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Faculdade no pós-covid impõe desafios a alunos e professores

Ensino superior deve formar para pesquisa de inovações, com sustentabilidade, diversidade e visão social

7 out 2021 17h01
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Sabe as certificações que indicam se a empresa tem compromisso com a sustentabilidade, investe na diversidade de funcionários, preza a satisfação do público interno e é socialmente responsável? Imagine agora um diploma de curso superior com as mesmas informações. Não importa se é Engenharia, Direito, Medicina ou TI. Agora um bom profissional deve sair da universidade preparado para buscar por inovações com base em pesquisas sólidas, ciente da importância da sustentabilidade em todas as etapas de um projeto e responsável por promover e atuar em ambientes com o máximo de diversidade.

Conforme uma pesquisa que ouviu 132 líderes de empresas brasileiras entre abril e maio, feita pelo portal de empregos Indeed e pela agência de marketing digital Sherlock Communications, 83% dos entrevistados acreditam que capacidade de pesquisa será mais importante do que treinamento em conhecimentos específicos e 80% afirmam que grupos mais diversos são mais criativos. São dados que mostram que mais importante do que escolher as profissões em alta, vale considerar a importância de um aprendizado que vá além do domínio técnico. O mercado de trabalho à espera do jovem que ingressa agora no curso superior vai ser composto cada vez mais por equipes multidisciplinares e inovadoras. A boa notícia: tudo isso já se aprende e se vivencia na universidade.

Na Fundação Getúlio Vargas (FGV), estimula-se os estudantes da graduação a acompanharem os projetos de pesquisas desenvolvidos por pesquisadores da pós. Os alunos de Direito, por exemplo, podem atuar no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (Cepi), órgão que surgiu do debate sobre a relação entre o Direito e as Novas Tecnologias. As linhas de pesquisa abordam assuntos como tecnologia, sociedade, ensino e inovação. Dentre as pesquisas recentes, há uma sobre o futuro do trabalho e gig economy, que envolve as relações entre milhões de trabalhadores autônomos e plataformas de serviços digitais como a Uber. Os alunos refletem sobre condições dignas de trabalho e seguridade; regulação de realidades, modelos de negócio e arquiteturas de plataformas e implementação de boas práticas de transparência em decisões automatizadas nas relações de trabalho.

"Fala-se muito que os futuros profissionais de Direito terão de saber programação. Daí procuramos refletir, expondo aos alunos o que de fato eles precisam se apropriar, com disciplinas conectadas à pesquisa empírica", diz Marina Feferbaum, coordenadora do Cepi da FGV.

Sustentabilidade

E o que remédios, produtos de limpeza e as camisetas em um guarda-roupa têm em comum? O uso de produtos nocivos ao ambiente na produção. Nesse contexto, uma dica preciosa aos alunos interessados em cursos de biológicas, mas que vale também para os outros ramos, é priorizar as opções nas quais as preocupações sustentáveis perpassam as disciplinas e atividades. No programa, essa abordagem recebe o nome de "química verde".

Dentre os princípios orientadores estão a busca pela eficiência de energia, o uso de produtos degradáveis e de fontes de matéria-prima renováveis. "Imagine uma indústria que, após desenvolver um produto e submetê-lo à aprovação de uma agência regulatória, receba um parecer negativo por causa da toxicidade dos componentes. Perdeu-se tempo e dinheiro", explica Cintia Milagre, vice-coordenadora do curso de Química do Instituto de Química da Unesp em Araraquara. "Por outro lado, se nesse caminho houvesse um profissional que selecionasse elementos sustentáveis, a aprovação teria sido mais certa e, consequentemente, há ganhos econômicos."

