0

Demissões, nazismo e caos no Enem: o turbulento início do 2º ano de Bolsonaro na Presidência

Problemas em áreas como cultura, segurança pública e educação foram desafio para presidente neste início de ano e expuseram atritos e divergências no governo

30 jan 2020
11h11
atualizado às 11h17
  • separator
  • 0
  • comentários

O segundo ano de Jair Bolsonaro na Presidência começou turbulento. Em menos de um mês, o presidente precisou lidar com diversos problemas em áreas como cultura, segurança pública e educação.

No ano eleitoral em que tenta criar seu próprio partido e que espera levar à frente reformas como a administrativa e a tributária no Congresso ainda em recesso, as polêmicas chegaram a dividir apoiadores e ainda expõem atritos e divergências entre o presidente e ministros como Paulo Guedes, Sérgio Moro e Onyx Lorenzoni.

Janeiro de 2020 é marcado por polêmicas no governo Bolsonaro
Janeiro de 2020 é marcado por polêmicas no governo Bolsonaro
Foto: Em sentido horário: Reprodução/Twitter Sec. Cultura; Dida Sampaio/Estadão; Fábio Motta/Estadão; Rosinei Coutinho/STF; Wilson DIas/Ag. Brasil e Adriano Machado/Reuters; Gabriela Biló/Estadão (Centro) / Estadão

Veja a cronologia das polêmicas do governo Bolsonaro em 2020:

10/01 - 'Estado' revela plano de subsidiar conta de luz de igrejas

Em 10 de janeiro, o Estado revelou que Bolsonaro estudava conceder subsídio na conta de luz para templos religiosos de grande porte. A pedido dele, uma minuta de decreto foi elaborada pelo Ministério de Minas e Energia e enviada para a pasta da Economia, mas a articulação provocou forte atrito no governo, já que a equipe econômica rejeita a medida, que ia na contramão da agenda do ministro Paulo Guedes. Até apoiadores do presidente criticaram a ideia nas redes.

15/01 - Bolsonaro desiste de subsidiar luz das igrejas

Cinco dias depois, o presidente recua. "Conversei hoje com Silas Câmara (presidente da bancada evangélica na Câmara) sobre isso. Ele trouxe a proposta dele. Estava o (missionário) R. R. Soares também. O impacto seria mínimo na ponta da linha, mas a política da economia é de não ter mais subsídios. Falei com eles que está suspensa qualquer negociação nesse sentido", afirmou Bolsonaro.

15/01 - Polêmica na Secom: Wajngarten colocou irmão de auxiliar para administrar empresa

No dia 15, o jornal Folha de S. Paulo revela que o chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Fabio Wajngarten, colocou o irmão do seu adjunto, Samy Liberman, como administrador de sua empresa, a FW Comunicação e Marketing, uma firma que tem como cliente emissoras de TV e agências de publicidade que recebem recursos do governo. Fabio Liberman entrou nas empresas apenas em abril, quando Wajngarten se afastou para assumir a Secom. Seu irmão atua na área responsável pela liberação da verba de publicidade do governo. Oposição pede o afastamento de Wajngarten da Secom.

16/01 - Bolsonaro banca Wajngarten no governo

Em meio à polêmica, o presidente afirma que Wajngarten "vai continuar" no governo. Bolsonaro diz que não viu, "até agora", ilegalidade na relação da FW Comunicação e Marketing com as emissoras. "Se for ilegal, a gente vê lá na frente", disse.

16/01 - Secretário da Cultura faz vídeo com inspiração nazista

Em um vídeo em que anunciava o Prêmio Nacional das Artes, o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, ao som de Wagner, cita textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels. A peça de Wagner escolhida por secretário é um trecho da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, que Hitler disse em sua autobiografia ter tido importância capital em sua vida. Vídeo é repudiado na redes.

17/01 - Bolsonaro demite Alvim

Bolsonaro age rápido e anuncia o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. "Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência", postou o presidente no Facebook no início da tarde. "Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum". Quase duas semanas depois, a atriz Regina Duarte é confirmada para substituir Alvim no cargo.

20/01 - MEC comunica erro em 6 mil provas do Enem

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), comunica ter achado erros nas notas de 5.974 candidatos da prova. Segundo o órgão, foram revisados os resultados de todos os 3,9 milhões de participantes. O Ministério Público Federal (MPF) pede imediatamente a suspensão do Sistema Nacional de Seleção Unificada (Sisu) até correção das falhas.

