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Muitos Lázaros

Diretor de teatro, escritor de livros infantis, ator de palcos a câmeras e, agora, prestes a lançar seu primeiro longa, Lázaro Ramos conta como a paternidade o transformou e o fez buscar o melhor do nosso Brasil

1 ago 2021 10h10
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Conhecer pessoalmente alguém por quem tenho profunda admiração (ok, vamos à linguagem certa, de quem sou fã) me causa desconforto. Aos 8 anos, nas férias dos sonhos com minha família, no Rio de Janeiro, vi pela primeira vez meu primeiro ídolo em carne e osso: Francisco Cuoco, na época protagonista da novela O Astro, escrita por Janete Clair. Francisco era, na minha visão infantil, portador de qualidades de um herói. Eu, maravilhada com sua presença, fui conversar com ele. Encontrei um ser humano em seus piores dias que, mal-humorado, me pediu sem nenhuma gentileza que o deixasse em paz em suas, também, férias.

De lá pra cá, assim como a idade, meus ídolos se multiplicaram, escritores, cantores, artistas, pessoas que tocam minha alma em algum lugar de descoberta. A reação a essa emoção é parecida; o carinho e a reverência da menina de 8 anos, com um adendo, a total falta de vontade de aproximação. Ao me deparar com o real Francisco, entendi que ídolos são personagens, imagens que criamos e adoramos e que é impossível que a pessoa real se equipare à nossa imaginação.

Na escolha entre continuar na fantasia ou conhecer o ídolo e me deparar com a realidade, preferi sempre a primeira opção. Como entrevistar pessoas e escrever sobre elas se transformou em parte do meu trabalho, tentei escapar várias vezes de momentos "frente a frente" com meus ídolos, até que a capa com Lázaro Ramos se tornou a melhor ideia para celebrar o Dia dos Pais. Ou era ele ou nada faria sentido. Segui, então, consciente de que essa entrevista tiraria Lázaro de seu posto para colocá-lo no lugar das pessoas comuns e reais.

Lázaro me recebeu virtualmente em um espaço minimalista e começamos a conversa pelo que, acredito eu, seja o ápice de uma nova fase de sua carreira, na qual direção, atuação e propósito se fundem em Lázaro como Martin Luther King na peça O Topo da Montanha. A peça, em cartaz no teatro Faap até o início da pandemia e antes do movimento Black Lives Matter, trazia um recorte da inspiradora história do ativista.

Lázaro dirigiu, atuou e colocou sua voz com intenção profunda na história que traz o exemplo da força e determinação de um homem na luta pelos direitos civis dos negros. "Quero voltar com a peça tão logo seja possível, tenho consciência do quanto minhas escolhas profissionais podem contribuir e transformar o mundo para melhor, e essa peça é útil e necessária", diz.

A paternidade para Lázaro foi sinônimo de renovação. "Quando fui pai, me vi repensando o profissional que eu queria ser. Minha carreira já estava estabelecida, mas quando as crianças vieram, me deu vontade de fazer mais, criar mais, contribuindo a partir das minhas escolhas profissionais para melhorar o país em que vivo."

Dessa vontade nasceu mais uma faceta de sua carreira, que ele diz ser "um projeto inteiro". Nela, Lázaro liga a literatura, o teatro infantil, a direção de teatro, o ator de cinema alternativo e o popular. Todas essas vozes são coordenadas para comunicar sua visão de mundo. "Me sinto parte dos problemas e das soluções e só com a força do coletivo consegui colocar para fora as ideias de uma cabeça que não para nunca", explica.

Os livros infantis foram escritos durante a pandemia e demonstram essa vontade de se comunicar, de plantar novas sementes. "Escrevo para crianças para que possamos nos transformar em adultos mais saudáveis", diz o Lázaro escritor. A linguagem é lúdica, bem-humorada e se comunica bem com o mundo infantil. Lázaro não deixa de falar sobre assuntos difíceis, mas com acolhimento. Morte, auto-estima, ancestralidade fazem parte da narrativa de forma leve e curativa.

Esse Lázaro que educa e acolhe em livros infantis também é capaz de se fazer ouvir através de falas honestas e ferozes no novo Medida Provisória, seu primeiro longa que será lançado no Brasil no segundo semestre. O filme, que tem como protagonistas Taís Araújo, Alfred Enoch e Seu Jorge, é baseado na peça Namíbia, Não, de Aldri Anunciação, e tem sido bem recebido pela crítica especializada internacional.

Em uma hora de conversa, a figura idealizada dá lugar ao ser humano Lázaro, cheio de entusiasmo, de vontades, de vida: ele se mostra próximo e acessível. Não é o herói de O Topo da Montanha. É o herói da vida real. Depois de quase dois anos de pandemia, olhar Lázaro, ouvir Lázaro, saber que Lázaro é brasileiro e lidera movimentos de transformação gera conforto e otimismo. A fã sai de cena e entra a mulher brasileira cheia de admiração por esse homem real que nos representa aqui e mundo afora.

Assistentes de fotografia: Gianfranco Vacani e Flávio Lucas

Assistente stylist: Lai Gomes

Maquiador: Ian Ribeiro

Styling: Maika Mano

Estadão
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