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Análise: redação nota 1000 no Enem citou nazismo e Hannah Arendt

Professora de redação comenta o texto da estudante, apontando as escolhas e técnicas textuais utilizadas

25 mai 2022 14h53
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A estudante Beatriz Valentini Alves foi uma dos 22 candidatos que alcançaram a nota 1000 na redação do Enem 2021. A jovem de 20 anos e moradora de São Paulo (SP) seguiu o gênero textual cobrado pelo exame, redigindo uma dissertação argumentativa de quatro parágrafos. O tema proposto na edição foi: "Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil".

Foto: Getty Images/Reprodução / Guia do Estudante

A candidata cita como introdução ao tema da invisibilidade civil as consequências da ascensão do nazismo na Europa do século 20, quando as tropas de Adolf Hitler perseguiram e marginalizaram todos os cidadãos que não se encaixavam no padrão da "raça ariana". Focando nos judeus, a estudante conseguiu conectar o tópico à situação do registro civil no Brasil, citando ainda a filósofa política alemã Hannah Arendt para falar do conceito de Estado de Exceção.

Confira a redação da Beatriz, e em seguida os comentários de Maria Catarina Rabelo Bozio, coordenadora e professora de Redação do Poliedro Colégio São José dos Campos sobre as escolhas textuais e as técnicas utilizadas.

Redação nota 1000 Enem 2021: Beatriz Valentini Alves
Redação nota 1000 Enem 2021: Beatriz Valentini Alves
Foto: Beatriz Valentini Alves/Reprodução / Guia do Estudante

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Introdução

Durante a ascensão do nazismo, os judeus foram despojados de seus direitos gradualmente, até que, por fim, tiveram seus documentos apreendidos. Com isso, tornaram-se apátridas, estrangeiros em sua própria terra. Nesse contexto, percebe-se um vínculo estreito entre cidadania e registro civil, posto que a posse de documentos comprova o indivíduo como cidadão possuidor de direitos. Essa relação também é perceptível no Brasil, em que a ausência de documentação leva à invisibilidade e perpetua um ciclo de vulnerabilidade.

Na contextualização, que é a parte inicial da introdução, fica evidente a inclusão de um repertório sociocultural legitimado pelas áreas do conhecimento e pertinente ao tema em questão, estratégia bastante comum para iniciar os textos dissertativos argumentativos. No caso da candidata, a introdução evidencia um processo histórico que culmina no despojamento dos direitos dos judeus por meio da apreensão de seus documentos durante a ascensão do nazismo. A partir da referência histórica, fica claro como a posse do documento é uma forma de garantia de direitos ao indivíduo, o que aproxima a linha de raciocínio do texto ao recorte proposto na redação do Enem 2021: "Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil".

Assim, a estudante amarra a referência ao contexto sugerido pela frase-tema e pela coletânea, algo muito importante para que seja estabelecida uma conexão entre seu conhecimento de mundo e seu posicionamento sobre o tema, que aparece nas linhas 5 e 6: "(...) no Brasil, a ausência de documentação leva à invisibilidade e perpetua um ciclo de vulnerabilidade." Na análise do conteúdo dos parágrafos de argumentação a seguir, fica clara a função dessa parte final da introdução: toda a argumentação concretiza o posicionamento central da candidata, colocado ao final da introdução - identificamos uma tese bipartida e um indício de projeto de texto que pretende dividir cada ideia apresentada em um parágrafo de desenvolvimento, o que ocorre de fato.

Desenvolvimento 1

A princípio, é preciso analisar como a falta de documentos conduz à marginalização e à nulificação do indivíduo que não os possui. Vale lembrar que, na Grécia Antiga, eram reconhecidos como cidadãos somente homens livres e descendentes de pais gregos. Esse reconhecimento concedia a oportunidade de serem escutados, e a mesma coisa se dá no Brasil contemporâneo: ser contemplado com um certificado de cidadão - neste caso, uma certidão de nascimento - garante o reconhecimento do sujeito como pertence àquele local e, além disso, receptor de proteção e serviços ofertados pelo Estado. Sob essa lógica, ser cidadão significa ter status elevado à condição de ser de direitos, enquanto aqueles que não o são permanecem vulneráveis, em uma posição marginal.

