Questão racial está diretamente vinculada a índices socioeconômicos no Brasil

Brancos têm, historicamente, renda maior, mais anos de educação e mais espaço no mercado do que negros; especialistas chamam a atenção para a presença de profissionais negros também no corpo docente

8 nov 2020
11h49
atualizado em 13/11/2020 às 15h00
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Ao se falar em critérios socioeconômicos para o acesso às instituições de ensino particulares, as questões raciais têm um aspecto muito central no Brasil. Para entender o ponto, basta analisar dados relativos ao rendimento médio, à educação e à presença da população no mercado de trabalho.

De acordo com a publicação "Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil", do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio domiciliar per capita da população branca, em 2018, era quase duas vezes maior do que o da população preta ou parda - R$ 1.846 contra R$ 934.

Na educação, os brancos também têm números superiores aos dos pretos e pardos em todos os grupos de idades e níveis de ensino. A proporção de jovens brancos entre 18 e 24 anos que frequentavam ou haviam concluído o ensino superior em 2018 era de 36,1%, enquanto entre os jovens negros era de 18,3%, quase o dobro.

Já no mercado, apesar de serem um pouco mais da metade da força de trabalho (54,9%), os profissionais pretos e pardos ocupam apenas 29,9% dos cargos gerenciais. Segundo o Instituto Ethos, há apenas 5% de executivos negros no País. Para as mulheres negras a situação é ainda pior, elas são apenas 0,4% nesse cenário.

"A gente sabe da correlação entre renda e raça. Quando observamos a diversidade racial na instituição, vemos que ela está no programa de bolsas. A maior parte dos estudantes negros está entre eles. Cerca de 25% dos nossos bolsistas são autodeclarados negros", conta Ana Carolina Velasco, gerente de relacionamento institucional do Insper.

Criada há 18 anos em São Paulo, a Faculdade Zumbi dos Palmares surgiu para impulsionar a participação dos jovens negros aos espaços educacionais. Criada e gerida por pessoas negras, a instituição oferece hoje cursos de graduação e pós-graduação, em áreas como administração, direito, pedagogia e comunicação social.

"As universidades públicas já tinham feito parte de seu trabalho, ao instituírem as cotas para negros, e os espaços privados de educação ficaram para trás. Agora, colégios e faculdades estão correndo atrás de tentar tirar o atraso, de efetivamente ter uma ação mais objetiva e impactante nesse tema. É lógico que é estimulante e enriquecedor que eles cumpram essas coisas, mas façam isso de uma forma permanente e consolidada e com honestidade. Muita gente vai pelo embalo porque está na moda", destaca o doutor em educação e reitor José Vicente.

Ele chama a atenção que é preciso ir além do quadro de alunos e mirar também na diversidade entre ocorpo docente. "É preciso falar de gestores negros, professores negros, comunicação que inclua negros."

Entre os cerca de 1.600 alunos da Faculdade Zumbi dos Palmares - 70% são negros - 20% possuem bolsa de estudo, com modalidades distribuídas entre os atletas, o coral e demais alunos.

No caminho para a universidade

Para atrair mais candidatos negros ao vestibular, o Insper criou uma parceria com a Educafro, organização que fornece cursinhos pré-vestibulares comunitários para jovens afrodescendentes e em situação de vulnerabilidade social.

"Só no cursinho nós geramos 50 bolsas dinâmicas. A cada 15 dias aplicamos uma prova. Os 50 melhores alunos daquela prova recebem uma bolsa de R$ 250. Se na próxima quinzena, o mesmo aluno estiver entre os 50 melhores, ele recebe mais R$ 250. Estamos motivando jovens desempregados, principalmente na pandemia, a entrar nessa dinâmica. O nosso sonho é colocar muitos negros no Direito do Insper, por exemplo. Queremos ter um monte de jovens negros da Educafro disputando vagas e bolsas", explica o diretor da Educafro, Frei David.

Para atingirem o maior número possível de pessoas, além de gratuitos, os cursos são online.

"As empresas têm discutido a inclusão de negros nos seus espaços, como a Magazine Luiza e Bayer, que reconheceram que inconscientemente excluem negros porque nunca se preocuparam com isso e que a prepocupação faz parte dessa nova etapa delas. Quando conseguimos fazer com que faculdades de primeira linha tenham planos de inclusão de jovens negros, estamos fazendo um encontro da academia com a empresa", destaca.

Veja também:

Igualdade racial: como formar uma empresa anti-racista?
Estadão
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