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Rússia diz ter matado líder máximo do Estado Islâmico: quem é Abu Bakr al-Baghdadi

Abu Bakr al-Baghdadi, o "califa" do autoproclamado Estado Islâmico, cresceu na hierarquia dos insurgentes iraquianos até liderar o mais importante grupo militante do mundo, escreve o autor William McCants.

16 jun 2017
10h35
atualizado às 13h57
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O Ministério da Defesa da Rússia informou nesta sexta-feira que um ataque aéreo pode ter matado o líder do Estado Islâmico (EI), Abu Bakr al-Baghdadi, e outros 330 combatentes. O alvo teria sido uma reunião do conselho militar do grupo em Raqq, no norte da Síria, realizada no dia 28 de maio.

Abu Bakr al-Baghdadi
Abu Bakr al-Baghdadi
Foto: BBCBrasil.com

Num comunicado publicado na agência de notícias estatal russa, Sputnik, o ministério afirmou que 30 comandantes e até 300 soldados do EI estavam na reunião. "De acordo com informações checadas por vários canais, o líder do EI, Ibrahim Abu-Bakr al-Baghdadi, estava presente na reunião e foi morto em consequência do ataque aéreo".

No entanto, sua morte já foi divulgada outras vezes equivocadamente. O coronel John, porta-voz da coalizão americana de combate ao EI, disse que os EUA não conseguiram confirmar se Baghdadi de fato foi morto. Já o governo sírio não comentou o caso. A localização de Baghdadi é desconhecida há tempos.

A seguir o especialista William McCants explica como Baghdadi chegou ao posto máximo do grupo extremista.

Ferrenho religioso

Ibrahim Awwad Ibrahim al-Badri, também conhecido como Abu Bakr al-Baghdadi, nasceu em 1971 em Samarra, no Iraque, numa família sunita de classe média. Sua família era conhecida por sua religiosidade, e a comunidade acredita que ele seja descendente do profeta Muhammad.

Como jovem, Baghdadi tinha paixão por recitar o Corão e seguia meticulosamente a lei religiosa. Sua família deu-lhe o apelido de "O crente", porque ele costumava repreender seus parentes por não seguir os padrões com rigor.

Baghdadi deu sequência a seus interesses religiosos na universidade, onde concluiu a graduação em estudos islâmicos na Universidade de Bagdá, em 1996, além de mestrado e doutorado em Estudos do Corão na Universidade de Saddam para Estudos Islâmicos, no Iraque, em 1999 e 2007, respectivamente.

Até 2004, Baghdadi passou seus anos de estudo vivendo no bairro de Tobchi, em Bagdá, com suas duas mulheres e seis filhos. Ele ensinava o Corão a crianças da vizinhança na mesquita local, onde também era a estrela de seu time de futebol.

Na época, seu tio o persuadiu a participar da Irmandade Muçulmana. Baghdadi rapidamente se aproximou dos poucos ultraconservadores violentos no movimento islâmico e, no ano 2000, abraçou o jihadismo salafista.

De ativista a insurgente

Em poucos meses da invasão liderada pelos EUA no Iraque em 2003, Baghdadi ajudou a fundar o grupo insurgente Jaysh Ahl al-Sunnah wa al-Jamaah (Exército de Pessoas da Suna e da Solidariedade Comunal).

Em fevereiro de 2004, as forças americanas prenderem Baghdadi em Faluja, no Iraque, e o encaminharam ao Camp Bucca - um centro de detenção clandestino de prisioneiros dos EUA no deserto no sul do Iraque, onde permaneceu por dez meses. Na prisão, Baghdadi dedicou-se a temas religiosos, liderando rezas e o sermão da sexta-feira, além de dar aulas a prisioneiros.

