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O policial que pode ficar décadas preso por não agir contra atirador em escola

Scot Peterson é acusado de não ter enfrentado um atirador que matou 17 pessoas.

7 jun 2019
17h33
atualizado às 17h59
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A prisão de um policial que não conseguiu confrontar um atirador em uma escola em Parkland, na Flórida, despertou nos EUA um debate sobre qual seria a punição justa.

Scot Peterson foi acusado de negligência depois que ele não conseguiu enfrentar um atirador na escola
Scot Peterson foi acusado de negligência depois que ele não conseguiu enfrentar um atirador na escola
Foto: Broward County Sheriff / BBC News Brasil

Em fevereiro de 2018, o então policial Scot Peterson, de 56 anos, ficou do lado de fora do prédio da escola por 48 minutos, enquanto tiros de fuzil eram disparados durante o massacre.

O ataque deixou 17 mortos e outros 17 feridos.

Por aparentemente não ter agido, e por ter alertado outros policiais a não se aproximarem, Peterson foi criticado pelos pais de vítimas, autoridades e até pelo presidente Donald Trump.

Quinze meses depois do ataque, Peterson, que trabalhou na escola por 9 anos e foi demitido dias após a tragédia, foi preso, com sete acusações de negligência em relação aos menores de idade, três por negligência culposa e uma por perjúrio. No total, são 97 anos de prisão.

Enquanto muitos dizem que o comportamento dele foi fruto de uma falha moral, vários especialistas questionam qual era exatamente a responsabilidade do então policial em relação às crianças naquele dia e se, no julgamento, os promotores serão capazes de provar negligência. Outros dizem que ele está sendo usado como bode expiatório.

Acusações contra o policial

O comissário do Departamento de Polícia da Flórida, Rick Swearingen, que conduz a investigação sobre as mortes, disse que o ex-oficial Peterson não fez absolutamente nada para minimizar o massacre naquele dia.

"Não pode haver desculpas para sua completa falta de ação e não há dúvida de que sua falta de ação custou vidas", afirmou.

Os investigadores dizem que Peterson era a pessoa mais próxima do atirador, o ex-aluno Nikolas Cruz, mas que ele não chegou a tempo de evitar a morte de 11 pessoas no térreo do prédio da escola.

Alguns pais argumentam que, se ele tivesse confrontado o assassino, em vez de se proteger, poderia ter salvado pessoas no terceiro andar.

"Ele deve apodrecer (na cadeia)", disse Fred Guttenberg, cuja filha de 14 anos, Jaime, foi morta quando uma bala atingiu sua medula enquanto tentava fugir.

"Minha filha foi uma das últimas a ser atingida. Ela poderia ter sido salva por ele e não foi", disse o pai.

Segundo o mandado de prisão, Peterson fez declarações falsas quando disse aos investigadores que só ouviu dois ou três tiros, quando, na realidade, o atirador disparou cerca de 75 vezes depois da chegada do policial.

Investigação

"Nunca é tarde demais para prestar contas e fazer justiça", disse o xerife do condado de Broward, Gregory Tony, depois de demitir Peterson.

Tony disse que a "falha em agir" durante o massacre "claramente justificava tanto a demissão quanto as acusações criminais".

O xerife do condado de Pinellas, Bob Gualtieri, que preside uma comissão de segurança pública para a escola de 3.200 alunos, chamou Peterson de "covarde, fracassado e criminoso".

"Não tenho dúvida de que, devido à falta de ação dele, pessoas foram mortas."

De acordo com a lei da Flórida, os promotores precisam provar que Peterson era o responsável pelas vítimas e que a falta de ação dele expôs as crianças aos danos.

Sobre o massacre, Trump disse que teria entrado na escola mesmo se não tivesse uma arma
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Foto: Getty Images / BBC News Brasil

'Acusações falsas'

O advogado de Peterson, Joseph DiRuzzo III, disse que as acusações são "uma tentativa velada de retaliação política contra Peterson".

"Faremos uma defesa rigorosa contra essas acusações falsas, que não têm base em fatos e leis", disse.

O advogado disse que é uma "simplificação grosseira" descrever seu cliente como covarde, já que ele acreditava que os tiros estavam sendo disparados em algum lugar fora do prédio da escola.

Em entrevista à NBC News em junho de 2018, Peterson se defendeu. "As famílias precisam saber, eu não agi como deveria, mas não porque eu não queria entrar no prédio ou enfrentar alguém lá. Não foi nada disso", afirmou.

"Em nenhum momento eu pensei que estava com medo ou que estava sendo covarde, porque eu estava fazendo coisas o tempo todo", disse.

Ele poderia ter evitado mortes?

Eugene O'Donnell, professor de direito criminal da City University of New York e ex-integrante do Departamento de Polícia de Nova York, disse ao jornal Sun Sentinel, da Flórida, que as acusações são baseadas na presunção de que Peterson poderia ter impedido as mortes.

"Criminalizar alguém por não agir no meio de uma chacina é algo com base no conceito absurdo de que policiais seriam, na verdade, soldados disfarçados e preparados para agir em qualquer situação", disse O'Donnell. "Você nunca sabe o que vai fazer quando as balas começarem a ser disparadas."

John Baeze, ex-detetive da polícia de Nova York que atualmente mora na Flórida, disse que ele tinha não apenas um dever moral, mas também um dever profissional de agir.

"Até mesmo um civil armado que por acaso estivesse na área teria se sentido obrigado a intervir", disse ele à BBC. "Este homem estava de farda, com uma arma de fogo, em serviço, na escola, com o propósito de proteger as crianças. E ele não entrou."

Jeff Bell, presidente do sindicato que representa policiais do Condado de Broward, disse que Peterson não é um covarde, mas que, durante o ocorrido, ele "absolutamente desmoronou e congelou" devido à "falta de treinamento e falta de vontade".

Ele diz que o Condado não conseguiu fornecer aos policiais algumas condições, como um espaço de prática de tiro ou um campo de treinamento - instalações que, segundo ele, estão disponíveis para outros policiais na Flórida.

Sobre a acusação de negligência, ele diz que a lei mostra que apenas "cuidadores" podem ser responsabilizados, e que ele viu casos em que babás ou irmãos não puderam ser acusados de violência doméstica porque uma relação de custódia não foi comprovada.

"Ele não é um 'cuidador'. Ele é um policial designado para atuar na escola", diz Bell, que defende que não é realista considerar um policial o responsável pelas crianças na escola.

"Isso significa que um bombeiro que não entra em um prédio com rapidez suficiente será acusado de negligência? Ou uma enfermeira que não conseguiu fazer a triagem de alguém corretamente? É muito complicado."

Nikolas Cruz, responsável pelo ataque, está preso e pode ser condenado à pena de morte. O caso deve ser julgado em 2020.

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