Com exemplos do dia a dia, escolas ensinam alunos a lidar com o dinheiro

Iniciativas inovam nas aulas de educação financeira e, de quebra, aproveitar para instigar o interesse pela Matemática

14 out 2019
07h11
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SÃO PAULO - Um passeio pelo setor de achados e perdidos da escola. Foi essa a forma que os educadores do Colégio Guilherme Dumont Villares encontraram para incentivar os alunos do 6.º ano do ensino fundamental a refletir sobre o custo de seus pertences. Lá, listaram os tipos de objetos acumulados, como uniformes e materiais. Em seguida, foram levados para a lojinha do colégio e conferiram os valores de cada item. Assim, conseguiram mensurar os prejuízos.

"Os alunos estabeleceram uma relação do valor dos itens perdidos e de quanto isso representava na mensalidade. Daí tabularam e fizeram gráficos, podendo ver de forma clara o quanto quem não tomava cuidado com os objetos perdia em dinheiro", explica Angela Fonseca, diretora do colégio.

Iniciativas como essa mostram formas de inovar nas aulas de educação financeira e, de quebra, aproveitar para instigar o interesse dos alunos pela Matemática. No caso do Guilherme Dumont Villares, a escola desenvolve ainda um projeto de empreendedorismo que engloba da educação infantil ao ensino médio.

A ideia da proposta é que os alunos criem produtos tendo de considerar questões como otimização de recursos e sustentabilidade. Os resultados são levados à Feira do Pequeno Empreendedor, evento da escola no qual as famílias conferem os materiais produzidos e comercializados pelos alunos.

"Eles constroem objetos como brinquedos educativos com materiais recicláveis, aprendem a definir preços e vendem na feira. Isso vale também para alimentos. São motivados a cultivarem mini-hortas e planejarem a melhor forma de comercializar a produção no evento", completa.

Por trás das duas atividades - tanto a aula no achados e perdidos como a Feira do Pequeno Empreendedor - está o conceito de que usar as aspectos do dia a dia é a melhor forma de introduzir conceitos econômicos no currículo.

Realidade

É a mesma linha de atuação da Escola Lourenço Castanho, cujo conteúdo visa a mostrar o que está por trás de fatores econômicos que influenciam o consumo das famílias e estão sempre nos noticiários.

"Aplicamos conceitos matemáticos de forma progressiva, desde o fundamental até o médio. Por exemplo, mostramos aos mais novos a lógica das promoções do tipo pague 2 e leve 3. Já para os maiores explicamos os elementos que podem provocar a alta do dólar", comenta Maria Daltyra de Magalhães, coordenadora de Matemática.

No Colégio Brasil Canadá, a intenção é aliar as somas e subtrações a decisões coletivas que exijam flexibilidade. Uma das tarefas dos estudantes do 1.º ano do fundamental, crianças de 6 e 7 anos, é organizar um lanche coletivo. Para isso, o primeiro passo é estabelecer quais serão os pratos e decidir os ingredientes necessários.

"São decisões tomadas de forma coletiva, discutidas em assembleias, nas quais todos votam", explica a diretora pedagógica, Bruna Elias.

Cardápio montado, são feitas pesquisas e definidas as melhores estratégias para serem obtidos todos os elementos necessários com o máximo de economia possível. Os pequenos também são levados a refletir sobre as variáveis que devem ser consideradas.

"Qualquer bom planejamento não é engessado. Por isso, eles precisam pensar em cardápios flexíveis, no sentido de um ingrediente não depender intrinsecamente de um outro para que a receita tenha êxito."

Aproximação

O desafio de Káthia Maciel, professora de Educação Financeira da Escola Estadual São Paulo, era criar uma disciplina eletiva que instigasse o interesse dos estudantes do ensino médio pela própria Matemática. Não teve dúvidas sobre o caminho a seguir.

"Pensar em educação financeira foi a forma que encontrei para deixar a Matemática mais próxima da vida dos alunos", conta.

Nas aulas, realizadas em todas as terças-feiras, eles aplicam conceitos matemáticos para lidar com questões que afetam suas economias domésticas. Dessa forma, todos fizeram levantamento dos orçamentos, com gráficos que mostram de forma clara as rendas e as despesas familiares.

Como resultado, a escola fez da Matemática uma forma de os alunos pensarem em novas perspectivas de vida.

"Todos estão mais atentos a questões como tarifas bancárias e juros do cartão de crédito. E alguns aproveitam as lições para ter mais renda, como uma aluna que revende produtos e agora tem mais controle do seu pequeno negócio."

Aplicativos propõem desafios e bônus para tarefas cumpridas

Não é só na escola que o ensino sobre finanças ganhou nova roupagem. Já há também aplicativos e plataformas digitais que propõem esse aprendizado de forma lúdica.

Com o Tindin, por exemplo, os pais podem definir recompensas para as ações dos filhos. Tarefas como arrumar a cama ou fazer as lições escolares rendem pontos no aplicativo. Ao atingir determinada somatória, o uso do dinheiro é liberado e a cobrança é feita no cartão de débito ou crédito do responsável. O crédito pode ser utilizado na loja virtual do aplicativo ou em estabelecimentos conveniados.

Vínculo afetivo

Para evitar a tentação de as crianças enganarem os pais - como marcar uma tarefa que não foi feita -, um dos recursos do app possibilita que os responsáveis solicitem a foto da atividade cumprida.

"Mas sugerimos que os responsáveis participem e estimulem o cumprimento das tarefas pessoalmente, tornando as atividades ainda mais assertivas e fortalecendo o relacionamento", diz Eduardo Schroeder, CEO da empresa.

Já para atrair o interesse de quem não desgruda dos games, há soluções como o jogo Tá o$$o, desenvolvido pela Associação de Educação Financeira do Brasil - AEF Brasil. Nele, o jogador controla um simpático cãozinho em uma cidade virtual, na qual ele precisa executar desde ações mais elementares, como pesquisar o skate mais barato, até tocar um negócio próprio.

"O jogo é sempre focado nas tomadas de decisão. O jogador começa decidindo questões do cotidiano, como compras simples, até o momento que é colocado em um mercado de trabalho e tem de escolher o que vai fazer, com decisões de negócio para empreender", explica Claudia Forte, superintendente da AEF Brasil.

Estadão
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