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Assassinato pode mudar o rumo das eleições na Itália

Morte de jovem por nigeriano causou tiroteio de cunho racista

5 fev 2018
11h41
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O brutal assassinato de uma jovem de 18 anos na pequena cidade de Pollenza, que conta com apenas seis mil habitantes, pode dar um rumo inesperado para as eleições legislativas na Itália, marcadas para 4 de março.
    O corpo de Pamela Mastropiero foi encontrado no dia 31 de janeiro, desmembrado, dentro de duas malas, as quais foram abandonadas à beira de uma estrada. Após investigações policiais, chegou-se à conclusão que o principal suspeito pelo crime é o nigeriano Innocent Oseghale. No entanto, o que parecia apenas mais um assassinato na Itália, com o uso de drogas como pano de fundo e uma fracassada tentativa de largar o vício em uma clínica de recuperação em Corridonia, acabou ganhando um novo contexto durante esse fim de semana. De tendências extremistas e racistas, o jovem italiano Luca Traini, de 28 anos, ficou "indignado" com o crime e decidiu revidar, disparando contra negros em Macerata, no último sábado (3). Ao menos 11 pessoas inocentes ficaram feridas no ataque.
    O italiano, que confessou o crime, acabou dando contornos políticos à questão, pois Traini fora candidato do partido ultranacionalista Liga Norte nas eleições administrativas do ano passado. Além de ferir as vítimas, ele ainda atirou contra a sede do governista Partido Democrático (PD) e contra estabelecimentos "frequentemente visitados por imigrantes", segundo contou depoimento à polícia.
    Sua ideia inicial era ir ao tribunal local e tentar matar o nigeriano, mas mudou de ideia e começou a disparar em qualquer "pessoa negra que viu pela frente".
    Em plena campanha eleitoral para a formação de um novo governo na Itália, os principais expoentes políticos não ficaram longe dos holofotes. Matteo Salvini, líder do Liga Norte e conhecido por suas declarações contra os imigrantes - chamado de xenófobo pelos rivais - afirmou que sua sigla não tem nada a ver com as ações de Traini.
    "Eu, honestamente, não temo o retorno dos fascistas ou comunistas. Sou democrático, não-violento, adoro a liberdade de pensamento e de palavra. A polêmica política está longe de mim e quero resolver o problema da imigração", disse ao ser questionado sobre o caso.
    No entanto, até o aliado nessas eleições, o ex-premier Silvio Berlusconi, presidente do Força Itália, criticou Salvini ao dizer que "suas frases contra a esquerda são excessivas". "Às vezes, Salvini exagera nos tons", disse o ex-Cavaliere.
    Porém, ele fez críticas ao governo do PD dos últimos cinco anos e afirmou que a imigração ilegal é "uma bomba social" que será enfrentada se ele vencer a disputa. Segundo seus cálculos, são cerca de 600 mil imigrantes ilegais "e prontos para atacar" morando na Itália.
    Para o presidente do FI, quando a "centro-direita estava no governo, nós soubemos parar a imigração", dizendo que as ações de seu governo deixaram chegar "apenas quatro mil clandestinos, o que dá um fim de semana no ano passado".
    Salvini e Berlusconi, junto à sigla Irmãos da Itália, formaram uma coalizão para as eleições de março. Apesar de separados não terem maioria, os três partidos unidos ficam, de acordo com estimativas do Ipsos, ficam com 266 dos 617 assentos do Parlamento da Itália.
    Entre seus principais objetivos no pleito, a questão da imigração era considerada importante, mas não fundamental até o caso desse fim de semana. No entanto, até por conta das posições radicais de Salvini, o tema deve voltar a polarizar todas as atenções da coalizão de direita.
    Já o secretário-geral do PD - e também premier durante o ápice da crise migratória no país em 2015 e 2016 -, Matteo Renzi, atacou Berlusconi por ter sido ele quem assinou a regulamentação que sobrecarrega a Itália na questão dos imigrantes: a Convenção de Dublin.
    O documento determina que é o país em que o imigrante ilegal chega o responsável por acolhê-lo, sobrecarregando assim, Itália e Grécia, as duas principais rotas mediterrâneas do tráfico de pessoas. Enquanto no país da bota chegam aqueles que fogem das crises do norte da África, nas ilhas gregas chegam as pessoas que fugiram dos países do Oriente Médio.
    "Berlusconi diz que os imigrantes na Itália são uma bomba social? Mas, a imigração depende de dois fatores: sobre os tratados de Dublin que dizem que cada país tem que lidar com a imigração sozinho - e esses tratados foram assinados por ele em 2003 - e, se na Itália chegam imigrantes é porque alguém fez uma guerra na Líbia. E o presidente do Conselho à época era Berlusconi", criticou Renzi.
    Liderando as pesquisas eleitorais, o chefe político do Movimento Cinco Estrelas (M5S), Luigi Di Maio, também acusou Berlusconi de hipocrisia ao falar sobre a imigração. "Sobre o tema, ele se propõe agora como um salvador da Pátria, quando ele é o traidor da Pátria. A bomba social sobre a imigração foi criada por Berlusconi quando ele bombardeou a Líbia, quando assinou o regulamento de Dublin e fazendo negócios sobre os imigrantes com a esquerda", criticou Di Maio em um evento em Sassari.
    Aos eleitores, ele ainda pediu "um pouco de memória para lembrar do que esse senhor de 81 anos fez quando esteve no governo".
    SEGUE

Ansa - Brasil   
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