhões de ucranianos elegeram democraticamente seu chefe de Estado e seus membros do Parlamento. Não ocorre ao russo que, com tal tom condescendente de "bom colonialista", ele insulta esses cidadãos.

Desde o primeiro dia da Revolução Laranja, Putin demonstrou sua total incapacidade de compreender que seres humanos tenham livre arbítrio e possam participar politicamente de forma autônoma. Sequer as dezenas de mortos na confrontação com o regime Yanukovich, em fevereiro de 2014, lhe ensinaram essa lição.

Combate à "anti-Rússia"

É também provável que Putin esteja apreensivo com as atividades crescentes da Otan no Mar Negro, e com a cooperação ativa entre a Ucrâna e a aliança. Assim, ele se volta contra o Ocidente, que, de seu ponto de vista, "rege" Kiev. Com promessas e ameaças relativas ao gasoduto Nord Stream 2, entre a Rússia e a Alemanha, e ao fornecimento de gás passando pela Ucrânia, como sempre ele tenta usar a imprevisibilidade para provocar medo em ucranianos e ocidentais.

Ao mesmo tempo, Putin deixa claro o que o aplacaria: a libertação de Viktor Medvedchuk (embora não diga diretamente); negociações diretas, intermediadas por Moscou, com os separatistas da assim chamada "República de Lugansk e Donetsk" - o que equivaleria a um reconhecimento oficial desses territórios do leste da Ucrânia sob controle russo de facto -; e, claro algum tipo de garantia de que a Ucrânia não se filiará à Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Em Kiev, ninguém jamais aquiescerá a nenhuma dessas condições. Portanto, em algum momento Vladimir Putin vai agir, seja bloqueando o fornecimento de gás através do território ucraniano, reconhecendo o regime-marionete no leste da Ucrânia, ou até mesmo atacando militarmente o país vizinho.

A luta contra a imaginária "anti-Rússia" se transformou em missão de vida para o líder russo.

---

Konstantin Eggert é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Publicidade
Publicidade