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ESPECIAL-Venezuela de Putin: empréstimos abrem as portas para Moscou obter ativos petroleiros

11 ago 2017
15h54
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O debilitado governo socialista da Venezuela está recorrendo cada vez mais à aliada Rússia para obter o dinheiro e o crédito de que necessita para sobreviver e oferecendo ativos de petróleo estatais em troca, disseram fontes a par das negociações à Reuters.

Logo da petroleira estatal PDVSA em Caracas
 12/4/2017   REUTERS/Marco Bello
Logo da petroleira estatal PDVSA em Caracas 12/4/2017 REUTERS/Marco Bello
Foto: Reuters

Como Caracas está lutando para conter um colapso econômico e protestos de rua violentos, Moscou está usando sua posição de credor de último caso da Venezuela para obter um controle maior das reservas de petróleo do país-membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), as maiores do mundo.

A estatal Petroleos de Venezuela (PDVSA) vem negociando secretamente, desde ao menos o início deste ano, com a maior estatal petroleira russa, a Rosneft, oferecendo participação acionária em até nove dos projetos de petróleo mais produtivos do país, de acordo com um funcionário de alto escalão do governo da Venezuela e duas fontes da indústria a par das conversas.

Moscou tem uma influência considerável nas negociações, já que o dinheiro da Rússia e da Rosneft tem sido crucial para ajudar o governo financeiramente carente do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a evitar um calote da dívida soberana ou um golpe político.

A Rosneft concedeu mais de 1 bilhão de dólares à PDVSA só em abril em troca da promessa do envio de carregamentos de petróleo mais tarde. Em ao menos duas ocasiões, o governo venezuelano usou dinheiro russo para evitar calotes iminentes em pagamentos a portadores de títulos, disse um funcionário de alto escalão da estatal à Reuters.

A Rosneft também se posicionou como intermediária de vendas de petróleo venezuelano a clientes de todo o mundo. Grande parte do produto termina em refinarias dos Estados Unidos - apesar das sanções dos EUA contra a Rússia - porque ele é vendido através de intermediários, como empresas de comercialização de petróleo, de acordo com relatórios comerciais internos da PDVSA vistos pela Reuters e com uma fonte da empresa.

Nem a PDVSA nem o governo da Venezuela responderam a pedidos de comentários. O governo russo não quis comentar e encaminhou as perguntas ao Ministério das Relações Exteriores e aos Ministérios das Finanças e da Defesa, que não responderam as perguntas da Reuters. A Rosneft tampouco quis comentar.

O controle russo crescente sobre o petróleo da Venezuela aumenta sua participação nos mercados energéticos das Américas. Atualmente a Rosneft revende cerca de 225 mil barris por dia da commodity venezuelana - cerca de 13 por cento do total de exportações da nação, segundo relatórios comerciais da PDVSA, e o suficiente para satisfazer a demanda diária de um país do tamanho do Peru.

A Venezuela dá a maior parte deste petróleo à Rosneft como pagamento dos bilhões de dólares de empréstimos em dinheiro que o governo de Maduro já gastou. Sua gestão precisa do dinheiro russo para financiar tudo, do pagamento de títulos a importações de alimentos e remédios, produtos muito escassos no país.

Veja um gráfico detalhando o declínio da indústria petrolífera da Venezuela em http://tmsnrt.rs/2fwsuCV.

Parlamentares da oposição venezuelana dizem que Moscou está se comportando mais como um predador do que como um aliado.

"A Rosneft com certeza está se aproveitando da situação", disse Elias Matta, vice-presidente da Comissão de Energia da Assembleia Nacional. "Eles sabem que este é um governo fraco; que está desesperado por dinheiro - e são tubarões".

Matta ecoou muitas vozes no Congresso de maioria opositora que vêm criticando duramente acordos empresariais que dizem estar fortalecendo os esforços de Maduro para estabelecer uma ditadura.

Caracas afirmou anteriormente que o investimento russo em sua indústria petrolífera mostra confiança na estabilidade financeira da PDVSA e nas oportunidades comerciais da nação.

