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Mulher reconstrói a própria vida enquanto constrói casas

Trabalhadoras no setor de construção ainda são raras, mas taxa cresce; após perdas pessoais durante pandemia, uma delas está atrás de um recomeço nessa indústria

20 mar 2022 05h11
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Com um arnês, capacete e máscara, Deyonna Hancock parece idêntica aos colegas armadores de ferragens - até o sol ser refletido em seus brincos em formato de losango. Apenas 4,5% dos trabalhadores da construção civil em todo os Estados Unidos são mulheres, e só uma pequena parcela delas trabalha como armadoras. Mas, embora muitas mulheres tenham deixado de trabalhar fora durante a pandemia, o setor da construção é uma das poucas áreas que viu um aumento no número de trabalhadoras. Deyonna é uma dessas contratações recentes, e sua jornada até essa nova carreira não foi fácil.

Durante a pandemia, ela decidiu mudar o rumo de sua vida. Mas as reviravoltas dos últimos dois anos - apesar de vacinada, ela contraiu covid-19 três vezes - tornaram esse processo desafiador. Mesmo assim, ela persistiu - e agora é com frequência a única mulher entre 25 a 50 trabalhadores da construção civil que estão trabalhando para construir a Casa Sueños ("Casa dos Sonhos" em espanhol), um projeto de moradia acessível próximo à estação de metrô Fruitvale BART em Oakland, na Califórnia.

"É muito irônico", disse Deyonna, 32 anos, a respeito das casas que está construindo. Ela mora a uma hora de distância do local de trabalho porque não pode pagar por um lugar melhor na cidade onde nasceu e cresceu. Ela ganha US$ 28,85 por hora, um valor bem inferior ao que é pago em média na área da Baía de São Francisco, US$ 39,35.

De manhã, enquanto ainda está escuro, Deyonna e DeAngelo Austin, seu sobrinho de 12 anos, que ela cria sozinha, saem para o trabalho e a escola de seu apartamento de dois quartos em Vacaville, no nordeste de Oakland, no polido Mustang branco 2014 dela. Deyonna chega ao local de trabalho às 6h30, meia hora antes do início do expediente - ela não quer se atrasar - e uma hora e meia antes da aula de DeAngelo começar na Academia Preparatória do Instituto Militar de Oakland, próximo dali. DeAngelo espera no Mustang até conseguir uma carona para levá-lo do canteiro de obras para a escola com um amigo da família.

Deyonna o matriculou na mesma escola que frequentou, na esperança de que isso o mantenha longe de problemas. Ela se vê no sobrinho. "Se ele não tivesse minha ajuda, acho que teria acabado indo parar na rua", disse ela.

Em um dia claro de inverno, logo após o nascer do sol, ela entra no canteiro de obras e coloca em seu ombro direito 22 quilos de vergalhões, uma barra de aço usada para reforçar o concreto. Em seguida, ela caminha com cuidado em meio a uma pista de obstáculos com buracos e aço descartado antes de se curvar para instalar o vergalhão. Às vezes, o material que ela levanta tem três vezes o tamanho dela. Ela costuma trabalhar sozinha. Seus colegas, muitos dos quais falam espanhol, são gentis, mas conversam pouco.

"Sempre quis trabalhar na construção", disse ela. Quando jovem, Deyonna ajudava o tio a consertar garagens e pintar prédios.

Mas o trabalho exige muito mais do que boas intenções. Raudel Peña, o supervisor no canteiro de obras, disse que ser um armador de ferragens "exige habilidade e força e pode ser exaustivo às vezes". Entre todas as atividades, disse ele, "essa é a mais brutal".

Isso não desencorajou Deyonna. Durante os primeiros dias da pandemia, quando tudo estava fechando, ela decidiu que queria um emprego com futuro. A construção seria o meio de deixar para trás a vida que ela não queria mais.

Ela tinha seis anos quando a mãe morreu em decorrência de um aneurisma. Criada pela avó, com a ajuda do padrasto, muitas vezes acabava indo parar na sala do diretor. Como lésbica, na escola, "eu tive que deixar claro para as pessoas que elas não deveriam me provocar", disse ela. Deyonna terminou os estudos e fez um curso técnico em administração em uma instituição do governo. Mas ela preferia as ruas. "Eu escolhi esse caminho", disse ela.

