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Para um novo momento da educação, especialistas defendem outras avaliações

Metodologia de projetos e uso de portfólios estão entre as formas defendidas para medir o aprendizado

24 set 2021 05h11
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A avaliação, uma das questões cruciais no processo educacional, ganha contornos ainda mais complexos com a pandemia. Como mensurar o que foi aprendido diante de uma situação inédita de defasagem ou até mesmo de interrupção da aprendizagem na vida de milhões de alunos pelo País?

A esse cenário desafiador, os especialistas incluem a urgência de se refletir sobre o formato - com testes de múltipla escolha - e a finalidade das avaliações em larga escala. No Brasil, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) é o responsável pela aplicação do Saeb, direcionado aos alunos do fundamental, e também do Enem, que avalia os estudantes ao fim do ensino médio.

"A avaliação pode ser uma avaliação da aprendizagem ou uma avaliação para a aprendizagem. Eu tenho de pegar a avaliação, que neste momento está muito longe do ensino, e colocar mais perto disso", afirma Chico Soares, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-presidente do Inep. "A nossa avaliação externa, como está organizada, impede isso. Primeiro porque ela está ultrapassada, é de 2001. E, segundo ponto, a nossa implementação precisa mudar; paramos em um momento de teste de múltipla escolha."

Fazer uma avaliação que tenha como objetivo o aprendizado significa incorporar novos elementos ao universo escolar, com ferramentas que deem conta de medir a diversidade de competências e experiências dos alunos. "Nossas avaliações pararam no tempo. O mundo mudou, nosso conhecimento mudou. Agora temos uma base curricular (a Base Nacional Comum Curricular); precisamos modular nossas aprendizagens", afirma Maria Inês Fini, presidente da Associação Nacional de Educação Básica Híbrida (Anebhi), ex-presidente e atual diretora do Inep.

Maria Inês lembra que um teste padronizado, para ser fiel, é como um termômetro, tem de estar ajustado. "Qual escola ou sistema sabe fazer um bom teste padronizado a partir do que é ensinado? Então, que tal se usássemos os portfólios? Que tal as metodologias de projetos? Que tal se conseguíssemos elaborar tarefas para os nossos alunos que não fossem mera repetição sobre o que é isso ou o que é aquilo, com as situações contextualizadas?"

A partir daí, sim, pode-se criar um círculo virtuoso. A diversidade de instrumentos permite uma melhor medição do aprendizado dos estudantes; e esses dados, por sua vez, servem de norte para a continuidade do processo. "A forma como a gente ensina gera aprendizagem e o resultado da avaliação é informação para a própria comunidade de educadores. A partir dos dados, pode-se recalcular a rota de ensino, de políticas públicas", observa Denise Lam, head of learning leadership da Red House International School.

A educadora explica que o processo de aprendizagem real envolve uma sequência evolutiva, da lembrança do conteúdo à criação de algo a partir do que foi aprendido. "O aluno inicialmente recorda dos conteúdos ensinados; depois ele compreende esses conceitos; daí parte para a aplicação naquele e em outros contextos; segue para a análise; e, por fim, a criação em cima daquilo que foi ensinado."

É um processo de ensino e aprendizagem que reflete o que disse Paulo Freire, o patrono da educação brasileira, cujo centenário de nascimento foi comemorado nesta semana: "Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante".

Estadão
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