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Por que mulheres se tornam 'armas secretas' de grupos extremistas

As mulheres são geralmente retratadas como pacificadoras, mas pesquisa sugere que elas podem desempenhar papel ativo nesses grupos.

19 abr 2019
11h34
atualizado às 12h49
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Quando as mulheres viram notícia por causa do terrorismo, o foco muitas vezes é o papel delas como vítimas ou potenciais aliadas para combater a ameaça.

Shamima Begum was 15 and living in Bethnal Green, London, when she left the UK in 2015
Shamima Begum was 15 and living in Bethnal Green, London, when she left the UK in 2015
Foto: PA / BBC News Brasil

As mulheres que participam de forma ativa e por iniciativa própria dos grupos extremistas, muitas vezes, são ignoradas.

Isso mudou quando Shamima Begum fugiu do Reino Unido e foi classificada como "garota propaganda" do Estado Islâmico depois de ser encontrada e monitorada em um campo de refugiados sírios.

Quatro anos atrás, ela deixou o Reino Unido com duas amigas para se associar ao Estado Islâmico, mas ela alega que era "apenas uma dona de casa".

O Ministério do Interior, no entanto, retirou a cidadania britânica de Begum como consequência de sua atuação no terrorismo. Ela tem direito a recorrer.

Mulheres e o extremismo

O caso de Begum levantou diversas questões sobre a participação voluntária e ativa das mulheres em grupos extremistas, tanto no Estado Islâmico quanto em outros.

Um estudo do Royal United Services Institute (Rusi), centro especializado em defesa e segurança, aponta que 17% dos recrutamentos por grupos extremistas na África são de mulheres. Ao mesmo tempo, outra pesquisa indica que as mulheres representam 13% dos estrangeiros recrutados pelo Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Os números exatos ainda não são claros e podem ser muito maiores.

Shamima Begum, à direita, com as amigas Amira Abase and Kadiza Sultana, no aeroporto de Gatwick Airport em 2015
Shamima Begum, à direita, com as amigas Amira Abase and Kadiza Sultana, no aeroporto de Gatwick Airport em 2015
Foto: Met Police / BBC News Brasil

Vários estudos do Rusi e de outras instituições investigaram o papel que as mulheres assumem em organizações extremistas como o Estado Islâmico e Al-Shabab, um dos grupos que mais matam na África.

Pesquisadores entrevistaram mulheres que estiveram direta ou indiretamente envolvidas com as atividades do Al-Shabab para descobrir como elas foram recrutadas e qual é o impacto que a participação nesses grupos tem sobre elas.

Esse trabalho foi conduzido por acadêmicos no Quênia, que usaram a longa experiência e as conexões com comunidades identificadas com risco de radicalização.

Estado Islâmico e Al-Shabab

As funções atribuídas às mulheres variam entre os grupos.

No Al-Shabab, elas normalmente têm assumido papéis considerados mais tradicionais, como esposas e ajudantes em serviços domésticos. Além disso, elas às vezes são escravas sexuais.

Elas também ajudam a atrair novos membros para o grupo. Um estudo no Quênia descobriu que mulheres eram aliciadas por outras com a promessa de que conseguiriam trabalho, suporte financeiro e aconselhamento.

A costureira Hidaya (nome fictício), por exemplo, foi recrutada por uma cliente que disse que iria investir e expandir os negócios dela. Ela foi convencida a viajar para uma região de fronteira, de onde foi contrabandeada para a Somália.

Mulheres são recrutadas para o Al-Shabab com promessas de emprego e estabilidade
Mulheres são recrutadas para o Al-Shabab com promessas de emprego e estabilidade
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No Estado Islâmico, as mulheres geralmente recrutam, principalmente pela internet, e exercem um papel ativo na divulgação das crenças do grupo.

No caso de Shamima Begum, o recrutamento pode ser visto como um caso de sucesso para o grupo, embora ela tenha dito que não fez muito mais na Síria do que cuidar do marido e dos filhos.

