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Lula, Bolsonaro e Ciro falseiam e distorcem informações sobre a Amazônia

5 jul 2022 - 12h06
(atualizado às 13h09)
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Os três pré-candidatos com mais intenções de voto nas pesquisas presidenciais deram recentemente declarações com informações falsas e distorcidas sobre a Amazônia. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subestimou o tamanho do desmatamento do bioma nos anos em que seu partido esteve no poder. Jair Bolsonaro (PL) falseou ao dizer que a floresta não pega fogo porque é úmida. Já Ciro Gomes (PDT) afirmou ter iniciado, quando ministro, o zoneamento ecológico na região, mas as ações começaram antes de ele assumir o posto.

Confira abaixo, em detalhes, o que checamos:

  1. Luiz Inácio Lula da Silva
  2. Jair Bolsonaro
  3. Ciro Gomes

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Selo não é bem assim

Nos nossos governos, com muito trabalho e respeito, conseguimos reduzir o desmatamento [na Amazônia] em 87%. - no Telegram (5/6)

O percentual de redução do desmatamento na Amazônia citado no post de Lula é maior do que o verificado no monitoramento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). De acordo com o órgão, a queda no período das gestões petistas foi de 71,3%, não de 87%. A conta considera a diferença da área desmatada em 2002 (21.650 km²), antes de Lula ser eleito presidente, e em 2015, último ano completo de governo Dilma (6.207 km²).

Mesmo se considerados apenas os dois mandatos de Lula, a redução não chega ao percentual citado pelo petista no Telegram. Em 2010, haviam sido desmatados 7.000 km², uma redução de 72,4% sobre o apurado pelo Inpe em 2002.

A redução da área devastada na Amazônia durante os governos de Lula foi atribuída à época ao aumento da fiscalização, à criação de áreas de proteção e à restrição de crédito a desmatadores. Nos dois primeiros anos do petista, os índices haviam sido próximos às máximas da série histórica: 25.396 km², em 2003, e 27.772 km², em 2004.

O desmatamento voltou a apresentar tendência de crescimento em 2015, no governo Dilma Rousseff (PT), o que gerou críticas de opositores, como a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede).

Selo falso

Nós [governos Lula e Dilma] estávamos fazendo a maior demarcação de terras indígenas da história desse país.- em entrevista à rádio Difusora de Manaus (23/6)

A alegação do ex-presidente Lula (PT) foi classificada como FALSA porque dados mostram que os governos de Fernando Collor (então filiado ao PRN, hoje no PTB) e de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) demarcaram mais terras indígenas que as gestões petistas.

Segundo dados do ISA (Instituto Socioambiental) e do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), foram homologadas na Era FHC (1995 a 2002) 145 áreas indígenas, o maior número desde a redemocratização. Sob Collor (1990 a 1992), foram 112 demarcações.

O Cimi aponta que, nas gestões do PT, foram formalizadas 100 terras indígenas: 79 no governo Lula (2003 a 2010) e 21 no de Dilma Rousseff (2011 a 2015). O número do ISA referente à Era Lula é um pouco maior: 87 demarcações, o que elevaria o total dos anos petistas para 108 territórios demarcados.

O número de áreas declaradas como território indígena - fase anterior à homologação - também foi menor nas gestões do PT do que no governo de FHC — 107 contra 118, respectivamente, segundo o ISA.

O governo de Jair Bolsonaro (PL) é o primeiro a não homologar nenhuma terra indígena desde a redemocratização do Brasil.

JAIR BOLSONARO

Selo falso

Você pode jogar um tanque de combustível lá [Amazônia] que não pega fogo. A floresta é úmida.- em encontro com apoiadores (24/5)

É FALSO que a floresta amazônica não pode ser incendiada, como disse o presidente Jair Bolsonaro (PL). Embora de fato seja úmida, a mata pode sim entrar em combustão. Em maio, por exemplo, a Amazônia teve o maior número de incêndios em 18 anos, resultado de uma tendência de alta na destruição ambiental, de acordo com especialistas.

De acordo com a ONG Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), o fogo na região é resultado de três fatores: o tempo seco, em especial entre os meses de maio e outubro; o excesso de vegetação seca, que podem ser folhas e galhos caídos de copas de árvores ou vegetação desmatada; e a ação humana.