O governo de Maduro se tornou cada vez mais dependente de Moscou nos últimos dois anos, dado que a China reduziu seu crédito à Venezuela em vista dos atrasos de pagamentos e da corrupção e do crime que vitimaram suas empresas no país, de acordo com analistas de débito venezuelanos e duas fontes da indústria de petróleo.

Enquanto isso, muitas multinacionais praticamente encerraram suas operações na Venezuela devido à economia debilitada e à escassez crônica de matérias primas no país.

A Rosneft está fazendo o oposto - aproveitando o momento difícil da aliada como oportunidade para comprar ativos de petróleo com valor de longo prazo potencialmente alto.

"Os russos estão pegando a Venezuela no fundo do poço", disse um diplomata ocidental que trabalhou em questões relativas à indústria petrolífera venezuelana nos últimos anos.

A Rosneft adquiriu mais um andar em sua torre de escritórios e acrescentou funcionários. A firma russa atraiu profissionais da PDVSA e convocou mais executivos russos, disseram duas fontes próximas da Rosneft à Reuters.

A expansão corporativa representa um contraste acentuado com as ruas do antes vicejante bairro comercial de Caracas ao seu redor na atualidade.

Enquanto os funcionários da Rosneft trabalham em escritórios elegantes ao lado de pôsteres do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e de um busto de Hugo Chávez - falecido líder venezuelano e ícone socialista -, multidões de jovens são vistas com frequência do lado de fora atirando pedras e coquetéis Molotov nas manifestações crescentes contra o sucessor de Chávez.

Atualmente a Rosneft é dona de porções substanciais de cinco grandes projetos de exploração de petróleo na Venezuela. Os projetos adicionais que a PDVSA está oferecendo agora à estatal russa incluem cinco no Orinoco - maior região produtora da commodity no país -, três no Lago Maracaibo, segunda e mais antiga área de produção, e ainda um projeto de extração de petróleo em águas rasas no Golfo de Paria, informaram as duas fontes da indústria à Reuters.

Em uma proposta separada noticiada primeiramente pela Reuters no mês passado, a Rosneft trocaria sua garantia de 49,9 por cento da Citgo - refinadora venezuelana sediada nos EUA - por ações de três poços de petróleo adicionais da PDVSA, dois campos de gás natural e um contrato de suprimento de combustível lucrativo, segundo duas fontes informadas sobre as negociações.

Pela proposta, a Rosneft também assumiria um controle administrativo maior sobre todos os projetos de petróleo conjuntos das duas empresas.

A Rosneft acertou a garantia a um empréstimo de 1,5 bilhão de dólares à PDVSA no final do ano passado.

As negociações sobre uma troca de garantias são motivadas em parte por uma ameaça recente do presidente dos EUA, Donald Trump, de sancionar o setor petrolífero da Venezuela como punição aos esforços de Maduro para minar o Congresso eleito da nação.

A própria Rosneft já foi punida pelos EUA devido à anexação russa da ucraniana Crimeia em 2014. Tais ações exigem que empresas norte-americanas encerrem suas relações comerciais com as entidades sancionadas.

ACORDOS DE PETRÓLEO DA RÚSSIA

A necessidade que Maduro tem de dinheiro russo desempenhou um papel crucial em uma manobra realizada por seus aliados políticos no início deste ano que desestabilizou a já enfraquecida democracia venezuelana, disse o funcionário governamental à Reuters.

Em março, o Tribunal Supremo de Justiça assumiu os poderes da Assembleia Nacional controlada pela oposição. A maioria dos membros eleitos da Assembleia se opôs a qualquer acordo de petróleo novo com a Rússia e insistiu em manter o poder de vetá-los.

Dias depois, a corte devolveu a maioria dos poderes à legislatura, mas permitiu que o presidente mantivesse a autoridade legal para firmar novos acordos de petróleo com Moscou sem aprovação legislativa.

Maduro precisava de autoridade única para fechar esses acordos e abrir caminho para a expansão da Rosneft, afirmou o funcionário de alto escalão do governo da Venezuela à Reuters.

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