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O que será da liderança na União Europeia com a saída de Merkel?

França deve ser sucessora temporária até Alemanha se estabilizar

23 set 2021 14h41
| atualizado às 15h11
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A partir do fim de setembro, a União Europeia iniciará um período de incerteza sobre sua liderança política. A Alemanha terá eleições no próximo domingo (26), e a chanceler Angela Merkel, principal figura do bloco, não disputará o pleito e deixará o poder.

De saída do cargo, Merkel deve deixar vácuo no poder da UE
De saída do cargo, Merkel deve deixar vácuo no poder da UE
Foto: EPA / Ansa - Brasil

Especialistas apontam que a França vai surgir, ainda que temporariamente, como "sucessora" natural até que a situação se reorganize na Alemanha, mas todos advertem que, em 2022, será a vez de Emmanuel Macron enfrentar eleições complicadas.

"Acho que a Alemanha continua com poder importante, e o sucessor de Merkel vai ter essa característica, seja quem for eleito, porque a característica parlamentarista alemã sempre traz pessoas com experiência para a Chancelaria, mas eu acredito muito no poder da Alemanha em parceria com a França", destaca o coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Márcio Coimbra, em entrevista à ANSA.

Para ele, Macron surge "como a grande voz, pelo menos nesse primeiro momento, até uma liderança alemã se consolidar. "Nós teremos eleições francesas [em 2022], e se o Macron se reeleger, com certeza assume esse papel de porta-voz da Europa, mas como ele vai ter uma eleição muito difícil, a gente não sabe como vai ser." Já o professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Pedro Brites ressalta que uma eventual vitória de Armin Laschet, da União Democrata-Cristã (CDU), partido da atual chanceler, representaria a manutenção da política externa de Merkel.

"Ele foi um dos poucos que apoiaram amplamente a política dela de atender imigrantes, então hoje me parece que o cenário apresenta uma tendência de continuidade", acrescenta.

Para o alemão Kai Enno Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP), mesmo se o sucessor de Merkel for o vice-chanceler social-democrata Olaf Scholz, favorito nas pesquisas, haverá uma "continuidade".

"Se for o Scholz, a gente tem continuidade no sentido de ter como sucessor alguém que já faz parte do governo atual e que, com isso, tem experiência no funcionamento da União Europeia", destaca Lehmann.

Já no caso de vitória de Laschet, a situação poderia "mudar um pouco", já que o atual ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestfália não tem tanta "experiência internacional".

"Me parece que isso na União Europeia faz diferença. Essa experiência de como a UE funciona, não só formalmente, mas informalmente. Esse contato pessoal é muito importante para conseguir fazer as coisas. Muitas vezes, o que decide o que vai acontecer dentro da UE não é negociado nas reuniões formais, mas nas conversas individuais, nos almoços, nos passeios. Se Laschet for o chanceler, essa experiência vai fazer falta", ressalta.

Para Lehmann, também favorece a liderança alemã na UE o fato de o cargo de chanceler ser bastante estável e longevo. Merkel está no poder desde 2005; antes dela, Gerhard Schröder governou de 1998 e 2005, e Helmut Kohl, de 1982 a 1998.

Outro motivo é o peso do país no bloco - a Alemanha é quem mais contribui para o orçamento comunitário -, além das eleições na França, que farão com que as atenções de Macron se concentrem no cenário doméstico.

Porém Brites pontua que, se a Alemanha não retomar esse protagonismo rapidamente, "isso vai afetar muito a capacidade do bloco de se manter ativo como está".

"Imagino que o papel de países como França, até a própria Itália, vai ser o de tentar trazer a Alemanha para dentro desse jogo, de cobrar a posição da Alemanha, independentemente de quem estiver no poder", diz o professor da FGV.

Itália 

Os analistas são unânimes, porém, em dizer que a Itália não deve assumir esse papel de liderança do bloco europeu, nem mesmo durante a transição no pós-Merkel.

Para Lehmann, a frequente troca de governos em Roma é um dos principais motivos para isso. O economista Mario Draghi é premiê desde fevereiro, mas não foi eleito para o cargo e chefia uma coalizão de união nacional formada por partidos historicamente adversários.

"Schröder, que foi o [chanceler] que menos ficou, durou sete anos. Qual primeiro-ministro italiano consegue sete anos? No momento, a Itália é comparativamente estável com sua história, e Draghi obviamente tem uma experiência interna, mas a história indica que isso não vai durar muito tempo", ressalta.

Coimbra acrescenta ainda outro fator: a falta de liderança de Draghi entre seus pares. "Ele tem mais essa característica do burocrata, não do líder. Ele é um bom burocrata, um bom negociador, mas não é alguém que tem um papel de liderança, com uma característica política mais aguçada, e por isso eu acho que a França vai conseguir assumir, porque o Macron tem essa qualidade", diz. .
   

Ansa - Brasil   
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