O Instituto de Química da Unesp foi a primeira instituição de ensino superior brasileira a assinar o Green Chemistry Commitment (GCC), iniciativa global que reúne instituições que buscam desenvolver produtos e processos sustentáveis. Na lista estão a Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), a Universidade Técnica de Berlim (Alemanha) e a Monash University (Austrália), entre outras. Com o compromisso, o instituto ajustou o currículo para apresentar conteúdos sobre "química verde" do primeiro até o último semestre. Os alunos lidam com demandas reais de empresas e laboratórios. Dentre as ações, há a execução de cálculos de emissão de carbono e recomendações para compensação e planos de gerenciamento de resíduos sólidos.

Diversidade

Por fim, as vantagens da diversidade vêm ganhando a academia e os negócios. No relatório "Diversity Wins", publicado no ano passado pela consultoria McKinsey, empresas com maior diversidade de gênero já apresentavam 25% mais probabilidade de ter uma lucratividade acima da média, considerando uma pesquisa em 15 países entre 2014 e 2019. E ao focar em companhias dos EUA e Reino Unido, o estudo aponta que as organizações com mais de 30% de mulheres no corpo executivo têm desempenho financeiro superior. No Brasil, além de a participação feminina ser pequena em cargos de maior qualificação, a remuneração é inferior. Mudar isso depende de promover a diversidade já no berço, ou seja, nos ambientes em que as futuras e futuros profissionais das mais diversas áreas se formam: a universidade.

O exemplo vem da Poli-USP. Desde 2018, a professora Liedi Bernucci é diretora da instituição centenária que já formou mais de 30 mil engenheiros. É a primeira mulher a ocupar a função pela qual já passaram 26 homens. O peso simbólico é grande, em uma área nas quais as mulheres representam apenas 19% dos profissionais, conforme os registros do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). Dentre as ações tomadas pela diretora para mudar isso está um trabalho de conscientização do próprio corpo docente. "Temos conversado com os professores e em paralelo fortalecemos a comissão de ética e direitos humanos e a ouvidoria. Um comentário incorreto sobre a participação das mulheres no meio acadêmico, por exemplo, vai ser discutido e exposto. Queremos erradicar problemas como esse, mostrar que não serão aceitos."

Para atrair diversidade, a Poli tem promovido visitas a escolas do ensino médio, com eventos exclusivos para as alunas, como atividades interativas e workshops de programação. Trata-se da iniciativa "Meninas na Poli", conduzida pelo Diretório Acadêmico. Ecoando as mudanças, das 10 unidades que compõem o Diretório Acadêmico estudantil, nove são presididas por mulheres.

Depoimento: 'Queremos ser exemplos para as mulheres das próximas gerações'

Beatriz Bicudo, de 20 anos, aluna do 6º semestre da Poli-USP

"Meu interesse pela engenharia elétrica vem do ensino médio. Tive a chance de estudar em uma escola muito boa na qual davam kits com pilhas, baterias e lâmpadas para que a gente montasse circuitos. E me encantava entender como os aparelhos funcionam e como afetam a vida das pessoas.

Entrei na Politécnica em 2019 e foi muito importante ver uma mulher na direção. Mas, mesmo assim, no início do curso eu ainda não sentia como se o espaço fosse para mim. O máximo que tinha eram quatro meninas.

Logo no início do curso entrei no time de handebol feminino e isso me ajudou a me sentir acolhida. Daí, em setembro de 2019, comecei a ser voluntária no grupo "Elas pelas Exatas", ajudando a fazer workshops de programação para meninas de escolas públicas, para mostrar que o assunto era para elas. Me tornei representante de classe e passei a me engajar ainda mais.

Agora, em 2021, me tornei presidente do Grêmio Politécnico, uma das unidades que compõem o Diretório Acadêmico. Sabemos o quanto o espaço acadêmico nas engenharias pode ser hostil às mulheres e por isso estamos lutando para que seja mais inclusivo. Porque nosso trabalho não deve nada ao feito por homens. Queremos ser exemplos para as próximas gerações, que as "bixetes" vejam nossa liderança e se inspirem.

No futuro quero atuar em engenharia e automação elétrica, também pretendo entender o mercado de venda de energia elétrica e como otimizar esse processo no País."

Estadão
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