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Huawei: como a prisão da executiva da empresa chinesa pode atingir em cheio a Apple

A prisão da diretora financeira da Huawei a pedido dos Estados Unidos já está gerando repercussões para empresas americanas. E a Apple pode ser uma das principais prejudicadas. Entenda!

11 dez 2018
09h36
atualizado às 10h30
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Não é preciso fazer esforço para perceber como o The Global Times - o jornal estatal chinês - está interpretando a prisão de Meng Wanzhou, diretora financeira da gigante de eletrônicos Huawei.

A prisão da diretora financeira da Huawei a pedido dos Estados Unidos já está gerando repercussões para empresas americanas. E a Apple pode ser uma das principais prejudicadas
A prisão da diretora financeira da Huawei a pedido dos Estados Unidos já está gerando repercussões para empresas americanas. E a Apple pode ser uma das principais prejudicadas
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Banir empresas chinesas como a Huawei vai isolar os Estados Unidos da economia digital do futuro", diz uma manchete.

É essa ameaça de isolamento que pode deixar as empresas americanas de tecnologia em alerta. Meng está presa há 12 dias no Canadá. A CFO foi detida a pedido dos Estados Unidos, sob a acusação de infringir sanções econômicas impostas pelo governo americano ao Irã - o que ela nega.

Essa detenção deve significar, no mínimo, mais dificuldades de mercado para as gigantes americanas de tecnologia, que conseguiram estabelecer presença no importante mercado da China.

Cerca de 20% das receitas do ano passado da Apple, por exemplo, vieram da China. "Alguns países ocidentais estão recorrendo a meios políticos para resistir às tentativas da Huawei de entrar em seus mercados", disse um artigo do The Global Time.

"O fracasso em garantir uma abertura recíproca significa que as empresas deles não receberão qualquer benefício da economia digital da China", sentenciou o jornal chinês.

Vendas bloqueadas

Há tempos que a China vem reclamando que os Estados Unidos são injustos com suas grandes firmas de tecnologia, em particular a Huawei, que é empresa chinesa que mais se aproxima de ser concorrente importante da Apple.

Embora ainda não chegue perto da lucratividade anual da companhia americana (o lucro da Apple é de US$ 266 bilhões contra US$ 100 bilhões da Huawei), a empresa chinesa superou a americana na venda global de smartphones no início do ano. A Huawei só ficou atrás da Samsung nesse quesito.

Manifestantes se reuniram na porta do tribunal em Vancouver onde a execuvita Meng Wanzhou foi ouvida
Manifestantes se reuniram na porta do tribunal em Vancouver onde a execuvita Meng Wanzhou foi ouvida
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Na terça, um tribunal chinês baniu a venda de alguns modelos antigos de iPhone como consequência de uma briga judicial contra quebras de patente entre as americanas Apple e Qualcomm. A empresa alega que a Apple utilizou em alguns modelos de iPhone um chip feito com tecnologia patenteada pela Qualcomm, sem o devido reconhecimento autoral.

A tecnologia envolve a operação de redefinição do tamanho das fotos tiradas com o smartphone e a capacidade de usar o toque na tela para o uso de aplicativos. As duas empresas estão brigando por ações semelhantes movidas pela Qualcomm em diversos países.

A maioria dos especialistas avaliava que a China rejeitaria o pedido da Qualcomm. Portanto, o banimento dos modelos de iPhone surpreendeu. A Apple entrou com recurso o que garante que a empresa possa manter os aparelhos em venda na China até a decisão final da Justiça.

Não há ligação direta entre essa medida e a polêmica envolvendo a Huawei. Mas o fato de ter sido adotada após a prisão de Meng e em meio à guerra comercial de tarifas de importação faz com que seja vista como uma demonstração de força por parte dos chineses.

A verdadeira história de sucesso da Huawei, porém, não vem dos smartphones em si, mas dos equipamentos que fazem com que faça sentido ter um telefone tecnológico. A Huawei está se posicionando como provedora de tecnologia 5G, a próxima geração de rede de celulares.

Em resumo, se a China achar que os Estados Unidos estão prejudicando injustamente a oportunidade da Huawei de ser um dos protagonistas da tecnologia 5G, poderá retaliar a Apple. E a gigante americana poderá sentir os efeitos dessa agressão.

"A última coisa que investidores de tecnologia não desejavam ver é essa notícia sobre a CFO da Huawei", diz Dan Ives, da consultoria de investimentos Wedbush.

"Isso é combustível para retaliações."

Proteção a produtos da Huawei

A consultoria Wedbush estima que 350 milhões de iPhones estão chegando no momento em que a maioria dos usuários buscam um "upgrade". Cerca de 70 milhões desse total estão na China.

"Isso quer dizer que um quarto do crescimento incremental nos próximos três ou quatro anos virá da China."

Mesmo sem intervenção oficial, a publicidade dada ao caso da Huawei e ao bloqueio de modelos de iPhone pode afetar as receitas da Apple provenientes da China.

Do lado de fora do tribunal de Vancouver onde a CFO da Huawei foi ouvida na segunda (10), membros da comunidade chinesa no Canadá expuseram claramente como se sentiam. Eles carregavam cartazes dizendo "Libertem, Meng!" e diziam aos repórteres acreditar que os Estados Unidos estavam fazendo bullying com a Huawei e, por extensão, com a China.

Meng está presa há 12 dias no Canadá
Meng está presa há 12 dias no Canadá
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Memorandos obtidos pelo Yahoo News revelaram que várias empresas chinesas adotaram medidas para promover entre seus empregados o uso de produtos da Huawei em vez de itens da Apple.

"A notícia sobre a prisão da CFO da Huawei, Meng Wanzhou, por autoridades canadenses chocou a população chinesa", diz um memorando à equipe da empresa de tecnologia de refrigeração Jiangxi Ruike. O documento encoraja os funcionários a trocarem seus IPhones por celulares da Huawei, em troca de benefícios oferecidos pela empresa.

Benefícios mútuos

Mas há um aspecto do sucesso da Apple na China que pode ajudar a conter a fúria do governo chinês- mesmo que Meng seja extraditada aos Estados Unidos e mantida na cadeia.

A Apple, evidentemente, não apenas vende seus equipamentos na China, mas também os produz lá. Em 2017, A Apple estima que, entre produção, varejo e distribuição, tenha gerado 4,8 milhões de postos de trabalho no país asiático.

Além disso, a empresa americana abriu centros de pesquisa que empregam alguns dos mais brilhantes recém-formados chineses.

"Eles têm um relacionamento com o governo chinês, porque têm sido um grande empregador", diz Ives, sugerindo que isso pode limitar a margem de manobra de Pequim.

"Ao queimar a Apple, a China estaria, até certo ponto, queimando a própria casa."

A Apple não respondeu aos pedidos da reportagem da BBC por comentários.

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