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Venezuela: técnicos militares russos têm trabalho e diversão

Nos dias de folga, em grupos, os especialistas usam aviões da Força Aérea para chegar ao litoral caribenho

12 ago 2019
10h49
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A vida é boa para os russos, pelo menos para os técnicos militares que atuam na Venezuela há cinco meses. A prioridade deles é recuperar e fazer funcionar com eficiência o equipamento de Defesa vendido por Vladimir Putin, primeiro para Hugo Chávez e depois para Nicolás Maduro, em sucessivos lotes desde 2005. Um negócio de valor estimado entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões.

Nos dias de folga, em grupos, os especialistas usam aviões da Força Aérea para chegar ao litoral caribenho. A rota mais procurada leva até as ilhas de Los Roques, um paraíso tropical de areia branca e mar azul, a 160 quilômetros da capital, Caracas. Nessa época do ano a temperatura não passa dos 28ºC, ótima para quem sai dos 14ºC da média registrada na área central da Rússia.

Segundo uma agente de turismo de Gran Roque, "eles gastam bom dinheiro por aqui, gostam de dançar a salsa cubana, comem peixe frito com arepa (tipo de massa de farinha de milho) e bebem cerveja com guarapita (caipirinha feita com rum escuro, gelo, limão ou qualquer fruta ácida, mas sem açúcar)".

A parte séria e sinistra do programa bilateral extraordinário de cooperação, iniciado em março, é a tarefa de recuperar os sistemas fornecidos às forças do regime bolivariano, fortemente dedicados à aviação de combate e ao Exército.

Em fevereiro, as baterias lançadoras dos poderosos mísseis antiaéreos S-300 teriam registrado falhas durante os ensaios realizados na base Manuel Ríos, em Guarico. Segundo análises da inteligência militar dos EUA e da Colômbia apresentadas aos países integrantes do Grupo de Lima - o fórum regional dos 14 governos críticos do regime de Nicolás Maduro -, o arsenal venezuelano sofre desde 2015 com a falta de manutenção.

A dificuldade teria chegado a níveis críticos no começo do ano. Moscou então enviou perto de 100 técnicos, mais 35 toneladas de peças e componentes em dois aviões. A primeira turma, acompanhada do chefe do Estado-Maior do Exército russo, general Vasili Tonkoshkuroi, permaneceu nas instalações de apoio por pouco menos de três meses. Em julho foi substituída por outro time, talvez reforçado com engenheiros eletrônicos.

A principal preocupação é mesmo com o S-300. A Venezuela tem três conjuntos lançadores completos. Dois deles foram fotografados há seis meses por um satélite americano de espionagem nas instalações de Maracay, na base de El Libertador.

A bateria padrão é formada por seis carretas lançadoras blindadas, cada uma levando quatro mísseis prontos para disparo, um radar de longa distância, um veículo de comando e controle, e um remuniciador.

A versão adquirida pelo presidente Maduro, recebida a partir de 2012, custa cerca de US$ 115 milhões, fora o míssil 9M82M, cotado a US$ 1 milhão. Funcionando no modo automático - o sistema digital rastreia os alvos, prioriza o grau de ameaça e faz fogo - o tempo de reação é de 3 segundos.

Atinge mísseis balísticos e de cruzeiro, aviões, drones e projéteis de artilharia no limite máximo de 150 km a 200 km, a altitudes de 30 km a 39 km. O arsenal contempla dois outros mísseis para serem empregados contra agressores aéreos. O Pechora, com alcance de 35 km e o Buk, de lançamento vertical e 140 km de abrangência.

Não é a única preocupação de venezuelanos e russos. Apenas um esquadrão dos grandes caças Su-30 Mk2V estava em condições de uso no começo do ano. Chávez comprou e recebeu 24 unidades. Uma foi perdida em acidente. As demais acabaram canibalizadas, tendo peças transferidas de umas para outras aeronaves até o limite.

O supersônico é notável. Mede 21 metros de comprimento e é dotado de duas turbinas de alto empuxo. Pode voar a 2,2 mil km/h armado com toneladas de armas de variados tipos - de seis diferentes mísseis de alcance na faixa de até 120 km a bombas inteligentes de 500 quilos guiadas por laser mais um canhão de 30mm - em um raio de ação de 3 mil km.

A recuperação dos jatos pode já estar produzindo resultado. Em 19 de julho, dois Su-30 interceptaram um avião de coleta de informações da Marinha dos EUA sobre o litoral, no eixo de aproximação de Maiquetía, o terminal civil e base aérea de Caracas. O governo americano sustenta que o turboélice Aries II voava em águas internacionais.

Não há informações confiáveis a respeito das condições dos tanques T-72V, uma configuração específica para a força terrestre da Venezuela, recebidos a partir de 2016. A versão entregue ao Exército bolivariano é a B3, recente, de 44 toneladas, velocidade de 80 km/h e autonomia de 460 a 700 km conforme o arranjo programado.

Helicópteros de ataque Mi-35 e de transporte geral puderam ser rapidamente revisados e ganharam um avançado centro de treinamento de pilotos de combate.

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Estadão
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