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'Quase metade dos países tem nascimentos insuficientes para evitar declínio da população'

Queda na taxa de fecundidade está levando à redução da natalidade, o que quer dizer que não há crianças suficientes para manter o tamanho da população.

9 nov 2018
09h20
atualizado às 09h43
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Há um declínio significativo a nível global no número de novos nascimentos.

Quase metade dos países no mundo está enfrentando redução da natalidade
Quase metade dos países no mundo está enfrentando redução da natalidade
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A tendência de queda na taxa de fecundidade está levando à redução expressiva da natalidade em quase metade dos países, abaixo do chamado nível de reposição - indicando que o volume de filhos por família é insuficiente para manter o tamanho da população nesses locais.

É o que mostra uma análise do estudo Fardo Global das Doenças 2017 (GBD, na sigla em inglês), publicado na revista científica Lancet.

Os pesquisadores afirmam que a descoberta foi uma "grande surpresa" e que haveria profundas consequências para as sociedades com "mais avós do que netos".

Qual o tamanho da queda?

O estudo acompanhou a evolução da taxa de fecundidade em 195 países e territórios de 1950 a 2017.

Em 1950, as mulheres tinham em média 4,7 filhos durante a vida. A taxa de fecundidade diminuiu pela metade, chegando a 2,4 filhos por mulher no ano passado.

Mas isso mascara uma grande variação entre os países.

A taxa de fertilidade no Níger, na África ocidental, por exemplo, é de 7,1, mas na ilha de Chipre, no Mediterrâneo, as mulheres têm um filho em média.

No Brasil, o índice é de 1,8.

Quão alta a taxa de fertilidade tem que ser?

Sempre que a taxa de fecundidade média de um país cair abaixo de aproximadamente 2,1, as populações vão acabar encolhendo (esse processo é acelerado em países com altas taxas de mortalidade na infância).

No início do estudo, em 1950, não havia nenhuma nação nessa situação.

"Chegamos neste momento crítico em que metade dos países apresenta taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição, então, se nada acontecer, as populações desses países vão entrar em declínio", afirma Christopher Murray, diretor do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

"É uma transição considerável."

"A ideia de que estamos falando de metade dos países do mundo é uma surpresa até para pessoas como eu, e será uma grande surpresa para muita gente", completa.

Que países são afetados?

Os países mais desenvolvidos economicamente, incluindo a maior parte da Europa, os EUA, a Coreia do Sul e a Austrália, têm taxas de fecundidade mais baixas.

Isso não significa que o número de pessoas que vivem nesses países esteja caindo, pelo menos ainda não, já que o tamanho de uma população é uma mistura da taxa de fecundidade, de mortalidade e migração.

Além disso, pode levar uma geração até que as mudanças na taxa de fecundidade se estabeleçam.

Murray pondera, contudo, que "em breve vamos chegar a um ponto em que as sociedades vão se deparar com uma população em declínio".

Além disso, a tendência é que os países que ainda estão conseguindo manter o ritmo de crescimento populacional também assistam a uma redução maior da taxa de fertilidade, à medida que avançam economicamente.

'Em breve vamos chegar a um ponto em que as sociedades vão se deparar com uma população em declínio', diz pesquisador
'Em breve vamos chegar a um ponto em que as sociedades vão se deparar com uma população em declínio', diz pesquisador
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Por que a taxa de fecundidade está caindo?

A queda na taxa de fertilidade não se deve à contagem de espermatozoides ou a qualquer fator que normalmente vem à mente quando pensamos em fertilidade.

Em vez disso, a redução está associada principalmente a dois fatores - maior acesso das mulheres a educação, com consequente maior participação no mercado de trabalho, e maior acesso a métodos contraceptivos.

Qual será o impacto?

Se não houver imigração, os países vão enfrentar o envelhecimento e o encolhimento de suas populações.

George Leeson, diretor do Instituto de Envelhecimento Populacional de Oxford, no Reino Unido, diz que não precisa ser algo negativo, desde que toda a sociedade se ajuste à grande mudança demográfica.

"A demografia tem impacto em todos os aspectos de nossas vidas, basta olhar pela janela para as pessoas nas ruas, para as casas, para o trânsito, para o consumo, tudo é impulsionado pela demografia", disse à BBC.

"Tudo o que planejamos não é apenas impulsionado pelos números da população, mas também por sua estrutura etária, e isso está mudando. Então fundamentalmente não temos a cabeça voltada para isso."

Ele acha que os locais de trabalho vão ter que mudar e até mesmo a ideia de se aposentar aos 68 anos, idade para aposentadoria no Reino Unido, será insustentável.

Segundo o relatório, os países afetados vão precisar considerar o aumento da imigração, que pode vir acompanhada de outras questões, ou introduzir políticas para encorajar as mulheres a terem mais filhos, que muitas vezes fracassam.

"Pelas tendências atuais, haverá poucas crianças e muitas pessoas com mais de 65 anos, e isso é muito difícil para sustentar a sociedade global", argumenta Murray, autor do relatório.

"Pense em todas as profundas consequências sociais e econômicas de uma sociedade estruturada assim, com mais avós do que netos."

"Eu acho que o Japão está muito ciente disso, eles estão enfrentando o declínio da população, mas não acho que esse pensamento tenha atingido muitos países no Ocidente, porque a baixa fecundidade foi compensada com a imigração."

"Mas, em nível global, a migração não é solução."

E a China?

A China vive um enorme crescimento populacional desde 1950, passando de cerca de meio bilhão de habitantes para 1,4 bilhão.

Mas também se vê diante do desafio da queda na taxa de fecundidade, que era de apenas 1,5 em 2017, e recentemente abandonou sua famosa política do filho único (criada para reduzir o crescimento populacional).

No país, segundo o relatório, a proporção de nascimentos de meninos é significativamente maior do que na maioria dos países - para cada 100 meninas nascidas, há 117 meninos. Para os autores, os números podem sinalizar "abortos seletivos, motivados pelo sexo do bebê, e até mesmo a possibilidade de infanticídio feminino".

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