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Flávio causou racha em núcleos bolsonaristas, aponta estudo

Críticas dos apoiadores em relação ao assunto Flávio Bolsonaro e Lava Toga foram maiores que as mensagens de apoio em grupos de apoio

9 out 2019
17h26
atualizado às 17h44
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A ausência de uma reação organizada acentuou o racha na base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais e grupos de Whatsapp após as notícias de que o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) estaria articulando para barrar a criação da CPI da Lava Toga. É o que aponta um estudo realizado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da FGV, a pedido do Estado.

O então deputado Flávio Bolsonaro com seu assessor Fabrício Queiroz
O então deputado Flávio Bolsonaro com seu assessor Fabrício Queiroz
Foto: Reprodução / Estadão Conteúdo

Diferentemente do que ocorreu em outros momentos considerados controversos pela base bolsonarista, durante dias, as críticas dos apoiadores em relação ao assunto Flávio Bolsonaro e Lava Toga foram maiores que as mensagens de apoio em grupos de apoiadores de Bolsonaro no Twitter e também no Whatsapp.

O estudo da DAPP analisou dois momentos em que o governo e o presidente foram alvo de críticas por parte de influenciadores e usuários que compõem sua base de apoio nas redes redes sociais: a indicação de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República, no dia 5 de setembro, e a orientação de Flávio Bolsonaro contra a CPI da Lava Toga, no mesmo dia. A coleta reuniu mais de 2,4 milhões de postagens no Twitter e 1,8 mil mensagens em grupos bolsonaristas públicos no Whatsapp.

Indicação de Aras e a contranarrativa

O relatório aponta que embora tenha havido uma repercussão negativa na hora seguinte ao anúncio da indicação de Aras, no dia 5 de setembro, o movimento de contestação foi neutralizado por uma forte onda de mensagens em grupos de Whatsapp - puxada por perfis influentes como a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) - elogiando o nome do então subprocurador, mostrando uma reação articulada. A própria Zambelli havia postado anteriormente uma lista com motivos para os apoiadores desconfiarem do nome do então subprocurador.

O levantamento mostra que entre a tarde do dia 5 - dia da indicação - e a manhã do dia 6, houve 706 mensagens positivas, 251 neutras e 190 negativas em grupos do Whatsapp.

No Twitter, o levantamento mostra que nos dias que antecederam a indicação de Aras havia uma coesão na base bolsonarista, em torno de postagens mais agressivas: o vereador Carlos Bolsonaro afirmava que o partido Novo nunca apoiou o governo de Bolsonaro e que o MBL apoiou tardiamente, enquanto que Jair Bolsonaro questionava a imprensa, se dizendo atacado por ela, e exaltava a reunião do chanceler Ernesto Araújo e de Eduardo Bolsonaro com o presidente americano Donald Trump.

Nos dias seguintes à indicação do novo PGR, apesar da divergência sobre o indicado, tendo como principal crítico o influenciador Leandro Ruschel, o relatório mostra que os vetos de Bolsonaro à Lei de Abuso de Autoridade impediram uma fragmentação entre os apoiadores.

Flávio Bolsonaro e Lava Toga: ausência de contranarrativa

Ao contrário do que ocorreu com a indicação de Aras, a movimentação de Flávio Bolsonaro para conter o movimento no Senado que buscava instaurar a CPI da Lava Toga, que tem o objetivo de investigar ações de membros do Judiciário, como ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), não contou com uma contranarrativa rápida dentro da base de apoio de Bolsonaro em proteção ao governo, segundo o estudo. A articulação do filho mais velho do presidente contra a Lava Toga, pauta cara ao eleitorado mais fiel de Bolsonaro, gerou o maior racha até agora entre a militância digital do governo.

Nos grupos de apoiadores de Bolsonaro no Whatsapp, as reações foram majoritariamente negativas e as contranarrativas demoraram alguns dias para acontecer. As primeiras notícias sobre a articulação de Flávio contra a Lava Toga começaram a ser publicadas no dia 5 de setembro e somente no dia na noite do dia 10 as postagens positivas ao governo ultrapassaram as negativas. Segundo a análise do DAPP, destacou-se a atuação do perfil de Allan dos Santos, do canal Terça Livre e um dos principais perfis influenciadores do bolsonarismo nas redes, em defesa da posição de Flávio.

O levantamento mostra que o apoio à CPI alcançou 23% dos perfis bolsonaristas, articulado principalmente pelos perfis de Felipe Moura Brasil e Leandro Ruschel. Já Eduardo Bolsonaro e Allan dos Santos foram os principais propagadores da união no apoio ao governo Bolsonaro. Santos chegou a sugerir um "cadastro" de militantes pró-bolsonaro no Twitter, atendendo a um pedido feito pelo escritor Olavo de Carvalho, tido como "guru" de Bolsonaro.

No dia 10, começaram a surgir convocações para manifestações de rua a favor da Lava Toga para o dia 25. As postagens nesse sentido, no entanto, foram consideradas neutras pelo fato de terem poupado Flávio e o presidente Bolsonaro e concentrado os ataques contra os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP). O estudo mostra que, entre as noites de 9 e 10 de setembro, das 721 mensagens sobre Flávio e a Lava Toga em 129 grupos de apoiadores de Bolsonaro no Whatsapp, 41% eram negativas, enquanto que 37% eram favoráveis e 22%, neutras.

O movimento para criar a CPI no Senado causou um racha também na bancada do PSL na Casa. Dos senadores do partido, apenas Flávio não assinou o requerimento para instaurar a CPI. A senadora Juíza Selma acabou trocando o PSL pelo Podemos devido à pressão de Flávio e do presidente nacional do partido, Luciano Bivar, para que sua assinatura em favor da CPI fosse retirada. O líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), afirmou à época que não mudaria seu voto e que também não trocaria de partido.

Na segunda-feira, 7, Olímpio voltou a criticar o "filho 01" do presidente. "Flávio Bolsonaro para mim acabou, não existe mais", afirmou, deixando claro o racha que os atritos sobre a Lava Toga causaram. O desgaste entre a família Bolsonaro e o PSL se agravou ainda mais quando o presidente disse para um apoiador para que ele esquecesse o PSL e que Bivar está "queimado". Bivar rebateu dizendo que Bolsonaro não tem mais relação com o partido.

'Ação tática'

Para o pesquisador em estudos de comunicação em rede e ética da ESPM, Luiz Peres-Neto, a diferença entre um caso e outro em relação à contranarrativa se explica por uma questão tática. "No caso de Aras, não existia outra opção após a indicação, então existia uma necessidade política de matar o assunto", explicou.

Já no caso de Flávio Bolsonaro e a CPI da Lava Toga, Peres-Neto analisa que não houve um movimento "brusco" de reação às críticas devido a possibilidade de existir mais informações a vir à tona. "No caso da Lava Toga, é evidente que tem aí o caso da própria investigação contra o Flávio no caso Queiroz (suspensa pelo presidente do STF, ministro Dias Toffoli, a pedido da defesa), então é um cenário de terra movediça e de poucos passos, já que pode haver novos capítulos e a contranarrativa dentro da própria base pode ser desmoralizada", afirmou.

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Estadão
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