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Disputa por fundo eleitoral ameaça candidaturas à Presidência

Grupos contrários ao lançamento de candidaturas próprias ao Planalto querem priorizar a Câmara

25 jul 2021 05h10
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A aprovação no Congresso Nacional de um fundo eleitoral "turbinado", de R$ 5,7 bilhões, acirrou uma disputa nos partidos entre os líderes e dirigentes que defendem e os que são contra candidaturas próprias à Presidência. O montante crescente de dinheiro público nas eleições não necessariamente beneficia o lançamento de nomes na corrida pelo Palácio do Planalto em 2022. A divisão dos recursos já mobiliza caciques e foi o combustível de uma crise interna no PSDB, por exemplo.

Como o fundo é proporcional ao número de deputados, a leitura no meio político é que os parlamentares terão prioridade total sobre candidaturas ao Executivo na hora de distribuir os recursos. O presidente Jair Bolsonaro disse que vetará o valor de R$ 5,7 bilhões, mas a expectativa no Congresso é que o montante chegue a R$ 4 bilhões, ou seja, o dobro do gasto das eleições municipais de 2020, que foi de R$ 2,035 bilhões.

Integrantes do DEM, PSL e MDB, legendas que lançaram pré-candidatos na disputa, reconhecem que não há disposição para abrir o cofre em uma eventual disputa ao Palácio do Planalto. "Não adianta figurar na eleição presidencial se não construir uma participação expressiva no Parlamento. Muitos partidos estão colocando nomes para participar do debate, mas esse processo vai se afunilar fatalmente. Todos os partidos têm o objetivo de ampliar a bancada", disse o ex-ministro da Educação e ex-deputado Mendonça Filho, que integra a direção do DEM, partido que coloca o nome de Luiz Henrique Mandetta como pré-candidato. Em 2022, Mendonça vai disputar uma vaga de deputado federal em Pernambuco.

O MDB e o PSL, que são ao lado do PT donos das maiores fatias do fundo eleitoral, planejam estar juntos na disputa presidencial do ano que vem. O MDB lançou a senadora Simone Tebet (MT) e o PSL o apresentador José Luiz Datena, mas nos bastidores as duas partes falam em uma combinação: o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar, seria vice de Tebet, e Datena disputaria o Senado em São Paulo. O acordo já esbarra, porém, em um impasse: ninguém quer pagar a conta de uma eleição majoritária.

Em 2018, o MDB só lançou Henrique Meirelles à Presidência porque não precisou gastar nada do seu fundo, que foi usado para abastecer majoritariamente campanhas para deputado. "Nosso foco principal é eleger uma bancada forte de deputados federais. Temos que concentrar esforços nisso. Todos têm que ser contemplados. Temos hoje 53 e queremos voltar pelo menos ao mesmo número", disse o deputado federal Junior Bozzella (SP), que integra a executiva nacional do PSL.

O parlamentar e outros membros da executiva do PSL estão percorrendo o País em busca de chapas proporcionais fortes nos 27 estados, o que envolve a promessa de recursos. "Não vai rolar candidato com 1%, só se ele for rico como o (Henrique) Meirelles", brincou o deputado Paulinho da Força (SP), do Solidariedade. "A maioria dessas candidaturas não é para valer. É tudo ensaio. O dinheiro vai ficar concentrado nas mãos dos deputados federais", concluiu.

Tucanos

O grupo do governador João Doria, que está em campanha nas prévias do PSDB para à Presidência, vê a disputa por recursos do fundo eleitoral como pano de fundo para o movimento que prega contra a candidatura própria do partido em 2022. Em 2018, a campanha presidencial do ex-governador Geraldo Alckmin gastou R$ 53 milhões, sendo 92,9% de valor oriundo do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o chamado fundo eleitoral. "Apenas" R$ 19,3 milhões foram destinados a campanhas de candidatos a deputados, senador e governador.

O PSDB acabou vendo sua bancada na Câmara cair de 49 para 29 deputados federais, o que deixará o partido mais "pobre" em 2022 do que estava em 2018. Na semana passada, declarações quase simultâneas de lideranças tucanas admitindo que o PSDB pode abrir mão de ter candidato próprio à Presidência em 2022 abriram uma nova crise no partido. A tese, que é defendida abertamente pelo deputado Aécio Neves (MG), tem o apoio silencioso de parte da bancada da Câmara e ganhou impulso após o presidente do partido, Bruno Araújo (PE), e o senador Tasso Jereissati (CE) deixarem essa opção em aberto em entrevistas respectivamente aos jornais O Globo e Valor Econômico.

Em reunião da executiva nacional do PSDB na segunda-feira passada, Araújo sentiu o mal-estar e tentou amenizar a situação: disse que sua intenção na verdade foi "buscar apoio do polo democrático". Além das explicações, ele também divulgou uma nota sobre o tema. "Como é tradição desde sua fundação, o PSDB trabalha sempre para ter nomes à disposição para servir ao País como candidato à presidência da República. Com as prévias, ofereceremos um nome absolutamente capaz de liderar o Brasil. Mas para isso também devemos estar abertos ao diálogo. Só pode receber apoios quem está disposto a apoiar", disse o presidente tucano.

Em uma videoconferência do grupo Parlatório, em junho, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) já havia cogitado a formação de uma aliança de centro para concorrer contra o presidente Jair Bolsonaro, atualmente sem partido, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial do ano que vem.

Na ocasião, Tasso sustentou que a viabilidade de uma candidatura alternativa, a chamada terceira via, na corrida ao Palácio do Planalto vai depender da pressão popular pelo lançamento de um candidato que não precisará ser necessariamente do PSDB. "Os que defendem que o PSDB não tenha candidato presidencial são uma minoria que pensa em seus interesses locais em vez do partido. As lideranças que não querem candidato esquecem que o partido é maior que alguns deputados em Brasília", disse o tesoureiro nacional do PSDB, César Gontijo, que é aliado de Doria.

O senador Izalci Lucas (DF) também se declarou contra a possibilidade de o PSDB ficar fora da cédula presidencial pela primeira vez desde sua fundação. "Essa é a teoria de alguns, mas não concordo", afirmou. Para o deputado federal Domingos Sávio (MG), o PSDB tem o "dever" de apresentar sua própria candidatura.

A polêmica veio à tona no PSDB no momento em que Doria vem ampliando sua base em São Paulo. Na semana passada ele filiou em apenas um dia 41 prefeitos e 26 vices de cidades pequenas e médias do interior.

Estadão
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