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Guerra na Síria completa dois anos em meio à destruição e sem perspectivas

Após 24 meses, a revolta desembocou em um conflito que se alastrou por todo o país e soma mais de 70 mil mortes sob a inação internacional

15 mar 2013
17h07
atualizado em 18/3/2013 às 21h40
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Em março de 2011, a onda de protestos pelo mundo árabe já havia derrubado os longevos governos de Ben Ali, na Tunísia, e de Hosni Mubarak, no Egito. As revoltas abriram caminho para a formação de governos provisórios e, em seguida, a chegada de novos grupos políticos ao poder nestes países. Foi nesse momento que a Primavera Árabe - como se convencionou nomear este momento histórico - chegou à Síria, país-chave do equilíbrio geopolítico do Oriente Médio, localizado entre Turquia, Jordânia, Israel e Iraque.

Pai chora segurando o corpo do filho, morto pelo Exército Livre da Síria, perto ao hospital Dar el-Shifa, em Aleppo
Pai chora segurando o corpo do filho, morto pelo Exército Livre da Síria, perto ao hospital Dar el-Shifa, em Aleppo
Foto: AP

Nesta sexta-feira, completam-se dois anos deste capítulo. Sua realidade, no entanto, é alienígena à dos protestos pacíficos que marcaram o início da Primavera. Ao longo destes 24 meses, aquilo que se apresentava como um novo movimento democrático gestado de dentro dos países árabes passou a perder, pouco a pouco, duas características mais essenciais. Os protestos, os cartazes e os gritos deram gradual espaço aos conflitos, às armas e às mortes.

O país encontra-se virtualmente devastado. A guerra civil alastrou-se por todo o país. As imagens que chegam das grandes cidades sírias, como Aleppo e Homs, mostram-nos escombros e destroços de uma rotina que já não existe mais sem a guerra. Até mesmo a capital, fortemente guardada pelas forças oficiais, já foi alvo de diversos atentados.

Enquanto a diplomacia internacional falha em dar qualquer contribuição de peso para evitar que o derramamento de sangue continue, o conflito persiste sem desfecho no horizonte. Segundo as últimas estimativas da ONU, já são mais de 70 mil mortos, 100 mil feridos e mais de um milhão de refugiados fora das fronteiras do país.

Nascimento e desgoverno da primavera síria
Os protestos começaram à maneira dos tunisianos e egípcios: manifestações organizadas por ativistas, notadamente pela internet, convocando manifestações contra o regime do presidente Bashar al-Assad. Algumas passeatas conseguiram mesmo angariar dezenas de milhares de pessoas, e a força do movimento gerou reação. As poucos, os protestos começaram a enfrentar a repressão do governo, que impedia ou afugentava os manifestantes.

Foi assim que, em questão de algumas semanas, o palco de protestos se transmutava em um cenário de conflitos. Da parte dos manifestantes, a repressão era recebida com força e resistência. Pelo lado do governo, a persistência dos protestos e o enfrentamento com as forças de segurança eram vistos como obra de "terroristas". O objetivo da retórica: descaracterizar a causa dos protestos e justificar o uso da força.

A situação na Síria permaneceu uma questão predominantemente interna até que, em junho, deflagrou-se a crise dos refugiados. Buscando fugir da crescente repressão, milhares de sírios começaram a cruzar a fronteira com a Turquia, ao norte. A onda de refugiados (que se mantém, com alterações de fluxo, até hoje) começou a internacionalizar o debate sobre a Síria, mobilizando a Turquia (potência regional e diretamente afetada pelo episódio), e a Liga Árabe (principal representação política das nações árabes, que, em novembro, optou pela suspensão da Síria da organização).

Rebelde sírio pisa sobre retrato do presidente Bashar al-Assad em imagem divulgada através das redes da oposição
Rebelde sírio pisa sobre retrato do presidente Bashar al-Assad em imagem divulgada através das redes da oposição
Foto: AP

Em meio ao recrudescimento do conflito e o aumento da pressão internacional, a oposição tomava forma. Primeiro foi criado o Conselho Nacional Sírio, principal representante dos oposicionistas em nível internacional. Na linha de enfrentamento direto, os desafiantes de Assad criaram um Exército Nacional Sírio, formado por desertores das Forças Armadas oficiais. Organizaram-se também os Comitês de Coordenação Locais, uma grande rede de contatos entre os oposicionistas, e o Observatório Sírio de Direitos Humanos, baseado em Londres.

