Sua Carreira: Regime de trabalho atual intensificou casos de assédio e burnout

A jornalista Izabella Camargo e a advogada Marina Ganzarolli defendem que empresas devem buscar ambiente de trabalho mais saudável

29 out 2020
19h48
atualizado em 30/10/2020 às 00h07
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O burnout e os assédios sexual e moral são novos nomes para problemas antigos e que devem ser combatidos pelas empresas por meio de novas abordagens e busca por um ambiente de trabalho mais saudável. É o que defendem a advogada Marina Ganzarolli, fundadora do movimento MeTooBrasil, e a jornalista Izabella Camargo, ex-apresentadora de TV diagnosticada anos atrás com síndrome de esgotamento profissional.

O tema foi discutido na tarde desta quinta-feira, 29, em entrevista ao vivo transmitida pelas redes sociais, com mediação da jornalista Bia Reis, editora de Metrópole do Estadão. A discussão integra o projeto multiplataforma Sua Carreira, lançado em 18 de outubro, cujo foco é abordar as necessidades de desenvolvimento em diferentes etapas profissionais.

Na entrevista, as duas especialistas comentaram que a internet e as redes sociais ajudam a evidenciar as discussões sobre assédio e burnout (síndrome de estresse extremo, com esgotamento físico e mental, relacionada ao trabalho) e, também, a dar voz e levar informações para pessoas que sofrem com essa situação.

Para Izabella, embora sejam problemas antigos, eles estão cada vez mais potencializados pelo regime de trabalho atual. Marina concorda e dá como exemplo o uso frequente do celular, em que a troca de mensagens instantâneas pode ampliar o assédio profissional para fora do ambiente e horário de trabalho. "A dinâmica mudou, mas os problemas continua sendo essencialmente os mesmos, ficaram mais complexos", aponta.

Elas destacam a necessidade de o profissional não naturalizar esse tipo de situação, atentando-se ao impacto que está sofrendo de diferentes formas. Izabella exemplifica que chegou a procurar seis especialistas distintos para tratar 28 problemas de saúde ligados ao burnout, que destaca ser "um problema ocupacional como qualquer outro", que não ocorre de um dia para o outro, mas ao longo de anos.

Por isso, uma pessoa nessa situação precisa entender que não está doente porque é uma profissional ruim, mas porque está vivendo um momento ruim. "O burnout é um freio, não o fim. Se não respeitar esse freio, pode acontecer algo pior", comenta Izabella.

Ela destaca que, das cerca de 4 mil pessoas com a síndrome que entrevistou, a maioria gostava do trabalho e relevava situações de esgotamento e negligenciava o próprio bem-estar. "Empresas com funcionários com burnout têm líderes com burnout, mas é um problema que fica debaixo do tapete por muito tempo."

Marina também elencou parte dos exemplos mais recorrentes de assédio moral no trabalho, tais como: passar instruções confusas, atribuir erros não relevantes, exigir urgência sem necessidade, sobrecarga, ignorar presença, fazer críticas e "brincadeiras" de mau gosto em público, impor horários injustificados, agredir verbal e fisicamente, restringir tempo de uso do banheiro, designar projetos impossíveis de serem cumpridos e ameaçar direta e indiretamente de demissão, dentre outros.

Uma pessoa que passa por esse tipo de situação pode passar a enfrentar uma série de problemas, como queda produtividade, isolamento social e ideias suicidas. Mesmo com esses sinais, por vezes, até pelas necessidades financeiras e receio de ficar desempregado, dentre outros pontos, o profissional permanece nessa situação indefinidamente.

Izabella reitera que é preciso ter um autocuidado para se preservar e não viver esse tipo de situação, entender que não é normal trabalhar com dor ou em uma ambiente de assédio. "A única forma de se proteger do burnout é reconhecer os nosso limites, saber dizer não", diz. E, mais do que isso, as empresas precisam se dedicar a mudar ambientes com essas características. "O problema e a solução estão dentro da empresa, com ajustes pequenos pode-se prevenir."

Marina destaca que determinados tipos de postura, enquanto assédio, são consideradas crime e, portanto, a vítima pode e deve procurar reparação. Ela indica, inclusive, que a maioria dos juízes trabalhistas têm aceitado gravações de áudio sem autorização como prova, especialmente em casos de assédio sexual.

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