Empresa júnior abre caminho para carreira na gestão pública

Universitários têm contato com esferas de governo e políticas públicas a partir de empresa na faculdade; entre motivações, estudantes citam impacto social com escala

29 nov 2020
05h12
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Elas funcionam como uma empresa normal: têm CNPJ, prestam serviços e cobram por eles. Mas são comandadas por jovens na faixa dos 20 anos de idade, que procuram experiência e trabalham de forma voluntária. São as chamadas empresas juniores, que somam 1.250 pelo Brasil. Enquanto são mais conhecidas por fazer a ponte entre universitários e o mercado corporativo, outro segmento tem ganhado força: o das organizações que inserem alunos na vida pública, em busca de soluções para a sociedade.

Segundo levantamento da Confederação Brasileira de Empresas Juniores, a Brasil Júnior, o País tem hoje pelo menos 15 empresas juniores voltadas ao setor público, das quais nove se federaram nos últimos dois anos - a data de federação não equivale necessariamente à de criação, e algumas organizações recentes ainda não se registraram na confederação. Instituições como USP, FGV, Unesp e UFPE já contam com entidades do tipo, que propiciam aos estudantes um primeiro contato com as esferas de governo.

As empresas realizam projetos de consultoria, pesquisa e redesenho de processos para prefeituras ou legislativos locais, entre outros. No interior de São Paulo, por exemplo, a empresa Paulista Jr., ligada à Unesp, fez um projeto de coleta de dados sobre a população feminina.

"Entregamos o relatório para a Câmara Municipal, que, junto com a OAB em Araraquara (SP), criou iniciativas para a proteção da mulher", conta Guilherme Paranhos, presidente da Paulista Jr. Segundo ele, um dos resultados do projeto foi a estruturação de uma nova unidade de delegacia da mulher no município.

O escopo de atuação varia nas organizações, e as consultorias abarcam também a esfera política. Na esteira das eleições municipais, membros da empresa júnior Virtù, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), prestaram consultoria a um candidato a prefeito na estruturação de seu plano de governo.

"A gente tenta fortalecer os atores políticos e trazer a sociedade civil para o processo decisório", diz a estudante Júlia Pastick, gerente de desenvolvimento da empresa júnior, que conta que sempre se interessou por políticas públicas.

Entre as principais motivações para seguir uma carreira na área pública, estudantes citam a vontade de ter impacto social com escala. Eles veem nas empresas juniores uma maneira de adquirir repertório prático e se inserir no ramo e dizem que, frente à covid-19, o potencial das ações do governo - ou da falta delas - ficou evidente.

"A pandemia tem reforçado que o setor público é uma das ferramentas que temos para melhorar o cenário brasileiro", afirma a estudante de Administração Pública Mayara Matos Silva. "Quanto a gente discutiu quem iria prestar assistência para os desempregados, atender a população e organizar hospitais de campanha, a gente se voltou para o setor público. Por mais que seja complexo, a vontade de atuar nesse setor é reforçada."

Aos 21 anos de idade, Mayara preside a Consultoria Júnior Pública da FGV (CJP-FGV), que é voltada para entes do governo e organizações sociais. Mayara conta que, por meio da EJ, já participou da elaboração de um plano de comunicação para a prefeitura de Quadra (SP).

"A gente foi para a rua para entender qual era a percepção da população e, naquele momento, me vi fazendo o que eu gostaria de fazer", relata. "A CJP ajudou a dar sentido para minha graduação de maneira prática."

Os alunos também aprendem por meio de cursos feitos nas entidades. Como as empresas juniores são impedidas por lei de ter fins lucrativos, os recursos obtidos são reinvestidos nas organizações ou aplicados em treinamentos. A verba vem dos próprios projetos, que costumam ser remunerados. Entre sete empresas juniores do ramo ouvidas pelo Estadão, o preço dos serviços variou de zero (como doação) até R$ 30 mil.

Para o professor de Gestão Pública da USP Fernando Coelho, as empresas juniores são "uma oportunidade de as prefeituras acessarem equipes de trabalho qualificadas, com conhecimento e a baixo custo".

Segundo a advogada Marcela Arruda, especialista em Direito Administrativo, entidades do tipo podem inclusive ser dispensadas de licitação "seja porque o serviço custa o valor permitido na Lei de Licitações para fins de dispensa, seja em função da própria natureza, voltada para pesquisa, ensino ou desenvolvimento institucional, sem fins lucrativos".

Caminhos da carreira

Nem todos que participam dessas organizações pretendem seguir carreira pública ou tentar um mandato. Mas a percepção entre os veteranos é a de que, independentemente do rumo escolhido, a experiência tem efeitos positivos no longo prazo.

"Fui quebrando o estereótipo de que trabalhar na gestão pública é chato e burocrático", afirma Maria Marta Castro, que passou pela CJP-FGV e atualmente trabalha no laboratório de inovação da Prefeitura de São Paulo, o 011 Lab. Maria Marta usa até hoje ferramentas que aprendeu na EJ, como design thinking.

Já Alexandre Aebi, um dos fundadores da empresa júnior FEA Pública, ligada à USP, seguiu por um caminho distinto. Ele trabalha na International Finance Corporation (IFC), braço financeiro do Banco Mundial, e não deixou de aproveitar a vivência estudantil.

"Trabalho em uma entidade que é focada em aumentar investimento privado, mas você não consegue fazer isso se não olhar para o público", diz ele, para quem os conhecimentos que adquiriu na empresa júnior sobre o arcabouço regulatório brasileiro lhe são úteis até hoje.

No momento em que o País busca se reorganizar em meio aos efeitos adversos da pandemia do novo coronavírus, Alexandre pontua ainda que a experiência das empresas juniores contribui para ampliar o horizonte de atuação social dos jovens.

"O próprio fato de existir uma organização que busca inserir estudantes na gestão pública expressa a visão de que existe muita mudança a ser feita por meio do Estado, não apenas fora dele."

Veja também:

Igualdade racial: como formar uma empresa anti-racista?
Estadão
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