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Portugal deu guinada à esquerda em acordo inédito para formar novo governo

10 dez 2015 - 19h38
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Portugal passou de sobressalto em sobressalto político um 2015 que, após várias guinadas inesperadas, terminou com a chegada dos socialistas ao governo graças a um acordo inédito e inesperado com a esquerda radical.

Após as eleições legislativas vencidas pela coligação de centro-direita liderada por Pedro Passos Coelho, que tomou posse como primeiro-ministro, a aliança de toda a oposição - que, junta, tem maioria no novo parlamento - provocou sua queda em menos de um mês e acabou por tornar o socialista António Costa o novo chefe de governo.

Costa pôs assim um ponto final ao governo de Pedro Passos Coelho, no cargo desde 2011, com a promessa de deixar para trás definitivamente as duras políticas de austeridade implementadas durante os últimos anos e consolidar o crescimento econômico do país, ainda frágil.

Conceitos como crise, recessão, dívida e mercados ficaram em segundo plano durante a acentuada agitação política. Na área econômica, Portugal fechou o ano com um crescimento do PIB de 1,6% (sete décimos a mais que em 2014) e com o desemprego em torno de 12% (1,5% abaixo do ano passado).

Além das dúvidas sobre a sustentabilidade e a robustez do crescimento português, o maior desafio para a nova legislatura, liderada por Costa, será demonstrar a solidez do pacto alcançado com as forças de esquerda devido às evidentes divergências ideológicas entre eles.

Tanto o Bloco de Esquerda (com ideias próximas às defendidas pelo Podemos na Espanha e pelo Syriza na Grécia), como o Partido Comunista são críticos ao projeto do euro e defendem a saída de Portugal da Otan.

No entanto, o acordo com os socialistas - considerado quase impossível antes da eleição - é focado na política interna e não inclui um pacto de governo formal, já que eles apenas se comprometem a apoiar a chegada de Costa ao poder e a negociar os orçamentos futuros.

Mesmo assim, esta aliança representa um marco histórico para a política portuguesa, pois marxistas e comunistas sempre desempenharam papéis de oposição e nunca se mostraram dispostos sequer a negociar com os socialistas, uma mudança de paradigma político que teve consequências no tradicional equilíbrio de forças em Portugal.

As eleições legislativas foram o ponto culminante do ano político no país, recheado mais uma vez pela evolução de grandes escândalos de corrupção.

O entorno do ex-primeiro-ministro socialista José Sócrates protagonizou manchetes durante todo o ano, e a atenção midiática só diminuiu quando ele saiu da prisão, em setembro, após mais de nove meses.

No entanto, ainda falta saber se a justiça portuguesa abrirá um julgamento e apresentará acusações contra o ex-primeiro-ministro socialista, uma das grandes figuras políticas do país e que por enquanto só é "suspeito" dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e fraude fiscal.

A investigação está envolvida em uma intensa polêmica desde o primeiro dia e colocou o sistema judiciário sob pressão em um país acostumado a ver terminar em pizza alguns de seus maiores processos.

O caso de corrupção mais relevante do ano foi a descoberta de uma suposta lista de contribuintes "VIP" - entre eles o chefe do Estado, Aníbal Cavaco Silva, e o então primeiro-ministro, Passos Coelho - cuja informação patrimonial estaria mais protegida do que a do resto dos cidadãos, o que acabou provocando a queda do diretor da Agência Tributária.

Também abateu em Portugal o revés sofrido em 2014 pelo Grupo Espírito Santo, um dos maiores conglomerados financeiros do país e que significou a intervenção no maior banco privado português, o BES.

Seu herdeiro, o Novo Banco, está no mercado desde então, mas o governo português já decidiu suspender sua venda após recusar todas as ofertas recebidas por não considerá-las satisfatórias o suficiente em termos econômicos.

Este ano também deixa como legado a Portugal a privatização da companhia aérea TAP, uma das empresas "bandeira" do país, a perda de todo o poder português na operadora Portugal Telecom - agora nas mãos de francesa Altice - e a morte de seu cineasta mais conhecido internacionalmente, Manoel de Oliveira, aos 106 anos.

EFE   
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