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Semana de trabalho de quatro dias conquista espaço na Europa

Empresas repensam semana de 40 horas, sem cortes salariais; na Bélgica, trabalhadores poderão pedir para condensar horas em 4 dias, mas semanas mais curtas têm desvantagens

27 fev 2022 05h13
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Não sei para você, mas meus finais de semana de dois dias consistem em um dia para me recuperar da semana que passou e outro lutando para me preparar para a seguinte - não sobra muito tempo para o lazer de fato. Se você, assim como eu, acredita que dois dias não são suficientes para um fim de semana, ficará empolgado em saber que o conceito de semana de trabalho com quatro dias está se tornando popular.

Com a Grande Demissão ou Grande Debandada ainda em pleno curso e o esgotamento profissional provocado pelo trabalho tornando-se uma doença ocupacional oficial de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um número cada vez maior de empregadores - e países - está repensando a semana de trabalho padrão de 40 horas. A Islândia liderou o experimento com semanas de trabalho mais curtas, sem cortes salariais, ao longo de vários anos. A experiência foi amplamente aclamada como um sucesso, com aproximadamente 86% dos trabalhadores na expectativa de segui-la.

Agora, a Bélgica anunciou que deixará os trabalhadores solicitarem permissão para condensar suas horas de trabalho em quatro dias. Empresas na América do Norte estão seguindo o exemplo; uma coalizão de empresas do Reino Unido deve repetir o experimento neste verão. Nos Estados Unidos, o deputado democrata Mark Takano propôs um projeto de lei que reduziria todas as semanas de trabalho para o padrão de 32 horas, exigindo pagamento de horas extras para quem trabalhasse além disso.

Talvez o maior argumento a favor de uma semana de trabalho mais curta seja que isso não parece prejudicar a produtividade, por mais contraintuitivo que possa parecer. Parte disso se deve à tendência humana de alongar ou condensar o tempo necessário para concluir uma tarefa com base no tempo que temos disponível. Se sabemos que temos oito horas para preencher, nos controlamos para fazer as coisas de um jeito que não nos canse; a promessa de parar de trabalhar antes é um incentivo para botar a mão na massa e otimizar nossos hábitos no trabalho.

Outro fator é que as mentes e os músculos podem funcionar apenas por um determinado tempo até que a fadiga apareça e comece a afetar a saúde a longo prazo. Depois de um certo período de tempo, a maioria dos trabalhadores começa ter menores retornos de seus esforços. Após 50 horas em uma semana de trabalho, os danos induzidos pelo estresse começam a aparecer na forma de pressão alta, batimentos cardíacos irregulares, resistência à insulina e outros sintomas perigosos.

E alguns tipos de trabalho são mais bem realizados em sprints com menor duração do que em expedientes de oito horas. A pesquisa descobriu que, para tarefas que exigem concentração profunda constante e um estado de "flow", mais tempo não significa um pensamento mais profundo ou de melhor qualidade. Para esses tipos de trabalho, turnos de seis horas talvez sejam o ideal.

Trabalhar menos horas por dia tornaria os horários de muitos pais mais sincronizados com os de seus filhos em idade escolar, oferecendo-lhes oportunidades de estarem mais presentes e menos exaustos durante o tempo com a família. No geral, quatro dias de trabalho e três dias de lazer parece ser mais equilibrado do que o modelo vigente de cinco e dois.

Mas, é claro, semanas de trabalho mais curtas têm suas desvantagens.

Elas não funcionam igualmente bem para todos. Para aqueles cujo trabalho é baseado em tarefas, a quantidade de tempo gasto não importa tanto, desde que as demandas sejam concluídas e sigam um determinado padrão. No entanto, para trabalhos que giram em torno de agendas com clientes, processos cronometrados ou horas faturáveis, não há como reduzir o tempo de trabalho sem afetar a produção e a lucratividade.

Isso poderia deixar os colegas fora de sincronia uns com os outros. Os que conseguissem terminar primeiro suas demandas teriam pouco incentivo para apoiar seus colegas. Isso pode fomentar o ressentimento, considerando que as cargas de trabalho compartilhadas podem aumentar a camaradagem. Além disso, o tempo ocioso costuma surgir quando o vínculo e a socialização ocorrem no local de trabalho.

Condensar cinco dias de oito horas em quatro dias de expedientes de 10 horas, como a Bélgica está fazendo, talvez não ajude com o estresse, mesmo que tenha como resultado um fim de semana de três dias. Como observado acima, a produtividade e a qualidade, sem falar na saúde do trabalhador, podem se deteriorar durante esses turnos mais longos.

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Semanas de trabalho mais curtas não ajudarão onde já se está trabalhando com equipes reduzidas. Uma das causas da "Grande Demissão" é que os locais de trabalho forçaram os trabalhadores a fazer mais com menos por muito tempo. Um local de trabalho que está continuamente com poucos recursos e sobrecarregado teria que contratar mais profissionais ou reduzir projetos e expectativas para tornar possível uma semana de trabalho mais curta.

No fim, sempre haverá exceções. Seja por meio de cláusulas legais, como a seção 7(k) que basicamente transfere o pagamento por horas extras trabalhadas para arcar com despesas de proteção dos trabalhadores em casos de emergência, ou as dispensas estabelecidas pela Lei de Padrões de Trabalho Justo (FLSA, na sigla em inglês) que permite aos empregadores pagar por 40 horas mesmo quando os trabalhadores estão trabalhando mais que isso.

A semana de trabalho de 40 horas não é adotada de forma homogênea e justa, então não há razão para esperar que isso aconteça com uma semana de trabalho mais curta. E, como acontece com a distribuição de renda, os mais necessitados provavelmente seriam aqueles com menor chance de desfrutar dos benefícios da semana menor.

Apesar dessas preocupações, está claro que precisamos repensar como dividimos nosso tempo, individualmente e como sociedade. Quando foi implementada pela primeira vez, a semana de trabalho de 40 horas era um grande avanço em relação às semanas de 80 a 100 horas de antes - a escola de gestão que pregava "trabalhar até cair morto". Mas agora, depois de décadas de maior automação e inovações que nos permitem trabalhar de forma cada vez mais eficiente, por que ainda estamos tentando enfiar mais produtividade no tempo que supostamente economizamos?

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Estadão
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