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Sri Lanka diz que atentados foram retaliação a Christchurch

Ataques mataram mais de 300 pessoas

23 abr 2019
07h18
atualizado às 08h25
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As autoridades do Sri Lanka afirmaram nesta terça-feira (23/04) que os atentados suicidas que deixaram pelo menos 310 mortos em igrejas cristãs e hotéis de luxo no fim de semana foram uma espécie de retaliação, por parte de radicais muçulmanos, ao massacre em mesquitas ocorrido em março na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia.

"As investigações preliminares revelaram que o que ocorreu no Sri Lanka foi uma retaliação ao ataque contra muçulmanos em Christchurch", disse o vice-ministro da Defesa, Ruwan Wijewardene, ao Parlamento cingalês, em referência ao massacre que deixou 50 mortos na cidade neozelandesa.

"Este grupo National Thowfeek Jamaath (NTJ), que realizou os ataques, tinha ligações estreitas com a JMI, conforme foi agora revelado", disse Wijewardene, numa aparente referência à organização Jamaat-ul-Mujahideen India.

Interior e telhado destruídos da igreja de São Sebastião na cidade de Negombo, ao norte de Colombo, no Sri Lanka
Interior e telhado destruídos da igreja de São Sebastião na cidade de Negombo, ao norte de Colombo, no Sri Lanka
Foto: DW / Deutsche Welle

O Sri Lanka está sob estado de emergência, que confere poderes especiais às forças de segurança, incluindo o direito de buscar a prender indivíduos. O presidente Maithripala Sirisena concedeu aos militares um amplo raio de ação para deter e prender suspeitos - poderes que foram usados durante os 26 anos de guerra civil, mas retirados quando esta terminou em 2009.

A polícia local prendeu ao menos 40 suspeitos. As autoridades elevaram para ao menos 310 o número de mortos, enquanto mais de 500 pessoas seguem hospitalizadas. O presidente cingalês declarou esta terça-feira como dia de luto nacional. Durante os funerais de cidadãos cingaleses mortos nos ataque de domingo foram observados três minutos de silêncio. Também foram erguidas bandeiras pretas e brancas na maioria das cidades do país.

Os atentados de domingo reviveram o estado caótico instalado no Sri Lanka nos 26 anos de guerra civil, de 1983 a 2009, entre as forças governamentais e a organização separatista conhecida como "Tigres de Tâmil".

Pistas de que ataque estava próximo

As primeiras investigações sugerem que um dos ataques mais mortíferos desde o 11 de setembro poderia ter sido evitado. O Sri Lanka foi informado dez dias antes sobre a possibilidade de ataques de um grupo radical islâmico contra templos católicos no país.

Mas o alerta de serviços de inteligência não foi corretamente conduzido pelas autoridades cingalesas. Por trás disso, segundo a imprensa independente local, estaria uma rixa política entre o presidente e o primeiro-ministro do país, Ranil Wickremesinghe, que eclodiu numa crise política no ano passado. O premiê tem sido deixado de fora dos comunicados de inteligência.

Na segunda-feira, as autoridades cingalesas revelaram que haviam recebidos alertas há cerca de duas semanas sobre a possibilidade de ataques de um grupo de muçulmanos radicais. Segundo o jornal The New York Times, um alto membro da polícia do Sri Lanka advertiu o governo sobre o risco de atentados contra igrejas no país e que a minoria cristã do país estava na mira do National Thowfeek Jamaath.

Segundo um documento visto pela agência de notícias Reuters, a polícia do Sri Lanka havia sido alertada sobre um possível ataque a igrejas por um grupo islâmico doméstico pouco conhecido. Mas Wickremesinghe não foi avisado do relatório, datado de 11 de abril. O relatório mencionava o alerta emitido por uma agência de inteligência estrangeira sobre o grupo Thowfeek Jamaath, segundo o ministro da Saúde, Rajith Senaratne.

