Realengo sente falta “daquele abraço”

Dona Ana Santos mora há 48 anos em Realengo, quarto bairro mais populoso do Rio de Janeiro, com 180 mil habitantes de acordo com o Censo 2010 do IBGE. Ela tem na ponta da língua a resposta para a pergunta da reportagem do Terra: Qual é a reação das pessoas quando a senhora diz que mora aqui? “Elas logo perguntam: mora perto da escola?”, admite.

Assim tem sido a vida dos moradores do pacato bairro da zona oeste do Rio, encravado entre o maciço da Pedra Branca e a serra da Mendanha: conviver com a publicidade negativa da tragédia. “Aqui ninguém incomoda ninguém”, explica José de Mello, morador há 54 anos. Não é difícil encontrar carroças, por exemplo, rodando livremente pelas ruas. O clima de cidade interiorana, porém, está evidentemente manchado.

“Os moradores daqui acham que foi um caso raro. Mas quem tem sentimento sabe que foi uma coisa que mexeu muito”, completa. O massacre ocorrido na escola Tasso da Silveira, quando um atirador invadiu salas de aula matando 12 alunos e deixando outros 18 feridos, somou-se ao episódio do sequestro de uma equipe do jornal O Dia, em 2008, por milicianos da favela do Batan, um sub-bairro local.

“É triste, aqui é tudo tão calmo, e vamos ficar lembrados por estes episódios. Quando as pessoas ouvirem ‘alô, alô, Realengo’, vão lembrar disso tudo, e não da poesia da música. Uma pena”, lamenta o comerciante Rodolfo Paes, há 30 anos morando no entorno da Tasso da Silveira.

Eternizado na canção de Gilberto Gil, Realengo sente falta hoje “daquele abraço”.

“Confesso que agora estou meio amedrontada, mas a gente tem que enfrentar. Eu não saio mais tarde da igreja, por exemplo. Quando vejo que a hora vai se estendendo, deixo as coisas para depois. Até então eu não tinha medo, antes do acontecido. Abalou bem”, resume a vendedora de uma espécie de brechó que funciona na igreja presbiteriana ao lado da escola.

Moradores relatam o trauma de ver a história do bairro manchada pelo massacre. Foto: Reinaldo Marques/Terra

A vida no bairro do Realengo, um ano depois
Moradores relatam o trauma de ver a história do bairro manchada pelo massacre