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Ensino Online: rota alternativa ou via de mão única?

5 jul 2022 - 11h28
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Carla Machado, do IOS
Carla Machado, do IOS
Foto: Divulgação

Não é de hoje que as discussões sobre o ensino online rondam os educadores e dividem opiniões. Há aqueles que a consideram uma tábua de salvação, afinal, a sala de aula chegaria para todos através das telas dos computadores e a possibilidade de não limitar a quantidade de alunos às cadeiras parece realmente inovadora, um passo importante para o futuro. 

Por outro lado, há os que defendem que a educação se faz na convivência, na troca, no afeto ― como criar vínculo com um professor que não me conhece? E para os professores: ficaria no passado saber o nome e a história de seus alunos? Como construir memórias?

O que eram apenas discussões acaloradas entre educadores ou especulação no mundo corporativo, acabou tomando forma surpreendente em 2020, quando vimos um cenário difícil de imaginar: escolas de portas fechadas. Nesse momento, saiu na frente o professor com mais afinidade com tecnologia e o aluno com maior estrutura para estudar ― aqui, entendemos que compõem essa estrutura os itens concretos, como internet, computador e mesa, e os itens abstratos, como silêncio, tranquilidade e apoio familiar.

Quando o ensino online se tornou uma via de mão única, as desigualdades puderam ser vistas com lupa de aumento. Quem tinha muito acesso, aprendeu com gamificação, aulas ao vivo, provas em formato novo, apresentação de trabalho por meio de ferramentas online, uma boa experiência! Já quem tinha pouco acesso, não podia acompanhar tudo. Quem não tinha acesso nenhum, não aprendeu.

Entre os jovens mais afetados por essa realidade e as escolas públicas, está o terceiro setor, fazendo malabarismos para reduzir ao máximo essa desigualdade. Durante a pandemia, vimos materiais sendo disponibilizados para funcionar em celulares, aparelhos sendo emprestados aos alunos, chips de internet sendo doados. Por muitas vezes, o famoso Ambiente Virtual de Aprendizagem aconteceu no WhatsApp e os trabalhos filmados em celulares de baixa qualidade.

Trabalhamos dois anos em alerta, sem respostas para muitas perguntas, sufocados. Mas também, muitos educadores resgataram a educação feita com o coração, sem deixar ninguém para trás. Agora, com as portas abertas e o ensino presencial sendo novamente possível, nos perguntamos: como é que a gente ensinava antes, mesmo? Alguém se lembra?

Nós não somos mais os mesmos -- que bom! A educação não pode ser também. Aquele formato antigo, presencial, com um aluno sentado um atrás do outro, copia-da-lousa, escreve-no-caderno, não combina mais com nossos alunos e professores. Arriscamos pensar que estamos vivendo o tal futuro da educação, só que ele não vem pronto. Precisamos construir e não temos manual de instruções. É para quem tem coragem!

O que podemos dizer hoje é que a discussão precisa existir. Não há uma resposta, uma receita de bolo. Contudo, também é importante dizer que a educação precisa ser híbrida, o que significa aproximar a tecnologia da sala de aula física, proporcionar atividades online, sem perder o abraço no professor, a roda de conversa com aquele olho no olho, junto com o aprendizado sobre comportamento digital. Equilibrar tudo isso é nosso desafio, enquanto educadores. 

Construir um ensino presencial que seja dinâmico, inclusivo e que forme protagonistas, que permita que cada aluno aprenda em seu ritmo. Construir um ensino online que seja uma alternativa, não uma via de mão única. Afinal, ninguém aprende por meio de um único caminho.

(*) Carla Machado é coordenadora educacional do Instituto da Oportunidade Social (IOS).

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