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'Talvez no futuro a Fuvest possa ter entrevistas. Hoje ainda é muito complexo'

Diretora executiva da Fuvest lembra que a média de 33 mil a 35 mil concorrentes na segunda fase dificulta uso de bancas e cartas de recomendação

16 nov 2021 05h10
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Como atualizar o vestibular da Universidade de São Paulo (USP), um dos mais importantes do País, frente às mudanças do ensino médio e os avanços digitais? Propostas elogiadas por especialistas, como entrevistas e cartas de apresentação, podem integrar o exame da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest)? As respostas ainda não estão definidas, mas a instituição reconhece que os questionamentos são pertinentes.

"Talvez no futuro possamos pensar em um vestibular para a USP descentralizado e contemplando os modelos de entrevistas e cartas de recomendação", afirma Belmira Amélia de Barros Oliveira Bueno, diretora executiva da Fuvest. "Hoje, para o nosso contexto, ainda é muito complexo. Temos em média 33 a 35 mil candidatos que passam da primeira para a segunda fase. Como avaliar tantas cartas de apresentação? Quantas bancas seriam necessárias? Imagine levar em consideração as especificidades das carreiras, das unidades e áreas." Confira a seguir a entrevista completa:

A partir de 2022, o ensino médio terá itinerários formativos, com a possibilidade de o estudante escolher as áreas que mais o atraem. Há algum estudo em andamento para que a Fuvest seja adequada a esse cenário?

Em 2019, estávamos em um estreito processo de interação com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, justamente para discutir a proposta do novo ensino médio. Fomos surpreendidos em 2020 com a pandemia, e as ações foram interrompidas. Daí passamos a nos dedicar a manter o vestibular nesse contexto, e fomos exitosos. Não registramos contágios durante as provas, uma grande vitória. Agora, vamos retomar os debates sobre o novo ensino médio. Esse será nosso próximo grande desafio, do ponto de vista dos conteúdos das provas.

Já há algum caminho em estudo, sobre como modificar as provas?

Não poderemos pensar em um modelo compacto e homogêneo, a ideia é justamente diversificar. Queremos discutir entre os alunos de escolas públicas e privadas. O sucesso do novo ensino médio depende menos do que aparece nas telas e papéis, e sim da competência dos professores, de estarem preparados para um trabalho interdisciplinar que é a tendência na educação. As mudanças nos farão repensar as provas da Fuvest. Talvez nós, da equipe organizadora, tenhamos de fazer estágios em escolas para conhecer in loco a aplicação dos novos currículos, ver o que acontece no dia a dia dos alunos. Nos sentimos desafiados a olhar de perto para pensar com mais realismo no formato das provas. É uma ideia e não significa que dará as respostas que a sociedade demandará dos vestibulares.

E sobre os processos seletivos digitais, há algum recurso tecnológico que poderá ser aplicado nas provas da Fuvest?

Fizemos algumas experiências pequenas para candidatos dos cursos de pós-graduação da Faculdade de Direito, com cerca de 4 mil inscritos. Foram duas edições, uma em 2020 e outra em 2021. As provas envolveram proficiência em língua estrangeira e de conhecimentos jurídicos, no formato dissertativo. Foi um trabalho intenso.

O que posso dizer é que a perspectiva de um caráter virtual para as principais provas ainda é mera conjectura. Tudo na Fuvest é muito grande. Pensar em um formato digital para 110 mil candidatos não é possível neste momento. Além disso, mal consigo imaginar o aumento no número de inscritos que receberíamos. Seria uma demanda muito grande, se pensarmos que atualmente já temos muitos candidatos de outros Estados que vêm até aqui fazer as provas. Mas espero que em um futuro não muito distante os sistemas caminhem de tal forma que tenhamos condições de aplicar um exame de tal magnitude com segurança e confiabilidade. Também vamos olhar com atenção as experiências de outras instituições, principalmente das que lidam com grande quantidade de candidatos.

Deve ser algo que garanta a todos concorrer em condições iguais. Isso é uma questão de honra para a Fuvest e não podemos correr o risco de quebrar tal confiança que a sociedade tem em nosso exame.

No exterior, processos seletivos com entrevistas e cartas de apresentação são comuns. A Fuvest considera esse formato?

O modelo de entrevistas e de carta de apresentação é muito bom, pois permite avaliar melhor o desempenho dos candidatos. Mas para o contexto da Fuvest, ainda é muito complexo. Temos em média 33 mil a 35 mil candidatos que passam da primeira para a segunda fase. Como avaliar tantas cartas de apresentação? Quantas bancas seriam necessárias? Imagine levar em consideração as especificidades das carreiras, das unidades e áreas. Seria bom poder contar com avaliações do percurso dos alunos, verificar seus currículos e os testemunhos dos professores. Entrevistas poderiam auxiliar como medidas complementares. Estive em um evento com coordenadores de processos seletivos de instituições privadas, que lidam com um número bem menor de candidatos que o nosso. Eles conseguem ajustar as portas de acesso com formas complementares. Nós estamos muito desafiados pelos números. Mas não quero dizer que vamos nos render e não fazer nada. Talvez no futuro possamos pensar em um vestibular para a USP descentralizado e talvez contemplando os modelos de entrevistas e cartas de recomendação. Eu ficaria muito feliz se um dia pudermos agregar tais formatos, pois toda avaliação é incompleta e imprecisa, por mais que tentemos corrigir as falhas, aperfeiçoar seus elementos e tornar seus objetivos comparáveis e verificáveis. Não existe avaliação perfeita.

Frente às dimensões da Fuvest, como manter o exame eficiente e justo?

Gostaria de discutir uma questão fundamental: há uma enorme discrepância entre a população jovem, com idade para o ingresso no ensino superior, e o número de vagas. Só em nosso Estado, são 13 milhões de jovens. Na USP, temos 11 mil vagas. Mesmo se somarmos as vagas das outras universidades estaduais e das federais situadas em São Paulo, são números muito aquém da demanda pelo ensino superior gratuito. Nosso problema começa por aí. Fazemos um grande esforço para aperfeiçoar nossas provas, mas o número de vagas fica praticamente inalterado.

É muito difícil fazermos justiça em um único exame, não apenas do ponto de vista de conhecimentos e formação intelectual. Temos de considerar uma sociedade na qual prevalece uma enorme injustiça social. Desde o ano passado atingimos a reserva de 50% das vagas para alunos de escolas públicas. Foi um grande passo, mas a concorrência permanece muito grande. No próximo ano, faremos uma análise dos perfis dos candidatos. Queremos dar mais subsídios para as políticas de inclusão da USP, com elementos que possam ajudar no mapeamento e na luta por ampliação de vagas.

Estadão
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