O Ipam explica que o uso do fogo para o manejo agropecuário é uma estratégia comum na região para a limpeza de terrenos e o uso das cinzas para a fertilização do solo. Há ocasiões, entretanto, em que as chamas escapam do controle nas propriedades rurais e se espalham pela floresta, por meio das folhas secas depositadas no solo.

Ainda de acordo com o Ipam, o fogo de manejo agropecuário é o tipo mais comum na Amazônia. No primeiro semestre de 2020, 50% dos focos de calor foram registrados em imóveis rurais médios e grandes.

Por não estar naturalmente adaptada a incêndios, a floresta é pouco resistente ao fogo. As queimadas podem afetar as taxas de mortalidade e de crescimento das árvores na Amazônia por mais de uma década, segundo artigo publicado em 2018 na revista da Royal Society, entidade inglesa de promoção da ciência.

Selo falso

Somos um dos países que mais preserva o meio ambiente e suas florestas. - em discurso na Cúpula das Américas (10/6)

A afirmação do presidente Bolsonaro é desmentida por indicadores socioambientais nacionais e internacionais.

Segundo análise publicada em abril de 2022 pelo Global Forest Watch, o Brasil foi líder na perda de florestas primárias no mundo em 2021, com 1,5 milhão de hectares destruídos - o equivalente a mais de 40% da área mundial de florestas tropicais perdidas no ano passado.

Os dados do Inpe sobre desmatamento mostram que o Brasil devastou 13.038 km² de florestas na Amazônia Legal em 2021, a maior taxa desde 2006.

Já o Environmental Performance Index de 2022, que avalia fatores como a qualidade do ar, as ações de mitigação das mudanças climáticas, a emissão de gases e a perda de florestas, coloca o Brasil na 81ª posição entre as nações mais sustentáveis do mundo. O estudo é realizado pelas universidades americanas de Yale e Columbia em colaboração com o Fórum Econômico Mundial.

CIRO GOMES

Selo falso

O pouco que existe [de zoneamento econômico ecológico na Amazônia], eu iniciei lá no Pará. - em entrevista ao podcast O Assunto (13/6).

Não é verdade que as iniciativas de ZEE (zoneamento econômico ecológico) na região amazônica foram iniciadas quando Ciro Gomes era ministro da Integração Nacional, entre 2003 e 2006. Registros apontam que as primeiras ações nesse sentido datam de 1999, no Acre, durante a gestão do então governador Jorge Viana (PT).

Quando Ciro Gomes integrava o ministério do ex-presidente Lula (PT), o zoneamento era de responsabilidade de outra pasta, a de Meio Ambiente, então chefiada por Marina Silva (Rede). A Integração Nacional era responsável pelo ordenamento territorial, que é a gestão de como o território deve ser ocupado, segundo lei federal.

O ZEE é uma medida governamental criada em 1981, dentro da Política Nacional do Meio Ambiente, para a delimitação de zonas ambientais com o objetivo de promover o uso sustentável dos recursos naturais de uma região.

A delimitação vem acompanhada de diretrizes específicas para a exploração econômica do local, assim como ações para corrigir eventuais danos identificados. A iniciativa adotada em 1999 no Acre foi concluída em 2001 e produziu relatórios técnicos e produtos cartográficos.

Na mesma entrevista, Ciro Gomes afirma que não existe atualmente nenhuma ZEE na Amazônia, o que também não procede. Em documento publicado em 2016, o governo federal lista medidas do tipo concluídas na região.

Outro lado. Os três pré-candidatos foram procurados para avaliar os resultados das checagens. A assessoria de Lula disse que não iria comentar. Já as de Bolsonaro e Ciro Gomes não responderam ao Aos Fatos até esta publicação.

Referências:

1. Instituto Socioambiental

2. Cimi

3. G1

4. Inpe

5. UOL

6. EBC

7. Folha de S.Paulo

8. Ipam (1 e 2)

9. Aos Fatos

10. The Royal Society Publishing

11. Global Forest Watch

12. Yale

13. SEMA-AC

14. Planalto (1 e 2)

15. O eco

16. Ministério do Meio Ambiente

Aos Fatos
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