"Quando perguntamos sobre o relatório de inteligência, o primeiro-ministro não estava ciente", disse Senaratne. O ministro acrescentou que não ficou claro se o presidente estava ciente do relatório, mas sublinhou que a principal entidade de segurança do Sri Lança, o Conselho de Segurança, reporta a Sirisena.

"Como governo temos que pedir muitas, muitas desculpas às famílias e suas instituições sobre o incidente", disse Senaratne.

O presidente do Sri Lanka demitiu Wickremesinghe em outubro por diferenças políticas, mas teve que reintegrá-lo semanas depois, após sofrer pressão da Suprema Corte do país. O relacionamento entre Sirisena e Wickremesinghe não melhorou, e suas diferenças teriam atrasado decisões do governo.

Sirisena estava fora do país quando ocorreram os ataques. Wickremesinghe convocou uma reunião do Conselho de Segurança, mas seus membros não compareceram. Na segunda-feira, o premiê participou de uma reunião convocada por Sirisena - foi a primeira participação num encontro do Conselho de Segurança de Wickremesinghe desde a crise política.

"Esta é a primeira vez na história que vemos que o Conselho de Segurança se recusou a ir a uma reunião com o primeiro-ministro do país", disse Senaratne. O ministro disse ainda que as forças de segurança invadiram os locais de treinamento do grupo islâmico radical Thowfeek Jamaath. O governo comunicou que acredita haver ligações internacionais nos ataques.

"Não acreditamos que uma pequena organização possa fazer tudo isso. Estamos investigando o apoio internacional a eles e outras ligações - como eles recrutaram os homens-bomba e produziram bombas como estas", disse Senaratne.

Mais de 30 estrangeiros entre as vítimas

No domingo de manhã, foram registradas oito explosões pelo país. Três templos católicos, que estavam cheios de fiéis celebrando a Páscoa, foram atingidos. Explosões também ocorreram em três hotéis de luxo em Colombo e em uma pensão, também na capital. Uma oitava explosão foi registrada em um condomínio de casas em um subúrbio de Colombo. A última explosão teria sido detonada pelos terroristas em fuga, enquanto a polícia fazia buscas na região.

Além disso, especialistas em bombas do Exército do Sri Lanka detonaram também no domingo de maneira controlada um explosivo plantado nas proximidades do principal aeroporto internacional do país.

Nesta segunda-feira, houve registro de uma nova explosão perto de uma das igrejas que foi alvo do ataque. A detonação ocorreu no momento em que o esquadrão antibomba tentava desativar um explosivo que havia sido deixado em uma van. Não há relatos de feridos. Dezenas de detonadores foram descobertos perto do principal terminal e ônibus de Colombo.

A maioria das vítimas é do Sri Lanka, mas há pelo menos 31 estrangeiros entre os mortos, incluindo cidadãos de Estados Unidos, China, Reino Unido e Índia.

Em resposta aos ataques, o governo impôs um toque de recolher em toda a ilha, com início às 18h do horário local até 6h do dia seguinte. O governo determinou ainda um bloqueio temporário das redes sociais, entre elas o Facebook e Instagram, para impedir a difusão "de informações incorretas". Nesta terça-feira, o bloqueio ainda persistia.

"O governo decidiu bloquear todas as plataformas de redes sociais para evitar a disseminação de informações incorretas e falsas. Essa é apenas uma medida temporária", afirmou a Presidência do país em comunicado.

O governo também informou que as escolas do país não devem funcionar até a próxima quarta-feira. Todos os policiais que estavam de folga também foram convocados.

Os ataques contra minorias religiosas no Sri Lanka vêm se repetindo desde 2018, quando o governo teve que declarar estado de emergência depois de confrontos entre muçulmanos e budistas. No Sri Lanka, a população cristã representa 7%, enquanto os budistas são cerca de 70%, os hinduístas 15%, e os muçulmanos 11%.

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