A educação privada está se expandindo em novos mercados e novas formas

Novos mercados e formas elevam demanda por educação no mundo e o Estado, sozinho, não tem como fornecer

21 abr 2019
03h11
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Abrigada em um emaranhado de prédios antigos à sombra da Abadia de Westminster, a Westminster School tem educado meninos desde que foi fundada em 1560 pela rainha Elizabeth I para dar aulas a 40 estudantes pobres. Ela evoluiu desde então - seus 750 alunos agora incluem algumas meninas e, com taxas de 39.252 libras por ano para internos e 27,174 libras para alunos de dia, estudantes pobres são escassos por lá. Mas, por quase meio milênio, essas premissas definiram seus limites geográficos.

Isso está prestes a mudar. Em 9 de abril teve início a construção da Westminster Chengdu, o primeiro estágio de um empreendimento com um parceiro local, o Grupo de Tecnologia de Educação Melodious, de Hong Kong. A escola deve abrir em setembro de 2020 e terá 2.500 alunos de 3 a 18 anos. Será seguida por mais cinco estabelecimentos de tamanho semelhante em outras cidades chinesas nos próximos dez anos, ao final dos quais Westminster estará educando 20 vezes mais crianças na China do que em Londres.

Uma fatia da receita da operação chinesa retornará à nave-mãe, permitindo que a Westminster aumente a proporção de alunos com bolsas de estudo na Grã-Bretanha de 5% para 20%. "Isso nos permitirá um retorno às nossas raízes", diz Rodney Harris, vice-diretor em Londres, que se muda para Chengdu em setembro para assumir o cargo principal. Ao estender o modelo na China, a escola espera abrandar a desigualdade para a qual contribui na Grã-Bretanha.

A educação costumava ser fornecida por empreendedores e organizações religiosas, mas a partir do século 18, na Prússia, os governos começaram a assumir o controle. Em anos recentes, o Estado dominou a educação no mundo rico, com o setor privado restrito à elite e aos filiados à religião. No mundo em desenvolvimento, também, novos países criados a partir de impérios que desmoronaram estavam dispostos a fornecer (e controlar) a educação, tanto para responder às ambições do povo como para moldar as mentes da próxima geração.

Agora o setor privado passa por um ressurgimento. A matrícula em escolas privadas aumentou globalmente nos últimos 15 anos, de 10% para 17% no nível primário e de 19% para 27% no secundário; os aumentos estão acontecendo não só no mundo rico como nos países de renda baixa e média. E as pessoas estão investindo mais em educação.

Quatro fatores levam ao aumento

Primeiro, as rendas estão crescendo. Com taxas de natalidade em queda, o dinheiro disponível para cada criança aumenta ainda mais rapidamente. Na China, a política do filho único significou que, em muitas famílias, seis pessoas (quatro avós e dois pais) investem na educação de uma só criança.

Em segundo lugar, as oportunidades de trabalho para os menos instruídos estão encolhendo. Mesmo bons trabalhos em fábricas exigem qualificações. Os retornos da educação aumentaram, apesar do aumento da oferta de pessoas com boa instrução. Nos países em desenvolvimento, o retorno é mais elevado, tornando ainda mais importante que jovens frequentem a escola.

Em terceiro lugar, quanto mais crianças forem instruídas, mais professores estarão disponíveis para formar o próximo lote. Isso é especialmente verdadeiro em países onde oportunidades de trabalho para mulheres são limitadas: a existência de muitas mulheres instruídas se traduz em oferta imediata de professores com baixos salários.

E a tecnologia cria uma demanda por novas capacitações nas quais o setor privado parece ser melhor em fornecer. Também abre mercados, pois a internet permite que as pessoas sejam educadas de diferentes maneiras em diferentes momentos de suas vidas.

A linha divisória entre privado e público muitas vezes é pouco evidente - muitos países têm escolas públicas que são parcialmente financiadas pelo setor privado, por exemplo, e escolas privadas que recebem financiamento público. E o tamanho e crescimento do setor privado varia por país - quanto mais desenvolvido, menor tende a ser o papel do setor privado. No Haiti, cerca de 80% dos alunos da escola primária estão sendo educados por escolas particulares; na Alemanha, apenas 5%.

Na Europa, a qualidade da instrução fornecida pelo Estado é geralmente elevada, de modo que o setor privado tende a desempenhar papel menor.

Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, a qualidade das escolas públicas é variável, o que explica os consideráveis setores privados de elite e um número crescente de escolas administradas privadamente com financiamento público. No setor terciário, as instituições privadas têm um grande papel nos EUA, tanto no topo quanto na parte de baixo do mercado; na Grã-Bretanha, o setor terciário é hoje em grande parte financiado pelo setor privado.

Na América Latina, o papel da igreja católica no ensino, a baixa qualidade da provisão estatal e o rápido crescimento da demanda por educação terciária contribuíram para um grande papel do setor privado.

Em grande parte do sul da Ásia e da África, a pobreza, a migração e o crescimento populacional dificultam que os governos ofereçam instrução em muitas cidades, de modo que o setor privado é grande e cresce rapidamente. As elites já deixaram os sistemas públicos e muitos das classes média e pobre os estão seguindo.

O Leste Asiático também tem uma provisão estatal generosa e geralmente boa, mas, diferentemente da Europa, tem um setor privado em rápido crescimento. O Vietnã tem o melhor sistema estatal de ensino em um país de baixa renda e provavelmente o setor de escolas privadas que mais cresce no mundo.

A capitalização de mercado das empresas de educação chinesas, maior do que as de quaisquer outros países, sugere que os investidores as encarem como oportunidade de ouro.

O estado chinês está restringindo o papel do setor privado entre as idades de 6 e 16 anos, mas ainda há espaço para crescimento. Se uma criança frequenta creche privada e universidade particular e recebe duas horas de aulas particulares em cada dia letivo e oito nos fins de semana, além de participar de acampamento de matemática no verão - rotina padrão para um filho de profissionais chineses - ela passará tanto tempo no setor privado quanto no estatal.

Tudo isso torna a educação atraente para os investidores, diz Ashwin Assomull, da L.E.K. Consulting. Existem cadeias grandes e crescentes, tais como a Education, empresa de Dubai com 47 escolas, a maioria no Oriente Médio; a Cognita, empresa britânica com 73 escolas em 8 países; e a Beaconhouse School Systems, empresa paquistanesa com 200 escolas em 7 países.

A principal desvantagem é a sensibilidade política do setor. O investimento privado na educação deixa os governos pouco à vontade porque coloca um bem privado contra um bem social. Os governos, como os pais, querem que as crianças aprendam, mas também querem maximizar a mobilidade social e minimizar a desigualdade, enquanto os pais simplesmente querem garantir que seus filhos tenham um desempenho melhor do que o de qualquer outra pessoa.

Esses objetivos inevitavelmente entram em conflito, então os governos regulamentam e restringem o setor privado, controlando o que é ensinado, vetando lucros, proibindo a seleção, reduzindo taxas e geralmente tornando o negócio menos atraente para os investidores. No entanto, eles também precisam dele, para trabalhar junto, canalizar suas habilidades, inventividade e capital e despejar o dinheiro dos contribuintes nele./ TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Estadão

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