Aos 19 anos, ela foi presa por vender pedras de crack. Aos 21, ela roubou à mão armada uma loja de conveniência e cumpriu pena durante 28 meses. Aos 27 anos, foi presa por dois anos por fraude com cartão de crédito. Então a vida dela como criminosa se tornou mais sombria. Muitas pessoas que ela conhecia foram mortas. Enquanto Deyonna estava na prisão, sua avó morreu e ela só pôde passar rapidamente pelo funeral. Seis meses depois, ela soube que seu afilhado de 19 anos tinha morrido de leucemia. "Fiquei arrasada", disse.

"Quando voltei para casa, tive essa motivação de fazer tudo por ele e por minha avó", afirmou. "Eles queriam que eu estivesse no caminho certo."

"Ela teve que encontrar o próprio caminho", disse seu padrasto, Rickey Persons, supervisor de obras públicas da cidade de Oakland. "Achava que ela seria uma vigarista até a morte."

Deyonna se matriculou em um curso técnico. Ela recolheu lixo ao longo da rodovia, instalou baterias em bicicletas e depois trabalhou entregando as encomendas de um clube de cannabis para uso recreativo. Quando ficou sabendo de um programa para inserção de mulheres no ramo da construção, onde depois de quatro anos ela poderia ganhar US$ 100 mil por ano, ela se matriculou em um curso de 10 semanas para a área na Rising Sun Center for Opportunity, organização sem fins lucrativos da Califórnia que se destina a promover a igualdade de empregos no setor da construção, especialmente para as mulheres, e resiliência climática. Quando ela foi diagnosticada com covid-19, acabou desistindo do curso, mas se inscreveu para uma próxima turma. Durante o treinamento, ela contraiu covid-19 mais uma vez, perdeu alguns dias de aula, mas assim que ficou bem, voltou ao treinamento.

Ela e os outros alunos passaram por testes físicos rigorosos, como mover 45 blocos de concreto pesando 15 quilos cada um por nove metros em sete minutos. Juanita Douglas, gerente sênior de construção e responsável pelas relações trabalhistas da Rising Sun, foi instrutora de Deyonna e percebeu o quanto ela gostava daquela atividade.

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Deyonna era meticulosa e, enquanto pintava, "pegou todos os detalhes que os demais deixaram escapar", disse Juanita. E a professora notava que Deyonna estava se divertindo: enquanto pintava, ela cantarolava.

Quando Jason Lindsey, presidente e agente comercial do Iron Workers Local 378, sindicato que representa 2.500 comerciantes em Oakland, foi à Rising Sun, ele garantiu aos alunos que não se importava com o que alguém havia feito no passado. "Eu me importo com o que você quer fazer hoje," falou para eles.

Ele explicou que os armadores de ferragens eram as "forças especiais da construção" e que seus chefes esperavam mais deles do que eles esperavam de si mesmos. Para Juanita, aquilo parecia um trabalho para Deyonna. Ela sugeriu que a aluna falasse com Lindsey, que lhe disse como se candidatar ao emprego.

Deyonna concluiu seu treinamento para trabalhar no setor da construção em 14 de dezembro e começou a trabalhar como aprendiz de armador de ferragens no dia seguinte. (Em fevereiro, ela foi diagnosticada com covid-19 pela terceira vez e ficou tão mal que precisou faltar o trabalho durante três semanas, pois tinha dificuldade para respirar.)

Nos primeiros dias de trabalho, Deyonna percebeu que suas coxas, panturrilhas e tornozelos doíam. "Eu tive que pôr sulfato de magnésio todos os dias durante duas semanas", disse ela. Mas ela não podia descansar.

Para complementar sua renda, ela trabalhava fazendo entrega de refeições. Essa fonte extra chegou ao fim em janeiro, quando ela foi informada de que "havia um problema com seus antecedentes", disse ela.

"É por isso que escolhi o ramo da construção", acrescentou. "Eles não te discriminam por conta do teu passado." Sem aquela renda adicional, Deyonna disse que "mal consegue pagar as contas". Ela lembra a si mesma que "vai se sacrificar, mas terá sua recompensa no futuro". No trabalho, Deyonna se concentra em suas tarefas, em vez de pensar em suas finanças. Ela chama o trabalho de sua "zona livre de estresse".

Quando ela concluiu o programa de formação de trabalhadores da construção da Rising Sun, Deyonna e sua família tiveram muito o que comemorar, embora a covid-19 quase tenha arruinado isso também.

Não estava permitida a participação de convidados no evento, mas Deyonna apareceu com uma dúzia de amigos e familiares e vários balões. Ela disse que não sabia da proibição. "Não vamos embora daqui", disse ela. Para Deyonna e seus entes mais próximos, aquilo era mais do que uma formatura. Isso lhe dava uma sensação de orgulho por ter alcançado algo grande. "Conquistei algo que sempre quis", disse ela. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
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