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Candidatos do PSDB erram ao discursar para a militância; leia análise

Diante da crise atual, só ganhará consistência e viabilidade quem lograr representar uma alternativa real para o conjunto do País

12 nov 2021 16h35
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O PSDB é muitas vezes criticado por ficar em cima do muro, o que nem sempre é verdade, mas o debate entre os candidatos que disputam as prévias do dia 22 produziu um cenário no mínimo paradoxal. Por um lado, o partido adotou um método democrático - anti-oligárquico - de escolha de candidatos, o que o distingue de todos os demais partidos; mas, por outro, adotou um tom discursivo para se apresentar aos seus filiados e apoiadores que implica em uma armadilha, qual seja, a de ficar falando mais para dentro, para a militância, do que para fora, para o conjunto da Nação. É um sinal limitador.

A resposta a essa crítica é que as prévias do dia 22 são exatamente isso, uma disputa interna pela preferência dos militantes e apoiadores. Mas isso é um equivoco grave porque a crise de lideranças políticas que o País vive - de que foram expressão os escassos 4% que o candidato do partido obteve em 2018 - não tem possibilidade de se resolver nas estruturas fechadas de um único partido ou de uma facção. Só ganhará consistência e viabilidade quem lograr representar uma alternativa real para o conjunto do País em face do marasmo e da sensação de falta de rumos que o acomete. É assim que poderá empolgar o partido.

Não seria justo, no entanto, dizer que isso faltou completamente no debate promovido pelo Estadão. O ex-senador Arthur Virgílio, e de modo diferente o governador Eduardo Leite, ensaiaram introduzir no debate temas que sugerem a perspectiva de um macro projeto para o país. Virgílio contrapôs ao quadro econômico desastroso do presente a política bem sucedida do governo FHC que envolveu responsabilidade fiscal, cambio flutuante e meta de inflação. A ideia é que isso é condição para uma recuperação da economia, criação de emprego e aumento da renda das pessoas. Leite associou às mesmas ideias o legado de Mário Covas, Franco Montoro e José Serra, além de FHC, para sugerir que o partido tem uma trajetória histórica que o credencia para tirar o país da crise.

O governador João Doria manteve o perfil adotado em debate anterior. Ele critica duramente o governo Bolsonaro de modo a dissociar a sua imagem da associação com ele em 2018, e tem a vantagem de ter bons resultados a mostrar de seu governo, as iniciativas acertadas quanto à pandemia, o equilíbrio fiscal, a reforma administrativa e as escolas de tempo integral. Mas ainda assim, igual que seus contendores, não transpõe completamente um perfil mais regional, sem apontar uma pista mais concreta de como pretende, se governo for, tirar o país da crise. É isso que faz falta hoje.

Os três pré-candidatos também falaram de modo genérico em defesa da democracia e na necessidade de metas para enfrentar as desigualdades e a pobreza, mas foram pouco concretos nisso, com exceção de Leite que defendeu a necessidade de a política contra a pobreza focar nos quase 20 milhões de crianças completamente desassistidas. Curiosamente, falando alguns dias depois do lançamento de Sérgio Moro como candidato à presidência, nenhum dos três abordou a questão da corrupção, sua importância e se pretendem enfrentá-la. Isso pode ser um diferencial a favor do adversário deles.

Nenhum dos três tampouco explicou porque de um total de mais de 1 milhão de filiados do PSDB apenas cerca de 30 mil estarão credenciados a votar nas prévias. Ainda assim, o caminho adotado pelo partido indica que os partidos podem se renovar se houver vontade política. O Estadão, com o debate, soube reconhecer esse mérito e lhe deu a visibilidade merecida.

* PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP

Estadão
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