As mulheres que integram o Estado Islâmico também podem atuar como médicas e profissionais de saúde, mas com algumas restrições, já que o grupo tem uma brigada policial composta exclusivamente por mulheres para cuidar de questões morais.

Recentemente, como o grupo perdeu praticamente todo o território que havia conquistado no Iraque e na Síria, passou a haver uma disposição para colocar as mulheres na linha de frente, usando o jornal do grupo Al-Naba para convocá-las para a jihad (guerra santa) e divulgando um vídeo, no ano passado, para mostrar mulheres em combate na Síria.

Sally-Anne Jones se tornou uma recrutadora do Estado Islâmico e viajou para a Síria, onde teria sido morta após um ataque de drone
Sally-Anne Jones se tornou uma recrutadora do Estado Islâmico e viajou para a Síria, onde teria sido morta após um ataque de drone
Foto: BBC News Brasil

As diferenças entre os grupos, contudo, ficaram cada vez menos claras à medida que essas organizações passaram a inspirar umas às outras.

Na Somália, onde o Al-Shabab tenta estabelecer um Estado governado pela sharia (lei islâmica), casos de mulheres combatentes suicidas também foram registrados. Segundo análise dos ataques suicidas ocorridos entre 2007 e 2016, 5% foram feitos por mulheres.

Esse também é o cenário em outras partes da África, como a Nigéria, onde o grupo islâmico Boko Haram usou mulheres-bomba em ataques.

Por que mulheres decidem participar desses grupos?

Há diversos fatores que levam esses grupos a conseguirem recrutar mulheres.

Em parte, parece que o que motiva os homens também funciona para elas, como a forte ideologia e os benefícios financeiros.

No entanto, táticas focadas especificamente nas mulheres também surgiram, como o apelo de retomar papéis tradicionais de gênero.

Um dos nossos estudos indicou, por exemplo, que recrutadores do Al-Shabab se aproveitaram das inseguranças de algumas jovens muçulmanas que temiam que o ensino superior pudesse atrasar planos de casamento.

"Se eu posso ter um homem que vai se casar comigo e me proteger, por que eu deveria me estressar com estudos ou educação?", disse aos pesquisadores uma estudante da Universidade de Nairóbi.

Outras parecem ter sido inicialmente atraídas por promessas de trabalho, dinheiro e outras oportunidades.

Detectar as diferentes motivações, contudo, é difícil. Muitas das mulheres entrevistadas alegam que foram recrutadas contra a vontade.

Como Shamima Begum, algumas dizem que não se envolveram de forma ativa nas atividades do grupo e argumentam que foram vítimas.

Embora algumas possam ter sido coagidas de alguma forma, negar a responsabilidade é um modo eficaz de tentar se reintegrar à sociedade.

O caminho para a reabilitação

Há muitos métodos de reabilitação para ex-combatentes, mas poucos voltados especificamente para mulheres.

Ao construir estratégias de prevenção, reabilitação e reintegração, os formuladores de políticas públicas e os serviços de segurança precisam levar em conta as características específicas das mulheres nessas organizações extremistas.

Muitas terão, por exemplo, filhos mortos, enquanto outras vão precisar de acompanhamento psicológico por traumas após estupro e abuso sexual.

É fundamental que os governos levem em conta essas questões ao lidar com o papel da mulher nos grupos extremistas. Esse processo começa com um entendimento melhor sobre como as diferenças baseadas em gênero estimulam o envolvimento das mulheres nesses grupos e o impacto específico que isso tem na vida delas.

Isso seria benéfico para a sociedade, ao gerenciar esse risco e ajudar a prevenir que mais mulheres se envolvam com organizações extremistas.

Sobre este artigo

Este texto analítico foi encomendado pela BBC a especialistas de uma organização externa.

Martine Zeuthen é uma antropóloga e lidera o programa Strive, que trabalha para reduzir o recrutamento e a radicalização extremistas no nordeste da África.

Gayatri Sahgal é gerente de pesquisa do Rusi.

*Rusi (Royal United Services Institute) é um centro de estudos especializado em defesa e segurança, no Reino Unido.

Editado por Eleanor Lawrie.

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