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Tensão com variante Delta faz estrangeiro retirar R$ 7 bi da Bolsa brasileira em julho

Apesar de o fluxo de investimentos internacionais seguir positivo no acumulado do ano - em R$ 41 bilhões -, preocupação com crescimento global e com questões políticas no Brasil frearam o otimismo no mês passado

2 ago 2021 22h06
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A maior volatilidade do mercado diante da variante Delta da covid-19, que se tornou dominante em vários países, gerou preocupação em torno dos efeitos no crescimento global e motivou o investidor estrangeiro a retirar recursos da Bolsa brasileira em julho. Os dados até o dia 28 mostram uma saída de R$ 7 bilhões, interrompendo um fluxo que vinha positivo desde março, com impulso de grande liquidez global e de um maior otimismo com o avanço da vacinação.

Os dados da B3 mostram uma maior preocupação dos investidores sobre a recuperação da economia em todo o mundo e a possibilidade, com a variante Delta, de imposição de novas restrições - o que motiva a busca por ativos mais seguros, com a retirada de dinheiro de países emergentes. "Essa saída em julho pode ser interpretada como uma reavaliação menos otimista do crescimento global", afirma Tony Volpon, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central e estrategista-chefe da gestora WHG.

Apesar da onda de retirada de recursos em julho, o saldo no ano segue positivo em R$ 41 bilhões, conforme dados da Bolsa. Em julho, porém, o sinal se inverteu. O dado de fluxo de investimentos não considera a entrada de recursos de estrangeiros em ofertas de ações, fluxo que começou a ganhar ritmo recentemente (leia abaixo). No ano passado, o fluxo de capital estrangeiro na Bolsa brasileira foi negativo em R$ 32 bilhões.

"Houve uma correção no mercado. Em relação ao mercado brasileiro houve ainda preocupações em torno da desaceleração da economia chinesa e como isso pode afetar os preços das commodities", diz Volpon. Para o economista, o movimento tende a ser passageiro e ele não vê, até o momento, chance de o mercado voltar a operar com perspectivas recessivas. "Em até dois meses acredito que voltaremos à trajetória de recuperação".

Para o estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, outro ponto relevante que ajudou a inverter o fluxo de capital dos emergentes foi a recente intervenção pelo governo do gigante asiático em setores de tecnologia e educação, com a busca de regulamentação de regras mais rígidas para a proteção de dados individuais. "Nos últimos dias isso deixou o mercado muito estressado", frisa Ferreira.

Desempenho

A Bolsa brasileira, que no início da pandemia sofreu mais do que outras localidades, vem se recuperando, mesmo que em um ritmo ainda lento, beneficiando-se da ampla liquidez global com os juros em todo o mundo ainda baixos e com recursos que foram injetados nas economias ao longo da pandemia, pelos bancos centrais.

No ano até aqui o Ibovespa, principal índice da B3, acumula alta de 5,6%, enquanto os principais índices dos Estados Unidos sobem acima de 10%. O S&P 500, por exemplo, acumula valorização de cerca de 17%. Pela Europa, são poucos exemplos de valorização abaixo do Ibovespa, como o principal índice da bolsa turca, que está no negativo. No entanto, as principais bolsas asiáticas operam no vermelho, incluindo as chinesas.

Para João Leal, economista da Rio Bravo, gestora fundada pelo ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, a fragilidade do ambiente institucional no Brasil amplifica esse resultado negativo. "A reforma tributária recentemente apresentada pelo governo merece destaque, devido às mudanças propostas sobre a tributação de dividendos. Essa insegurança jurídica é especialmente danosa no momento de reabertura da economia, postergando, por exemplo, os investimentos no País", aponta.

Somado a isso, o ambiente político também favorece essa dinâmica, com a desarticulação do governo no Legislativo e a proximidade do período eleitoral. "Tudo isso leva o país a ter uma das piores performances entre os emergentes, seja no câmbio ou na Bolsa", diz.

O peso da política

Apesar de enxergar a percepção sobre risco em relação ao governo brasileiro como exagerada, o fundador e presidente da consultoria de risco político Eurasia, Ian Bremmer, aponta que há dificuldades que envolvem a gestão da pandemia, o negacionismo climático e o esforço de Bolsonaro para deslegitimar os resultados da eleição como fatore que acabam por azedar ainda mais o humor do investidor estrangeiro.

"A vacinação está em um ritmo constante e 90% dos adultos provavelmente estarão totalmente imunizados antes do fim do ano, o que abre caminho para a recuperação econômica antes das eleições", diz Bremmer. "Tudo está contribuindo para a pressão do mercado, mas há algumas ressalvas." Mesmo na questão das acusações de fraude eleitoral, o analista vê Bolsonaro isolado.

Ofertas de ações, outro jogo

Mesmo que os estrangeiros tenham retirado recursos da Bolsa brasileira em julho, importantes fundos globais estão entrando em ofertas de ações, que neste ano já bateram o recorde de volume do ano passado. Prova disso veio há poucos dias, com a oferta subsequente do Magazine Luiza. Do total da oferta, que girou R$ 4 bilhões, 75% ficaram nas mãos dos gringos.

As ofertas nas últimas semanas começaram, inclusive, a atrair a atenção de fundos estrangeiros que há tempos não olhavam o Brasil, como a gestora americana GMO, que investiu no IPO da Multilaser, por exemplo. "O mercado está ótimo, muito líquido. E o estrangeiro está voltando, com fundos de longo prazo e com cheques grandes", comenta o sócio do BTG Pactual e responsável pela área de renda variável do banco, Fábio Nazari.

O executivo aponta que as desistências ao longo do mês são naturais, ainda mais em um momento em que o número de operações é recorde. Neste ano até aqui mais de 50 empresas suspenderam suas operações, sendo 10 apenas em julho.

"Várias ofertas foram canceladas, que mostra um mercado seletivo, mas com muito apetite para ofertas, que continuam vindo em ritmo forte", diz o estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, que aponta que essa seletividade é normal do mercado e um sinal do bom funcionamento do mercado de capitais. A boa notícia dessa safra, destaca, é o fato de as ofertas terem recebido investimentos de fundos que há algum tempo estavam afastados do mercado brasileiro.

Estadão
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