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A maturidade do cinema ambiental revelada no 20º FICA

13 jun 2018
15h42
atualizado às 18h15
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Falar sobre cinema ambiental há vinte anos poderia soar como "papo cabeça", coisa de "ecochato" ou "biodesagradável", para usar um termo mais atual. Os filmes, em geral românticos ou científicos, ainda engatinhavam no conteúdo e, principalmente, na técnica. Atualmente, no entanto, como mostrou a 20ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) encerrada no último domingo, na Cidade de Goiás (GO), o setor atinge a maturidade. Na opinião do diretor da Green Film Network, também fundador e diretor do Cine Eco (Portugal), Mário Branquinho, houve um grande salto qualitativo nos filmes sobre o meio ambiente.

"É uma longa viagem desde que abrimos a janela para a visão e a discussão das temáticas ambientais. Uma viagem que foi feita tanto pelo Cine Eco como pelo FICA, dois festivais que sempre andaram de mãos dadas. No início, o cinema ambiental falava basicamente sobre árvores, passarinhos. Assistimos a filmes muito minimalistas, alguns moralistas e, às vezes, científicos. Mas houve uma grande revolução de conteúdo e também tecnológica. Hoje, a partir de um celular você pode fazer um curta, e a temática ambiental envolve tudo, seus hábitos de vida, o que você come, a poluição, a qualidade da água, a destruição das florestas, as alterações climáticas e a importante questão da soberania alimentar, que emergiu fruto do agronegócio, das grandes multinacionais que dominam a economia e destroem o meio ambiente".

Se em termos de temática o cinema ambiental ganhou corpo e amplitude, no que tange à qualidade técnica, na opinião de Branquinho, a evolução foi surpreendente. "Estamos vendo que é possível fazer de um filme sobre o meio ambiente um produto atraente, desmistificando a ideia de que é ecochato, aborrecido. É possível você contar uma história, apresentar um problema, apontar soluções e fazer do seu documentário ou da sua ficção um belo objeto artístico".

Os premiados


No 20º FICA, entre os 22 filmes, de nove países, selecionados para a mostra competitiva, o júri elegeu por unanimidade como melhor obra o documentário brasileiro Construindo Pontes, da diretora paranaense Heloísa Passos. A vencedora do Troféu Cora Coralina expõe no filme sua relação conflituosa com o pai, tendo como pano de fundo o autoritarismo político que levou à destruição do paraíso natural de Sete Quedas no regime militar. A produção venceu também o prêmio do Júri Jovem.

O documentário italiano Coros do Anoitecer , de Nika Saravanja, David Monacchi e Alessandro d'Emília, foi eleito como o melhor longa-metragem, narrando a trajetória do compositor ecoacústico David Monacchi para registrar, antes que acabe, a paisagem sonora da floresta amazônica, com a maior taxa de biodiversidade do planeta. O prêmio de melhor curta ficou com a animação Plantae, dirigida pelo carioca Guilherme Gerhr. A produção trata de forma lúdica sobre as consequências irreversíveis do desmatamento.

Os três vencedores exemplificam a evolução temática e qualitativa do cinema ambiental, observada por Mário Branquinho. E, no caso do FICA, a maturidade pode ser notada além do espaço da tela do cinema, em toda a extensa programação. Este ano, além da mostra competitiva, o festival incluiu nove mostras paralelas, lançamento de filme, mesas, cursos e oficinas de cinema e meio ambiente, e ainda exposições e shows. Ao todo, 101 filmes foram exibidos durante o evento.

Não é à toa que o FICA é o festival de maior dimensão dentro da rede Green Film Network, que inclui outros 38 o gênero. "O FICA agrega em volta do cinema um conjunto de atividades paralelas que vão ao encontro das preocupações ambientais. Os debates, oficinas, shows são muito importantes para ajudar a mobilizar a sociedade. Isso ajuda a ampliar a mensagem, a levar a temática ambiental para vários públicos. O festival cumpre assim uma missão de serviço público em prol da promoção dos valores ambientais. O FICA tem feito isto muito bem ao longo dos anos e, sobretudo, nesta 20a edição".

Missão cumprida

Pioneiro entre os festivais de cinema ambiental, o Cine Eco, nasceu na cidade portuguesa de Seia, em 1995. "Eu entendia que devíamos ter um evento que ajudasse a promover os valores ambientais, porque Seia situa-se na Serra da Estrela, uma reserva bioenergética muito importante" - conta Branquinho. Inspirado na experiência portuguesa, em 1999 o Governo de Goiás criou o FICA na Cidade de Goiás, também inserida em um local de rica biodiversidade, a região da Serra Dourada.

À época comandando a pasta da Cultura e hoje Superintendente de Ação Cultural em Goiás, Nasr Chaul, faz um balanço positivo da trajetória do FICA. "Criamos o FICA em um momento em que as questões ambientais estavam altamente afloradas no mundo e um momento ímpar para a Cidade de Goiás, quando lutávamos pela conquista do título de Patrimônio Mundial. Mas não tínhamos a menor ideia de que estávamos construindo algo com as dimensões que o festival assume hoje".

O FICA é hoje considerado como o terceiro maior festival ambiental do mundo. Este ano, teve 355 obras inscritas (199 filmes estrangeiros, 156 brasileiros). "O nosso festival cresceu rapidamente de uma forma astronômica. Tanto que já a partir da 4ª edição nós precisamos reorganizar a programação no sentido de manter o foco e criar um vínculo cada vez mais íntimo entre o cinema e as questões ambientais. Foi quando ampliamos as mesas de debate e as oficinas. Hoje o FICA é um modelo de festival ambiental".

Chaul analisa também o papel do FICA no incentivo e crescimento do cinema em Goiás. "Tivemos 47 obras goianas inscritas esse ano, e muitas de grande qualidade. O FICA fez com que o cinema produzido no estado extrapolasse nossas fronteiras e, em alguns casos, até os limites do país. Fico muito feliz em ver que o FICA completa 20 anos preservando sua raiz, centralizando as ações de modo equilibrado entre o cinema e o meio ambiente. É uma sensação muito boa de missão cumprida".

Para fotos do Fica, acesse http://goo.gl/NfpY3D (crédito Photo Agência)

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