Apoio sem pressão e ponte com profissionais são jeitos de pais ajudarem filho na escolha da carreira

Conceito de orientação vocacional, tão comum no passado, está em desuso; especialistas defendem autoconhecimento para jovem descobrir o que interessa

18 out 2020
22h11
atualizado em 20/10/2020 às 11h59
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"Mãe, será que eu não vou me encontrar nunca?", ouvia a pedagoga Renata Del Piccolo Campos da filha Carolina, de 17 anos. A insegurança e as dúvidas tão comuns angustiavam a mãe e a adolescente no início do ano, e elas procuraram apoio da escola.

"Não é um processo tranquilo. Quer dizer, foi tranquilo porque ela foi bem conduzida", comenta Renata. A garota passou por um processo de orientação profissional dentro da escola e também com apoio de uma profissional indicada durante três meses e, hoje, já está certa que quer se graduar em Relações Internacionais.

Outras tantas famílias passam por questões semelhantes. Para especialistas, o suporte e a compreensão dos pais e parentes próximos é essencial nesse momento de escolha, mas é necessário tomar cuidado para que o apoio não se torne mais uma forma de pressão.

Coordenador do Centro de Psicologia Aplicado ao Trabalho da Universidade de São Paulo (USP), onde também é professor de Psicologia, Marcelo Afonso Ribeiro explica que é importante deixar claro que a escolha profissional feita na adolescência é a primeira de outras tantas da vida profissional, pois isso é uma forma de reduzir a tensão que existe muitas vezes quando se pensa na decisão como algo definitivo.

Outro ponto é deixar de lado a ideia de "vocação", hoje em desuso na orientação de carreira, que defende um processo mais focado no autoconhecimento e discussão de opções. "É muito mais ideia de se desenvolver, de construir um caminho", explica. Isso envolve, por exemplo, analisar as experiências do adolescente, os interesses e o que desgosta.

"Um passo antes é se perguntar o que é importante pra mim. Onde encontrar essa informação? Está mais perto do que se imagina, no cotidiano, o que se acha legal, como escolhe amigos. Pode fazer uma pergunta para o melhor amigo: 'Por que a gente se dá bem?'. Perguntar para um primo, uma tia, um tio que pode falar com mais liberdade. Essa exploração é importante."

Herança profissional

Nesse aspecto, ele comenta que todos recebem algum tipo de herança profissional, pela percepção que têm sobre as carreiras e o trabalho a partir da experiência de dentro de casa e dos círculos próximos. "Eles vão olhar essa trajetória, vão se basear, podem querer igual ou diferente", diz. Por isso, é importante passar uma imagem realista, mas não totalmente pessimista ou negativa sobre o trabalho, como se fosse exclusivamente um fardo."

Além disso, em muitos casos, essa influência também tenta, indireta ou diretamente, encaminhar o jovem para determinada área. Por isso, o professor defende que a família deve ser clara nessas situações sobre quais expectativas têm, para que todos possam estar preparados para as consequências disso. "É um peso, principalmente quando não é dito."

Segundo o professor, os pais também precisam estar preparados para entender que o mercado de trabalho mudou desde que eles próprios fizeram suas escolhas e que, hoje, as opções são distintas, com carreiras antes inexistentes. Por isso, indica que procurem se informar sobre diferentes opções que não existiam décadas atrás.

Manoela Ziebbel de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Orientação Profissional (Abop) e professora de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), destaca dois pontos: regra e acolhimento.

Manoela também afirma que a família precisa compreender que cada pessoa tem um tempo diferente e que o da maioria dos garotos da mesma idade pode não ser o mesmo do seu filho. "Tem gente que vai terminar o ensino médio sem estar pronto para escolher, o que é difícil para os pais tolerarem. É complicado perceber que toda classe decidiu. Ele vai ter de sugerir, ajudar o filho. Se não tem ideia, pergunta como pode ajudar."

A professora indica que os pais ajudem o filho a procurar profissionais das carreiras que ele tem interesse e até auxiliá-lo a se preparar antes da conversa, caso não se sinta à vontade em fazer perguntas não ensaiadas. "O ideal é conversar com o profissional se possível no local de trabalho, conhecer gente de diferentes áreas da mesma formação, que trabalham em consultório, em escritório, em diferentes ambientes, pessoas que estão felizes com a profissão, que não estão."

Também deve-se ter atenção a quem está muito certo da escolha, pois, por vezes, essa meta tão certeira pode ser mais uma estratégia para evitar perguntas ou agradar à família. "Ninguém tem certeza todos os dias que fez a melhor escolha. Quando o jovem chega com muito certeza, fico com receio."

Além disso, a internet também pode ser uma aliada nesse processo, por meio de conteúdos em formatos diversos. Para a professora, os pais podem incentivar os filhos a procurar cursos presenciais e online relacionados às áreas que têm interesse, para experimentar o que aquela área pode oferecer. "Estimule o adolescente a fazer, mas não é preciso cobrar desempenho. O que tenho de assegurar é que está tendo a experiência e refletindo sobre ela."

Auxílio profissional

Outra opção é buscar um atendimento especializado de orientação profissional. Ela destaca, no entanto, que esse processo só dá certo se o jovem consentir em participar. "Não precisa esperar até o final ensino médio, pode ser no momento que o filho comenta que está com dificuldade. Um orientador bem formado vai receber bem alguém que está em qualquer fase", diz Manoela.

Diretor-geral da Nace Orientação Profissional, Silvio Bock acredita que o 2.º ano do ensino médio é o momento ideal para esse tipo de dinâmica. "O aluno não está nem entrando nem saindo, não tem tanta pressa. A maioria das pessoas acaba procurando no 3.º ano, meio em cima da hora ou que quando já entrou no susto na faculdade e se pergunta será que isso mesmo", relata.

Na consultoria, após um primeiro encontro com os pais, os adolescentes passam por uma sequência de 12 a 15 atendimentos, duas vezes por semana, com uma hora cada. "O processo não é extrair informações, é dar condições para que o jovem descubra", diz Bock. O custo do pacote é de R$ 3,9 mil e ocorre durante a pandemia exclusivamente pela internet.

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