À medida que o conflito entre situacionistas e oposicionistas se mantinha, a diplomacia ocidental passou a trabalhar por medidas que ajudassem a pacificar o conflito e mediar uma solução política. No Conselho de Segurança, Estados Unidos, França e Reino Unido defendiam medidas incisivas, todas questionadas e negadas por Rússia e China, geopoliticamente mais próximos à Síria. A violência prosseguia.

O primeiro aniversário: as potências agem e fracassam
Assim, em fevereiro de 2012, quando se completavam os 30 anos do massacre de Hama - episódio mais sangrento da Síria contemporânea -, as forças de segurança de Damasco investiram contra a mesma cidade, deixando centenas de mortes em um dos episódios mais violentos do conflito. No mesmo dia, Rússia e China vetaram uma resolução no Conselho de Segurança que previa um plano orquestrado pela Liga Árabe de renúncia de Assad e transição pacífica na Síria.

O impasse imperou até março, quando Kofi Annan, ex-Secretário-Geral da ONU, foi escalado como enviado especial à Síria. Após visitas in loco e conversas com Assad, Annan agenciou um acordo de cessar-fogo na Síria, que passou a vigorar a partir de 12 de abril. Alguns dias depois, a ONU acertou o envio de observadores para vigiar a aplicação do plano. Desde então, a violência diminuiu consideravelmente, embora o acordo, que segue em vigor, nunca tenha sido plenamente cumprido.

Apesar de severas violações de ambos os lados ao cessar-fogo, a comunidade internacional tomou posição firme contra a constante violência após o massacre de Hula, em 25 de maio. Dois dias depois, o Conselho de Segurança da ONU condenou por unanimidade, nos "termos mais firmes", o episódio. A Rússia, país que historicamente se opõe a resoluções contra o regime de Assad, pela primeira vez aprovou um documento condenatório do organismo em relação à Síria.

Atentado em Damasco: recrudescimento e impasse consolidam a tragédia
O mês de julho de 2012 desenhou novos contornos do conflito. No dia 5, um general sírio próximo à família Assad anunciou sua desistência. Seis dias depois, embaixador sírio no Iraque também renunciava e passava às fileiras da resistência. Horas mais tarde, tinha início em Tremseh, uma vila de Hama, uma ação do governo que resultaria, segundo a oposição, no massacre de cerca de duzentas pessoas. No dia 15, os rebeldes iniciaram uma ofensiva contra Damasco, durante a qual um atentado vitimou mais três importantes membros do governo. No dia 19, Rússia e China vetaram, pela terceira vez, a tentativa da ONU de sancionar a Síria de Assad.

Refletindo este impasse, Kofi Annan anunciou, no dia 2 de agosto, sua renúncia ao posto de enviado especial da ONU para a Síria. "É impossível para mim ou para qualquer outra pessoa convencer o governo e a oposição a dar os passos necessários para abrir um processo político", disse. "Não recebi todo o apoio que a causa merecia. Há divisões na comunidade internacional. Tudo isso complicou minha tarefa", completou.

Bashar al-Assad, em discurso na ópera de Damasco, em janeiro de 2013
Bashar al-Assad, em discurso na ópera de Damasco, em janeiro de 2013
Foto: AP

Annan foi sucedido por Lahkdar Brahimi, veterano diplomata argelino da ONU. "Eu sei o quanto isso é difícil - como é quase impossível. Eu não posso dizer impossível, mas quase impossível", declarou em uma de suas primeiras manifestações sobre a guerra e a improbabilidade de sua solução.

No dia 13 de dezembro, todavia, a Rússia admitiu pela primeira vez a possibilidade de derrota de Assad. "É necessário observar as coisas de frente. O regime e o governo sírio perdem cada vez mais o controle do país", afirmou na ocasião o vice-ministro russo das Relações Exteriores, Mikhail Bogdanov.

Ainda assim, os primeiros meses de 2013 foram marcados pela manutenção incerteza: rebeldes e forças oficiais seguem disputando locais estratégicos do país num duelo que segue conduzindo a uma "espiral" infernal, como resumiu a revista Jeune Afrique.

O inócuo debate internacional, por sua vez, tomou rumo quanto à legitimidade de armar a oposição síria. Potências ocidentais cogitam a ação como modo de condicionar a resistência contra as forças de Assad, enquanto que o apoio de Rússia e China à Síria segue decisivo para a manutenção de Assad em Damasco. A ONU defende que o envio de armas tenderá, ao fim e ao cabo, ao recrudescimento do conflito.

Imagem noturna da cidade de Aleppo em 4 de dezembro de 2012
Imagem noturna da cidade de Aleppo em 4 de dezembro de 2012
Foto: AP

Fonte: Terra

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