21/01 - Estudantes enfrentam lentidão no Sisu

As inscrições no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do primeiro semestre de 2020 são abertas, pela internet, mas candidatos relatam nas redes sociais lentidão e falhas para se inscrever no sistema. Alguns publicaram prints de uma mensagem que apontava um "erro inesperado" e pedia para que eles tentassem se inscrever mais tarde. Em seu Twitter, o ministro Abraham Weintraub publica um vídeo em que afirma que "o Sisu está funcionando normalmente" e que cerca de 500 mil inscrições já haviam sido feitas.

22/01 - Bolsonaro diz que avalia recriar Ministério da Segurança Pública

No dia 22, o presidente Jair Bolsonaro afirma que o governo avaliaria a possível recriação do Ministério da Segurança Pública. As funções dessa área estão desde 2019 sob o comando de Sérgio Moro, que virou uma espécie de superministro ao comandar a pasta da Justiça e Segurança Pública. A declaração do presidente ocorreu em encontro no Palácio do Planalto com secretários estaduais de Segurança, sem a presença de Moro.

23/01 - Apoiadores de Moro reagem ao possível esvaziamento de 'superministério'

Um dia depois, Bolsonaro admite à imprensa contrariar o ex-juiz, retirando da pasta as políticas de combate à criminalidade, uma das principais atribuições da área e a que reúne resultados positivos até aqui. Ele poderia perder órgãos como a Polícia Federal e o Depen. Nas redes, apoiadores de Moro pedem que Bolsonaro não tire os poderes do ex-juiz.

24/01 - Bolsonaro recua sobre recriação do Ministério da Segurança Pública

Em viagem à Índia, Bolsonaro recua da ideia de tirar a segurança pública de Moro. "A chance no momento é zero, tá bom? Não sei amanhã, na política tudo muda, mas não há essa intenção de dividir", disse. "Em segurança pública, os números demonstram que estamos no caminho certo. E é a minha máxima, né, em time que está ganhando não se mexe."

24/01 - Justiça impede divulgação de resultado do Sisu

A Justiça Federal em São Paulo impede que o resultado do processo do Sisu seja divulgado após o fim das inscrições até que o governo federal comprove que o erro na correção das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi totalmente solucionado. Um dia depois, o MEC informa que a Advocacia-Geral da União (AGU) recorreria da decisão liminar.

27/01 - Bolsonaro incomodado com Santini por voo particular com avião da FAB e decide demiti-lo

O presidente Jair Bolsonaro se mostra incomodado e diz que vai demitir o então secretário-executivo da Casa Civil, Vicente Santini, que utilizou uma aeronave oficial para se deslocar até Nova Délhi, na Índia. Ministros optaram por viajar por companhias aéreas comerciais. Santini, que substitui Onyx durante as férias do ministro, viajou no dia 21 do Brasil para Davos, na Suíça, onde participou do Fórum Econômico Mundial, e de lá para a cidade indiana, onde se juntou à comitiva presidencial, revelou o jornal O Globo.

28/01 - Enem: STJ atende o governo e libera divulgação do Sisu

O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro João Otávio de Noronha, atende ao pedido do governo federal e libera no dia 28 que os resultados dos candidatos aprovados sejam divulgados. Porém, na cúpula do governo, avaliação é de que o ministro Weintraub lidou com o problema de forma "desastrosa" e que decisão judicial favorável dá "sobrevida" ao ministro.

29/01 - Após ser exonerado, Santini é recontratado

Demitido do cargo de secretário-executivo da Casa Civil no dia 28, Santini é readmitido no governo um dia depois. Ele foi nomeado como assessor especial da Secretaria Especial de Relacionamento Externo da Casa Civil, com DAS 6, um dos mais altos do serviço público. Isso significa que ele desceu um degrau em relação ao cargo anterior.

29/01 - Comissão de Ética da Presidência pede explicações a Wajngarten

Mais um capítulo da polêmica envolvendo o Secom e Fábio Wajngarten. O Globo informa que a Comissão de Ética Pública da Presidência da República notificou no dia 22 o secretário para prestar informações sobre os contratos da empresa com as agências e emissores que recebem recursos públicos.

30/01 - Após reações negativas, Bolsonaro recua e desiste de recontratar Santini

Bolsonaro anuncia no Twitter que vai "tornar sem efeito" a admissão de Santini no novo cargo. Em 12 horas, a reação negativa nas redes sociais forçou o presidente a recuar da recondução, que havia sido pedida pelo seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Episódio cai na conta de Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil.

Veja também:

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade