'Política está na natureza da ação', diz professor de Gestão Pública

Segundo Fernando de Souza Coelho, da USP, principal desafio dos cursos de pós na área é fazer com que aluno veja política 'como paisagem'

29 jan 2019
06h10
  • separator
  • comentários

O principal desafio dos cursos de pós e MBA em Gestão Pública é fazer com que o aluno veja a política não como problema, mas como paisagem. A opinião é de Fernando de Souza Coelho, professor de Gestão Pública da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP).

Para que isso aconteça, diz, é preciso oferecer uma formação técnico-política que atenda tanto a quem já faz parte da máquina estatal, e que sabe da importância da gestão profissionalizada, como quem atua em empresas e fundações e sente a necessidade de iniciar ou melhorar a interlocução com o Estado.

A seguir, a entrevista:

Qual é o histórico dos cursos de Gestão Pública?

Tudo começou nos anos 1990, com o ganho de importância da administração dos governos estaduais e municipais após a Constituição de 1988. Em 1995, tínhamos no Brasil dez cursos de graduação nas áreas de Administração e Gestão Pública. Hoje temos 200 espalhados por todo o País e no atual momento tem crescido a oferta de pós. Nesse tempo, a noção do que é público começou a extrapolar a ideia de estatal. Hoje, falamos que o público é sinônimo de interesse público. Entram em cena as ONGs, Oscips (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), fundações, terceiro setor, partidos, sindicatos, organizações filantrópicas e o próprio mercado privado que passou a ter maior participação nos negócios públicos com as terceirizações, concessões, parcerias, etc. As áreas de regulações se multiplicaram nas empresas, cresceu o mercado de consultoria para o setor público.

Qual é o desafio da formação?

É saber tratar a administração pública de modo multidisciplinar. Como a gestão pública não é um campo bem definido, um curso pode dar mais ênfase ao direito público, outro à questão econômica do Estado ou à questão política e um outro a ferramentas administrativas. A grande questão é como juntar essas racionalidades em um processo de formação.

E tem as expectativas dos alunos também...

Sim. Muitos vêm da iniciativa privada, de departamento de relações governamentais, com a ideia preconcebida de que o Estado deve funcionar como funciona uma empresa. O curso precisa ter claro que a política está na natureza da ação. É preciso compreender a política não como problema, mas como paisagem. Evitar o mimetismo da gestão empresarial, porque algumas questões precisam de adaptação na forma de pensar, sob o risco do curso trabalhar somente o lado ferramental e não ir a fundo na natureza da administração pública. O caminho é compreender o processo político e a prática administrativa, o que chamamos de formação técnico-política.

E quais as perspectivas de mercado?

Nos últimos anos, até por uma questão conjuntural da crise econômica, cresceu muito a agenda do Brasil de investimento social que vem de dentro das empresas. Cresceram muitos os projetos sociais financiados por institutos e fundações empresariais em Estados e pequenos municípios. Na política educacional, por exemplo, muitos municípios com bons resultados têm a participação de grupos empresariais na implementação de projetos. Apesar de o processo de formação de um Estado ligado ao terceiro setor tenha mais de duas décadas, a conjuntura dos últimos quatro anos acelerou essa relação. Além disso, também teve início no País, nos últimos cinco anos, um processo de mobilidade no mercado de trabalho entre setor privado e público, uma vez que muitos cargos em comissão começaram a ser preenchidos por critérios de competências. Assim, muitas pessoas que têm interesse no setor público procuram igualmente os cursos de MBA e especialização em Administração Pública para se capacitarem para tal mercado de trabalho.

Estadão
  • separator
  • comentários
publicidade