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Educação

Pandemia pode mudar perfil do aluno de pós

Em decorrência das transformações na sociedade e na economia, novos empreendedores devem estar entre os que buscam especializações

8 abr 2021
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Cursos de especialização costumam atender a dois perfis de profissionais: o primeiro busca se aprimorar na área de formação e o segundo vê a oportunidade de aprender tópicos que o habilitem a atuar em outro segmento. Com a pandemia, transformações na sociedade e na economia devem ampliar a lista de possibilidades ao se fazer um curso de pós-graduação. Um dos pontos é a questão do empreendedorismo, um conteúdo ainda escasso nos currículos de graduação, mas crucial para a sobrevida de um negócio próprio, seja em qual ramo for.

"Devemos ver um aumento grande de empreendedores por necessidade nos próximos anos, aquele que empreende porque perdeu o emprego e não tem perspectivas de voltar ao mercado tão cedo. Esse profissional precisa se capacitar em gestão para fazer o melhor uso possível dos recursos de que dispõe", afirma David Kallás, coordenador dos programas de Pós-Graduação Lato Sensu do Insper. "Outro caminho é o de identificar as novas profissões que terão demanda por profissionais. Um exemplo é a de cientista de dados, praticamente inexistente anos atrás e que terá crescimento exponencial." Confira a entrevista:

Apesar das incertezas sobre a educação como um todo após a pandemia, é possível definir que características os cursos de pós deverão apresentar ou reforçar?

Pesquisas mostram que as principais habilidades do profissional futuro tendem a ser diferentes das que nos trouxeram até aqui. Uma que aparece no topo dos rankings é a habilidade de resolver problemas complexos. São situações desafiadoras, sem "enunciado" e nas quais o profissional precisa tomar decisões com informações incompletas. No Insper, chamamos isso de competências transversais, que devem estar presentes no curso de forma geral e estruturada, independentemente da disciplina que o aluno cursa. Identificávamos essas demandas como tendências de longo prazo. Mas a pandemia acelerou esse processo. Uma frase que ouvimos muito de executivos é: "Normalmente contratamos por causa das competências técnicas e demitimos por causa das comportamentais". Quanto mais alto o nível de gestão em que o profissional se encontra, mais importantes são as soft skills.

A área da saúde tem uma demanda urgente de profissionais que precisam de um longo período de formação. As especializações podem ser uma resposta, capacitando com agilidade?

Certamente. Médicos e outros profissionais de saúde são chamados com muito mais frequência para cargos de liderança e, de forma geral, têm pouca ou nenhuma formação em gestão. Cursos de especialização em gestão de saúde são oportunos tanto para esse público quanto para profissionais de gestão que queiram aprofundar o conhecimento no setor, com necessidades específicas e desafiadoras.

Apesar do nome especialização, a pós pode servir para mudar de área. Quais cursos devem ter mais demanda no pós-pandemia e podem ser um plano B?

Vejo alguns caminhos. O primeiro é o do empreendedorismo. Devemos ver um aumento muito grande de empreendedores por necessidade nos próximos anos, aquele que empreende porque perdeu o emprego e não tem perspectivas de voltar ao mercado tão cedo. Esse profissional precisa se capacitar em gestão para fazer o melhor uso possível dos recursos de que dispõe para implementar práticas ágeis para o seu negócio. Outro caminho é o de identificar as novas profissões que terão demanda por profissionais. Um exemplo é a de cientistas de dados, praticamente inexistente anos atrás e que terá crescimento exponencial.

A pandemia popularizou as ferramentas de interação virtual, até para quem era resistente. Nesse aspecto, as pós totalmente online já estão estabelecidas?

A pandemia acelerou um processo que já estava em curso no mundo, mas foi fundamental ao romper o paradigma de que não era possível ter aula digital com qualidade didática e técnica. Hoje, ninguém duvida de que existe infraestrutura tecnológica para ensino e aprendizagem. Acredito que o mercado vai se segmentar. Haverá pessoas que se adaptam a esse tipo de formato, outras que preferirão a volta dos cursos presenciais e uma parcela que optará por formatos intermediários. Além disso, há a barreira regulatória a ser vencida. Acreditamos que, no futuro, as escolas de negócios deverão oferecer aos alunos um espectro mais amplo de possibilidades. O desafio para muitas será assegurar o aprendizado.

Hoje falamos muito de formação continuada, que não abrange apenas a pós. Como ponderar qual é a melhor escolha?

Depende do contexto. De forma geral, para profissionais em início de carreira que não tiveram uma formação em cursos de Administração ou relacionados à gestão, uma pós estruturada pode ser recomendada. Para os que estão em consolidação da posição de gestor, vale pensar em MBAs. Por outro lado, quando o desenho é mais focado em habilidades técnicas, e não necessariamente gerenciais, talvez valha pensar em cursos especializados nessas técnicas. Quando a necessidade de aprendizagem é muito específica, ou quando o profissional já é mais sênior e graduado em alguma pós, pode valer buscar cursos de curta ou média duração.

São recentes os casos de pós que permitem ao aluno definir a trilha de aprendizagem, selecionando módulos e disciplinas. Esse modelo deve se expandir?

Está em ascensão em grandes escolas no exterior. É chamado de micro-certificação ou micro-credenciais. Minha aposta é que esse formato alcançará um público hoje pouco atendido pelas escolas de negócio nos seus cursos de pós. Acredito muito em dar liberdade ao aluno para definir sua trilha, mas temos a consciência de que uma oferta desse tipo deverá vir acompanhada de um serviço de aconselhamento e curadoria individualizado, principalmente para os alunos menos maduros ou conscientes de si para fazer escolhas em relação ao seu aprendizado.

Estadão
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