Morrer tentando ser aceito: os estudantes que morrem nas cerimônias de fraternidades nos EUA

As tradicionais organizações universitárias estão há anos no centro de controvérsias por causa dos trotes violentos com calouros e de acusações de abuso de poder e agressão sexual.

19 nov 2017
08h24
atualizado às 10h49
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Tim Piazza, estudante da Universidade Estadual de Pensilvânia, foi declarado morto na madrugada do último dia 4 de fevereiro.

Assim como outros 13 candidatos a entrar na fraternidade Beta Theta Pi, o jovem de 19 anos participava de uma "cerimônia de iniciação" que incluía ingerir uma mistura de bebidas alcoólicas o mais rápido possível.

As autoridades americanas anunciaram na última segunda-feira que o FBI recuperou um vídeo que as câmeras de segurança haviam registrado na noite de sua morte e que, ao que parece, foi apagado intencionalmente.

Timothy Piazza com os pais
Timothy Piazza com os pais
Foto: BBCBrasil.com

A gravação mostra que Tim consumiu pelo menos 18 bebidas em 82 minutos, antes de cair de uma altura de 4,6 metros pela escadaria do sótão da casa da fraternidade.

No entanto, pelo menos 12 horas se passaram antes que qualquer um dos membros da Beta Theta Pi chamasse os serviços de emergência.

Os laudos médicos indicaram que Piazza tieve uma fratura no crânio e lesões cerebrais traumáticas irreversíveis. Seu baço também se rompeu em vários lugares, o que provocou hemorragia interna e um choque hemorrágico.

Agora, 26 membros da Beta Theta Pi enfrentam acusações relacionadas a sua morte, que vão desde fazer trotes, algo ilegal em partes dos Estados Unidos, até homicídio culposo (sem a intenção de matar).

Mas este caso é apenas um dos que ocorreram este ano no país.

Maxwell Gruver
Maxwell Gruver
Foto: BBCBrasil.com

Outros três estudantes de diferentes universidades americanas morreram desde o incidente de Tim Piazza - dois deles nas últimas semanas.

No total, foram registradas 70 mortes de estudantes relacionadas com trotes desde 2000, um número que não inclui as que foram consideradas acidentes.

"As universidades tendem a não regular essas atividades até que alguém morre", disse à BBC o jornalista da Bloomberg John Hechinger, autor de True Gentleman: The Broken Pledge of America's Fraternities (Um verdadeiro cavalheiro: a promessa quebrada das fraternidades da América, em tradução livre).

O livro é resultado de uma pesquisa de dois anos sobre essas organizações estudantis tradicionais no país. "Elas cada vez têm mais poder justamente no momento em que aumenta a preocupação a respeito do tema."

Tradição americana

As fraternidades de hoje tiveram origem na década de 1820 e se tornaram uma tradição exclusivamente dos campi universitários americanos.

Elas operam com um alto grau de autonomia dentro das instituições, com níveis de supervisão variados.

Casas de fraternidades
Casas de fraternidades
Foto: BBCBrasil.com

Na medida em que sua popularidade aumentou, as universidades também começaram a utilizar as organizações como forma de atrair potenciais estudantes.

Fundadas em valores conservadores de camaradagem e filantropia, as fraternidades têm alta representação em cargos bem remunerados e na política - ter pertencido a algumas delas, portanto, é visto como algo que pode garantir a entrada dos jovens profissionais nos círculos do poder.

Apesar de geralmente serem financiadas de maneira independente, através de doações de alunos e ex-alunos, as fraternidades às vezes recebem incentivos e subsídios das universidades, como alugueis mais baratos em propriedades no campus.

Casa de fraternidades
Casa de fraternidades
Foto: BBCBrasil.com

As sororidades (ou irmandades, para mulheres) e fraternidades têm aproximadamente 400 mil estudantes de graduação como membros em todo o país - e cerca de US$ 3 bilhões em propriedades.

Na cultura cinematográfica e televisiva, as organizações são frequentemente retratadas em seus excessos, mas as festas e a diversão são consideradas um marco da vida no ensino superior.

"Temos, por exemplo, o filme Clube dos Cafajestes , de 1978. Não sei se foi exatamente a intenção, mas ele satirizava e também glorificava a cultura da bebida. Isso influenciou profundamente o que nós pensávamos que deveria ser uma experiência universitária nos EUA", diz Hechinger.

Os estudantes no país podem ter 18 anos ou até menos ao ingressar na universidade, mas a idade legal para beber, desde a década de 1980, é de 21 anos. Dentro dos campi, no entanto, ela muitas vezes não é respeitada.

