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Por que Kim Jong-un ameaça cancelar reunião com Trump?

Líder norte-coreano congelou conversas com a Coreia do Sul poucas semanas após prometer 'início' da paz com vizinha; entenda qual é a estratégia de Pyongyang perante a comunidade internacional.

16 mai 2018
12h22
atualizado às 12h32
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A possibilidade de que o encontro histórico entre líderes de EUA e Coreia do Norte - agendado para 12 de junho em Cingapura - seja cancelado, após Pyongyang adiar uma rodada de diálogos com a Coreia do Sul, é uma virada no xadrez político da península coreana.

Há poucas semanas, o mundo assistiu à cena do norte-coreano Kim Jong-un plantando árvores da paz ao lado do presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, após calorosos apertos de mão.

Naquela ocasião, Kim prometeu uma "nova história" no relacionamento com o vizinho do Sul e disse que o momento era "o início" da paz entre as Coreias.

Pouco tempo depois, foi confirmada a informação de que Kim e o presidente dos EUA, Donald Trump, se reuniriam em Cingapura no dia 12 de junho. O norte-coreano anunciou que suspenderia imediatamente seus testes nucleares.

Agora, os norte-coreanos anunciam a ruptura das conversas com Seul e o lançam novamente uma sombra de dúvida sobre todo o processo.

Dada a natureza imprevisível do comportamento da Coreia do Norte e de seu líder, no entanto, esses últimos desdobramentos não chegam a surpreender.

A princípio, o movimento parece mais uma ação de Pyongyang para "calibrar" os termos do acordo que pretende alcançar com os EUA antes mesmo do encontro em Cingapura.

É a economia

Kim Jong-un tem deixado claro que seu foco está migrando do setor militar para a combalida economia da Coreia do Norte. O líder disse repetidamente estar comprometido com a estratégia de desenvolver tanto armas nucleares quanto avançar economicamente o empobrecido e isolado país.

Em abril deste ano, porém, cinco anos após o anúncio dessa estratégia, Kim afirmou que o Norte já havia alcançado suas metas no âmbito nuclear e poderia, a partir de agora, se concentrar na economia.

É por isso que os EUA defendem que qualquer investimento internacional privado na Coreia do Norte dependerá do comprometimento de Kim com a desnuclearização de seu país.

Ao mesmo tempo, a Coreia do Norte viu sua economia sofrer fortemente com o endurecimento de sanções impostas pelos EUA e pela ONU - e com os esforços americanos para que outros países, como a China, cortem laços comerciais com Pyongyang.

Estima-se que as exportações norte-coreanas tenham caído 30% em 2017. As exportações específicas para a China, maior parceiro comercial de Pyongyang, caíram em cerca de 35%, gerando uma queda significativa nas receitas disponíveis para Kim e um entrave para que ele mantenha a fidelidade da elite militar de seu país.

Mesmo que se confirme, mais adiante, a disposição norte-coreana para o diálogo, um processo de desnuclearização não seria tarefa simples.

"A Coreia do Norte e os EUA têm entendimentos bastante diferentes a respeito de o que significa uma desnuclearização", diz à BBC Ankit Panda, editor-sênior do periódico The Diplomat, especializado na região Ásia-Pacífico.

Por um lado, Pyongyang quer alívio nas sanções internacionais.

"Há, no momento, nove resoluções diferentes de sanções recaindo sobre a Coreia do Norte", explica Panda. "Isso torna esse alívio impossível. Ainda que a Coreia do Sul tenha uma atitude positiva perante o Norte, nada ocorrerá sem (o aval de) EUA e ONU."

Um teste para os EUA - mas será que vai dar certo?

As mais recentes atitudes do Norte devem ser lidas como uma diplomacia arriscada - ou um teste à intenção dos EUA em oferecer concessões, diz à BBC William Newcomb, ex-membro do Painel de Especialistas da ONU.

No entanto, é questionável se essa estratégia vai funcionar, e muitos analistas acham improvável que a comunidade internacional ofereça algum tipo de alívio nas sanções só para garantir que o encontro em Cingapura aconteça.

"O Conselho de Segurança da ONU teria de agir para remover, modificar ou suspender sanções internacionais", diz Newcomb. "Na minha opinião, seria necessário haver um progresso considerável (do Norte) em termos de desnuclearização para que ocorra um consenso internacional em torno de um alívio significativo de sanções. E seria indispensável haver liderança dos EUA."

E esse pode ser o motivo pelo qual a Coreia do Norte está agindo desse modo. O país quer mostrar aos EUA o quanto está em jogo e garantir que vai ter alguma carta na manga para conseguir o que quer: garantias de que sua economia vai conseguir sobreviver.

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