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Sem passageiros, companhias aéreas lotam aviões com cargas variadas

Operações de transporte de cargas mantêm os jatos voando num momento em que a pandemia reduziu as viagens de pessoas

26 mai 2020
05h10
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Muitos aviões de passageiros estão voando hoje basicamente vazios, mas quando o voo VS251 da Virgin Atlantic aterrissou no Aeroporto de Heathrow em Londres, numa tarde nublada no fim do mês passado, a maior parte dos 258 assentos estava ocupada.

Ninguém, porém, estava infringindo as recomendações de distanciamento social. Os assentos do avião, além do seu compartimento de carga, estavam repletos de suprimentos médicos. Era um dos nove voos da Virgin no mês passado usados no transporte de passageiros - mas sem eles - repleto de ventiladores, máscaras, luvas e outros materiais médicos vindo de Xangai para Londres.

Esse é um dos mais vívidos exemplos de como essa epidemia embaralhou totalmente a economia do setor. As empresas aéreas sempre transportaram carga com passageiros, mas nunca pensaram em usar seus aviões exclusivamente para transporte de carga. Isso mudou em março. As empresas eliminaram milhares de voos e o espaço de carga ficou vazio com o custo da remessa de produtos por avião disparando, o que foi uma razão para as companhias reformularem a utilização das suas aeronaves de passageiros ociosas.

"As operações de carga vêm mantendo no ar os aviões que, de outro modo, estariam estacionados nos aeroportos, o que nos dá mais esperança de que sairemos bem disso tudo", disse Dominic Kennedy, chefe de operações de carga da Virgin.

Antes do fim de março, a Virgin jamais havia usado um avião de passageiros para uma viagem apenas transportando carga. Agora, ela opera 90 voos por semana, mesmo que faça grandes cortes nos seus negócios. (No mês passado, o fundador da companhia, Richard Branson, prometeu hipotecar sua ilha particular no Caribe para preservar os empregos na empresa.)

A Virgin não é a única. Em março, nos Estados Unidos, cada uma das três grandes companhias aéreas começou a operar voos somente de carga. A American Airlines não realizava esse tipo de voo há três décadas. Hoje, são 140 por semana.

Mesmo a Lufthansa, da Alemanha, que há muito tempo tem operações de carga separadas, aproveitou a oportunidade e converteu seus aparelhos Airbus A330, de passageiros, para transporte de carga. No mês passado, a companhia realizou diversas viagens usando esses aviões readaptados para transportar material médico da China para Frankfurt, incluindo um voo de Xangai.

Suprimentos médicos

Os produtos que as pessoas e as empresas enviam pelo ar muda conforme a temporada, mas normalmente são caros, perecíveis, ou são urgentemente necessários ou uma combinação de ambos. Incluem produtos como smartphones, peças automotivas, frutos do mar, remédios, correspondência, encomendas, e mesmo blusas, saias e outros artigos de moda. Mas uma nova categoria surgiu com força total nos últimos meses: os suprimentos médicos.

Máscaras, luvas, ventiladores e outros materiais "provocaram um pico de demanda e são enormes volumes, mas não significa que outros produtos ou commodities desapareceram", disse Harald Gloy, chefe de operações da Lufthansa Cargo.

Em circunstâncias normais, cerca de metade de todo o frete aéreo é transportada em aviões de carga operados por companhias como UPS, FedEx e DHL. A outra metade é transportada no porão de bagagem, ou na "barriga" das aeronaves. Mas estes não são tempos normais.

Em março, com os aviões retidos nos aeroportos em todo o mundo, houve um declínio no armazenamento de carga de quase 23%, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), mas a demanda caiu numa porcentagem mais modesta, 15%.

A diferença entre oferta e demanda - juntamente com um aumento dos preços do combustível - chamou a atenção dos executivos do setor.

"Esse é um aspecto positivo para o setor porque é a única parte em operação e que vem registrando receita em alguma escala", disse Alexandre de Juniac, diretor da Associação Internacional de Transporte Aéreo, no final do mês passado.

No mundo todo, no mês passado, o preço médio para transportar um quilo de carga por avião era de US$ 3,63, um aumento de 65% em comparação com o mês de março de acordo com a WorldACD, provedora de dados que compila dados de frete de 70 empresas aéreas. Esse valor foi o mais alto registrado e o maior aumento mensal desde janeiro de 2008, quando a WorldACD iniciou a apuração desses dados.

O preço do frete para transporte de carga da Ásia disparou, impulsionado pela demanda por suprimentos médicos produzidos nas fábricas da região. Mas com a economia global avariada, a demanda por produtos normais deve cair rapidamente e o valor do frete também.

Até então, os aviões de passageiros continuarão a oferecer voos de carga e a Iata tem insistido para os governos em todo o mundo ajudarem mais. Em particular, a organização tem exortado as autoridades a acelerarem a aprovação de voos somente de carga, além de isentarem a tripulação das restrições de quarentena e auxiliarem as empresas aéreas na busca de instalações onde processar a carga e lugares para seu pessoal de bordo descansar.

Nos Estados Unidos, as empresas aéreas foram lentas para usar as cabines dos aviões para transportar carga, porque aguardavam aprovação da Federal Aviation Adimistration. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Estadão
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