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Imposição de uso de véu gera polêmica em mundial feminino de xadrez no Irã

20 fev 2017 - 10h10
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Ter o cabelo coberto com um "hijab" e participar de um mundial feminino de xadrez no qual é o obrigatório o uso do véu islâmico foi uma experiência inédita para muitas jogadoras que decidiram disputar o torneio que acontece em Teerã, capital do Irã, mas a imposição inusitada gerou muita polêmica.

O uso forçado fez com que algumas delas abrissem mão do mundial, uma forma também de criticar a obrigatoriedade do véu para as iranianas. Outras, no entanto, tiveram uma postura diferente. A peça pode sim ser incômoda, mas afeta o jogo ou a concentração?

"Foi um pouco polêmico porque não estávamos acostumadas a jogar ele, mas acho que foi uma experiência interessante e, assim, colaboramos para apoiar o desenvolvimento do xadrez no Irã", justificou a cubana Yaniet Marrero.

A jovem está em seu segundo campeonato mundial e foi eliminada na primeira rodada, mas não associou a derrota ao véu. O revés veio pelo cansaço do fuso horário e pela força de sua adversária. Para ela, porém, o "hijab" é "incômodo", mas viável.

"Às vezes ele apertou um pouco e quando eu movimentava a cabeça para os lados durante a partida. Fiquei incomodada", explicou.

A russa Anastasia Bodnaruk pensa diferente. Para ela a peça não é tão problemática quanto parece. Apesar de discordar de Yanet sobre o incômodo provocado pelo véu islâmico, as duas defenderam o respeito às posturas das atletas que decidiram boicotar o torneio por causa da imposição.

"As pessoas têm crenças diferentes e isso talvez possa afetar a participação aqui. No meu caso, não afetou porque não tenho apego a essas coisas. Cada um tem uma forma de pensar e é preciso respeitar", defendeu Anastasia.

As crenças e valores, porém, foram determinantes para a pentacampeã argentina Carolina Lujan. Ao informar sua desistência do torneio, a jogadora defendeu que o véu "não é um simples código de vestimenta" ela que seria obrigada a aceitar.

Na opinião de Anastasia, a decisão das que boicotaram "possivelmente foi correta" e foi tomada porque no Irã há "outra cultura e outra religião".

A polêmica cercou o campeonato desde o anúncio do país-sede, mas, para algumas jogadoras, o problema real do xadrez feminino é a falta de patrocínio. Na ocasião, o Irã foi o único disposto a receber o evento e arcar com as despesas. Conforme alegou a Federação Internacional de Xadrez (FIDE), não houve outra opção.

O torneio, que começou no último sábado segue até 4 de março, tem eliminatórias diretas, e a final é deputada em quatro partidas. A ganhadora do Grande Prêmio FIDE 2015-2016, a chinesa Ju Wenjun, e a campeã mundial de partidas rápidas ('Blitz'), a ucraniana Anna Muzychuk, são as favoritas ao título.

A realização do torneio no país é uma grande oportunidade, como reconhecem as participantes e a Federação de Xadrez do Irã.

A vice-presidente da Federação e treinadora do time nacional feminino, Shadi Paridar, afirma que o Irã é um bom anfitrião deste Mundial porque "as mulheres não precisam usar uma vestimenta especial". Sobre o véu, Shadi defende que a peça "não causa problemas" e que as participantes podem escolher entre diferentes modelos para se sentirem "mais confortáveis".

"Tivemos muitas jogadoras com diferentes tipos de 'hijab' e até algumas com bonés, portanto isto não influencia na concentração", ressalta.

Além do patrocínio, a ideia do Mundial de Xadrez no Irã pretende fomentar o jogo que foi temporariamente proibido após a Revolução Islâmica, de 1979, até o aiatolá Khomeini estipular com um decreto que o xadrez não transgredia os princípios do islã.

EFE   
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