Abu Bakr al-Baghdadi (file photo)
Abu Bakr al-Baghdadi (file photo)
Foto: BBCBrasil.com

Segundo um colega prisioneiro, Baghdadi era calado, mas tinha a habilidade de se movimentar entre as facções rivais da unidade, onde se misturavam seguidores de Saddam Hussein e jihadistas.

Baghdadi formou alianças com vários grupos, que mantiveram contato quando ele foi libertado em dezembro de 2004. Depois de sua libertação, Baghdadi procurou o porta-voz da al-Qaeda no Iraque (AQI), uma afiliada local da al-Qaeda liderada pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi.

Impressionado com o conhecimento religioso de Baghdadi, o porta-voz o convenceu a ir para Damascus, onde deveria trabalhar para que a propaganda do AQI aderisse aos princípios do islamismo ultraconservador.

Zarqawi foi morto em junho de 2006 por forças aéreas americanas e foi sucedido pelo egípcio Abu Ayyub al-Masri. Em outubro daquele ano, Masri dissolveu a AQI e fundou o Estado Islâmico (EI) no Iraque. O grupo continuou a prometer fidelidade à al-Qaeda.

O novo emir

Com credenciais religiosas e habilidade de conciliar os estrangeiros que fundaram o EI com os iraquianos locais que se reuniram ao grupo, Baghdadi cresceu progressivamente na hierarquia da organização.

Ele foi indicado como orientador do Comitê da Sharia e nomeado para o Conselho da Shura, de 11 membros, que aconselhava o emir do EI, Abu Omar al-Baghdadi.

Explosão de carro bomba
Explosão de carro bomba
Foto: BBCBrasil.com

Baghdadi depois foi indicado como coordenador do comitê do EI e gerenciava a comunicação com os comandantes do grupo no Iraque.

Após as mortes do fundador e do emir do EI em abril de 2010, o Conselho da Shura escolheu Abu Bakr al-Baghdadi para se tornar o novo emir. Baghdadi começou a reconstruir a organização, que tinha sido dizimada pelas forças de operações especiais dos Estados Unidos.

Esperando capitalizar a crescente crise na Síria em 2011, com a intenficação dos confrontos entre tropas do governo e grupos rebeldes que se insurgiam contra o presidente Bashar al-Assad, Baghdadi ordenou que um de seus agentes sírios estabelecesse um braço do EI no país, que mais tarde ficou conhecido como Frente al-Nusra.

Surgimento do EI

Baghdadi logo se desentendeu com o líder do al-Nusra, Abu Mohammed al-Julani, que queria colaborar com a principal corrente sunita de rebeldes lutando contra o governo sírio. Baghdadi queria estabelecer seu estado através da força antes de perseguir Assad.

Na primavera de 2013, Baghdadi anunciou que a al-Nusra fazia parte do EI, que ele renomeou como Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL).

Estado Islâmico
Estado Islâmico
Foto: BBCBrasil.com

Mais tarde, o dirigente da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, cobrou que Baghdadi reconhecesse a independência da al-Nusra, mas ele se recusou a fazê-lo. Em fevereiro de 2014, Zawahiri expulsou o EI da al-Qaeda.

O EI respondeu lutando contra a al-Nusra e consolidando seu domínio no leste da Síria, onde Baghdadi impôs leis religiosas duras. Com sua fortaleza segura, Baghdadi ordenou que seus homens se expandissem para o oeste do Iraque.

O califa

Em junho de 2014, o EI tomou a segunda maior cidade do Iraque, Mossul, e logo depois, o porta-voz do grupo proclamou o retorno do califado, renomeando o EIIL de volta como "Estado Islâmico". Dias depois, Baghdadi pregou um sermão de sexta-feira em Mossul e se autodeclarou um califa - o chefe de Estado de um governo islâmico.

Se confirmada a morte de Baghdadi, a organização perderá seu habilidoso mediador, político implacável, religioso erudito e homem de linhagem nobre - uma combinação incomum para um líder de uma organização militante global, muito menos para um quase-Estado.

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