"Quando a idade permitida para beber aumentou, ficou mais difícil para os estudantes comprarem álcool. Por isso, as fraternidades viraram uma espécie de bar para quem está abaixo da idade legal. Isso aumentou o poder delas e as transformou em atração. Só nas universidades maiores o fluxo de álcool é mais controlado."

O Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos afirma que entre os estudantes universitários há maior incidência de consumo excessivo de bebidas alcóolicas do que entre os não universitários.

Abuso de poder

De acordo com relatos, os quatro estudantes que morreram este ano eram novos membros de fraternidades.

O processo de seleção chega a durar meses em alguns casos, e os eleitos entram em caráter provisório, sem saber ainda se já são membros em pleno direito.

"Isso cria um desequilíbrio de poder onde os membros mais antigos podem dizer aos novatos o que eles devem fazer (para serem efetivados)", explica Hechinger.

Estudantes
Estudantes
Foto: BBCBrasil.com

Os trotes - conhecidos como atividades ou situações que causam vergonha, assédio ou expõem os calouros ao ridículo intencionalmente - são amplamente proibidos no país, mas as cerimônias de iniciação continuam sendo uma tradição na maioria das fraternidades.

Mas nem todas elas se baseiam no consumo de álcool.

Em abril, um estudante foi acusado de passar manteiga de amendoim no rosto de um companheiro que tinha uma alergia fatal ao produto.

Andrew Seely
Andrew Seely
Foto: BBCBrasil.com

Segundo Hechinger, uma das maneiras como as universidades e as fraternidades têm tentado combater situações como estas é proibindo ou suspendendo a entrada de aspirantes às casas envolvidas neste tipo de incidente.

A fraternidade Sigma Alpha Epsilon (SAE), uma das maiores e mais ricas do país, na qual Hechinger concentrou sua pesquisa, teve 10 membros mortos em atividades entre 2008 e 2014.

Desde que as cerimônias de iniciação foram proibidas, no entanto, não houve nenhuma morte.

Mas estudantes também relataram ter sido estupradas em festas da SAE em mais de uma universidade do país.

Aumento

As pesquisas sobre a ocorrência de mortes relacionadas com álcool e os trotes universitários não são novas, mas os dados mostram que o número de incidentes parece estar aumentando.

De acordo com Hechinger, seu levantamento indica que uma das razões para isso poderia ser o aumento do consumo de bebidas alcoólicas mais fortes.

"Os barris de cerveja são mais baratos, mas, para os bebedores menores de idade, são mais difíceis de esconder. Cientificamente, é muito difícil morrer por causa da cerveja. Mas com a mudança para bebidas mais fortes, é possível beber até a morte em uma hora", afirma.

Fraternidade
Fraternidade
Foto: BBCBrasil.com

Diante dos casos de morte e de agressões sexuais, algumas universidades tomaram medidas como suspender temporariamente as festas em fraternidades, proibir completamente consumo de álcool e prometer reformas no sistema que regula as organizações.

Mas estas irmandades e fraternidades são extremamente influentes nacionalmente e dentro das universidades. Muitos de seus ex-membros, afinal, são homens e mulheres poderosos.

Uma abolição total destas organizações também poderia causar problemas importantes de infraestrutura, principalmente nas residências dos estudantes. Em geral, os membros das fraternidades e irmandades vivem nas casas alugadas pela organização.

Casa da fraternidade Beta Theta Pi na Universidade Estadual de Pensilvânia
Casa da fraternidade Beta Theta Pi na Universidade Estadual de Pensilvânia
Foto: BBCBrasil.com

Desde a morte de Andrew Coffey e Matthew Ellis, de 20 anos, no início de novembro, as universidades estaduais da Flórida e do Texas suspenderam as festas em fraternidades.

Na Flórida foi estabelecida uma "proibição indefinida" - o reitor quer que se estabeleça um "novo normal" antes que as atividades possam voltar a ser realizadas.

Outras denúncias de incidentes em trotes levaram à adoção de medidas semelhantes na Universidade de Michigan, na Universidade Estadual de Montana e na Universidade Estadual de Ohio.

Em nível estadual, foram implementadas leis antitrotes, mas ainda há dúvidas sobre seu funcionamento, na medida que as mortes se multiplicam.

Ainda não se sabe se as tragédias de 2017 serão suficientes para dar início a uma mudança duradoura na cultura das fraternidades.

"Tim era um ser humano feliz e carinhoso e um filho maravilhoso, que só queria entrar num grupo para fazer amizades. Em vez disso, morreu nas mãos daqueles cuja amizade ele buscava", disse Jim, pai de Tim Piazza, à imprensa na segunda-feira, após o anúncio das novidades sobre a morte do estudante.

"Está na hora de crescer, amigos, e se responsabilizar por suas ações. O trote precisa acabar. Não existe mais lugar para ele."

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