O segundo parágrafo abre a parte argumentativa do texto, apresentando uma ideia baseada na análise sobre como a falta de documentos leva à marginalização e nulificação do indivíduo. Após deixar claro o assunto do parágrafo no primeiro período, que se liga diretamente à tese, é feita uma alusão ao contexto da Grécia Antiga, que visa exemplificar a garantia de direitos por meio da comprovação da condição de cidadão, o que ocorre quando há uma certidão de nascimento. É válido ressaltar, neste parágrafo, um esforço da candidata em, mais uma vez, explicar a referência histórica e conectá-la ao contexto contemporâneo, o que evita lacunas na construção do raciocínio.

No fechamento do parágrafo, há uma breve retomada da ideia central, localizando aqueles que não possuem documentos como vulneráveis e marginalizados. Vale notar que, na linha 13, há um desvio no uso da palavra "pertence", que, pelo contexto, deveria ser "pertencente", no entanto, esse equívoco isolado não justifica descontos na nota final da participante.

Desenvolvimento 2

Ademais, convém compreender como o fato de não ser contemplado com registro civil e seus benefícios corrobora a existência de um ciclo mantenedor de indivíduos nulificados. Para a pensadora alemã Hannah Arendt, os apátridas estão sujeitos ao chamado Estado de Exceção, em que são excluídos e explorados. No Brasil, é possível observar esse cenário nas condições precárias às quais os invisibilizados têm de se submeter, a exemplo de trabalhos análogos à condição de escravidão e à impossibilidade de se obter educação formal. Nessa perspectiva, pais não registrados não conseguem registrar seus filhos, os quais têm de enfrentar as mesmas condições desumanas que seus progenitores enfrentaram. É constituído, assim, um ciclo mantenedor da invisibilidade.

Na abertura do parágrafo seguinte, notamos que a ideia central é baseada em como a falta de documentos corrobora a existência de um ciclo mantenedor de indivíduos nulificados. Nesse caso, é válido ressaltar que essa ideia é o aprofundamento de um assunto previamente indicado na tese bipartida, o que evidencia, mais uma vez, o planejamento de texto estratégico. Para embasar seu argumento nesse parágrafo, Beatriz se apoia no conceito de Estado de Exceção, de Hannah Arendt.

Com o uso de uma comparação, o argumento conecta a situação de indivíduos apátridas, que, segundo Arendt, são excluídos e explorados, à realidade precária dos invisibilizados no Brasil. Esse paralelo é comprovado com evidências, como a impossibilidade de acesso à educação formal e a condição de trabalho análogo à escravidão, que são particularidades da situação no contexto nacional. A finalização do parágrafo, vale ressaltar, destaca o ciclo de invisibilidade ao indicar a reprodução das condições desumanas, já que pais não registrados não conseguem garantir documentação aos seus filhos.

Conclusão

Depreende-se, portanto, que o registro civil é garantidor do acesso à cidadania no Brasil. Sua ausência leva à vulnerabilidade cíclica, que só pode ser transposta pela aquisição de documentação pessoal. A fim de obtê-la, é necessário que as autoridades competentes, utilizando a tecnologia disponível como meio, elabore a criação de locais especializados em auxiliar pessoas nessa situação a lidarem com toda a burocracia exigida. Somente assim todos serão, verdadeiramente, filhos da pátria.

A conclusão do texto dissertativo é iniciada por um período que identifica o registro civil como imprescindível para o acesso à cidadania no Brasil. Na continuidade do parágrafo, faz-se presente a etapa exigida no estilo de dissertação argumentativa cobrada pelo Enem: a proposta de intervenção detalhada. Os elementos obrigatórios estão todos presentes e são introduzidos por uma alusão aos à aquisição de documentos como etapa necessária à transposição da vulnerabilidade cíclica.

Na proposta elaborada por Beatriz, são apresentados os seguintes elementos: finalidade (a fim de obtê-la [documentação pessoal]), agente (autoridades competentes), meio (utilizando a tecnologia disponível), ação (elabore a criação de locais especializados em auxiliar pessoas nessa situação a lidarem com toda burocracia exigida), detalhamento (somente assim todos serão, verdadeiramente, filhos da pátria).

Ao retomar a noção de filhos da pátria na finalização do texto, a candidata consegue retomar a ideia de impossibilidade de registro dos filhos por pais que também não possuam documentos, o que evidencia o cumprimento do projeto de texto sugerido inicialmente.

Guia do Estudante
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